Liga Portuguesa
Notas do Benfica - Porto
Benfica e Porto vivem realidades distintas e o resultado do último clássico (0-1, Quaresma ‘41) é o reflexo natural da diferença de qualidade de jogo entre as duas equipas. Analisemos, então, de forma resumida, o desempenho dos conjuntos orientados por Camacho e Jesualdo neste jogo da 12.ª jornada da liga portuguesa, começando pelos vencedores.
Porto
Na prática, como se efectivou a superioridade do Porto?Hoje, o Porto é uma equipa bastante mais desenvolvida que o Benfica e pudemos constatar isso mesmo em vários vectores, não só ao nível da qualidade individual dos jogadores, mas também na sua adequação ao modelo trabalhado, neste caso, por Jesualdo Ferreira. Especialmente durante a primeira parte, o líder do campeonato dominou de forma notória, sabendo pressionar e manter a posse de bola em zonas altas.
A vantagem de saber pressionarUma das características mais marcantes deste Porto de Jesualdo é a forma inteligente e equilibrada como a equipa executa os movimentos de pressão quando o adversário inicia as suas jogadas de ataque. Afinal de contas, o 4-3-3 e os seus intérpretes já têm meses de evolução e a tendência vai ser sempre para melhorar as rotinas e os índices tácticos do conjunto. Lisandro é um avançado absolutamente único em termos de resistência física e de persistência, e foi ele que, incansavelmente, foi perturbando a acção de Luisão e David Luiz quando estes tinham de sair a jogar. Juntamente com esse trabalho notável do argentino, não só os extremos Sektioui e Quaresma estavam atentos a Luís Filipe e a Leo, como também Raúl Meireles controlava Katsouranis, Paulo Assunção marcava Rui Costa praticamente homem-a-homem, e Lucho González estava quase sempre em cima de Petit. Com tantas barreiras nas etapas de construção do Benfica, muitas vezes vimos Quim a pontapear a bola para o meio-campo do Porto. Consequentemente, Bruno Alves, que costuma dominar no jogo aéreo, ganhou todas as bolas ao desapoiado Nuno Gomes.
Os movimentos em posse de bolaDurante a primeira parte, foi notório o domínio do Porto em todos os aspectos. Já vimos como se processaram os mecanismos de recuperação da posse de bola, mas falta ainda perceber de que forma jogaram no momento em que tinham a posse da bola. Quer em ataques rápidos, quer em troca de bola mais pausada no meio-campo do Benfica, a equipa do Porto foi exemplar na movimentação dos seus jogadores. Repararam, certamente, na quantidade de vezes que Tarik Sektioui e Ricardo Quaresma trocaram de flancos e como nunca perderam equilíbrio no seu jogo. Ambos são jogadores com qualidade técnica indiscutível, rápidos, eficazes no 1v1 e no remate, e suficientemente objectivos para saber dar um bom destino às jogadas de ataque, embora ainda possam evoluir nesse último aspecto. Porém, não foi só na simples troca de extremos que se verificou essa supremacia do Porto ao nível da mobilidade ofensiva. Lucho González tinha funções bem definidas no momento em que a equipa recuperava a posse de bola, uma vez que, depois de efectuar a marcação alta a Petit, ou abria o espaço de recepção para o lado direito, ou conduzia a bola e fornecia linhas de passe aos seus colegas pelo eixo - procurava a troca de bola, ou tentava executar o último passe. Com toda esta mobilidade, também fomentada pelas subidas de Fucile pelo lado esquerdo para dar largura ao desenho ofensivo da equipa, o Porto criou muitas dificuldades aos elementos das linhas mais recuadas do Benfica, que nem sempre acertaram com as marcações.
Gestão na segunda parteApós o intervalo, Jesualdo, com naturalidade, baixou o bloco e apostou numa estratégia de maior contenção para segurar o resultado. Mariano González (que substituiu Quaresma) foi dar mais energia a fechar o flanco esquerdo, enquanto Hélder Postiga entrou para o lugar de Tarik Sektioui, o que fez Lisandro López encostar no lado direito. O Porto deixou de pressionar alto, em comprimento, e, como é normal em situações em que se quer gerir um resultado com um recuo do bloco, apostou no reforço defensivo das alas. Logicamente, Lisandro López foi um bloqueio importantíssimo nas iniciativas de Leo. Após a entrada de Cardozo, Di María e Adu, que trouxeram mais vivacidade aos últimos trinta metros do Benfica, Jesualdo tirou Raúl Meireles para introduzir Mario Bolatti, um médio-defensivo com maior estatura e, no entender do treinador, com mais propensão para defender baixo em duplo-pivot defensivo (com Paulo Assunção).
BENFICAEnquanto o Porto tinha uma linha atacante com funções muito bem definidas e, sobretudo, com bons jogadores para as executarem, já o Benfica, com aquele onze titular, não tinha argumentos para fazer a diferença perante uma equipa tão organizada. Basta olhar para as alas das duas equipas e verifica-se que a qualidade individual dos jogadores do Benfica, excluindo o caso de Leo, é substancialmente inferior à da equipa nortenha.
As debilidades de Maxi PereiraRelativamente à ala direita, o Benfica ainda sofre as consequências de uma pré-temporada mal programada, pois Camacho não possui uma solução verdadeiramente válida para as linhas mais adiantadas daquele corredor. Maxi Pereira nunca será esse jogador, ainda por cima tendo Petit e Katsouranis mais recuados no centro do meio-campo, facto que torna a equipa muito presa e com pouca capacidade para transportar a bola e para avançar o bloco. Ora, neste clássico, com o Benfica a apresentar um 4-2-3-1 em que Maxi era o suposto extremo-direito, é óbvio que Fucile, que é craque no 1v1 defensivo, não teve dificuldades em “secar” o charrúa benfiquista. Maxi pode ter a vantagem de possuir uma boa resistência física, mas depois falha numa série de atributos fundamentais, como a condução e controlo de bola, posicionamento, drible, passe e aceleração. É um jogador a quem falta evidente qualidade para ser titular (quer como defesa, quer como médio), mas que, dadas as circunstâncias do plantel, vai sendo um dos mais utilizados. A verdade é que não é só no nervosismo de Luís Filipe que estão os problemas.
A inconsistência de RodríguezO jogo com o Porto foi, acima de tudo, uma excelente radiografia da equipa do Benfica. Cristián Rodríguez é um jogador que revela lentidão na leitura de jogo, demorando sempre mais tempo do que os colegas para executar uma jogada colectiva. Além disso, apesar de gostar de ter a bola no pé, não é particularmente forte no 1v1 e é um pouco pesado a movimentar-se. Nesse aspecto, mesmo contando com alguma imaturidade de Di María, uma aposta mais intensiva no argentino para a equipa titular seria muito mais benéfica para o Benfica. Di María é mais rápido, tem mais drible e os seus movimentos fazem mais sentido que os de Rodríguez. No fundo, Di María tem mais escola e uma margem de progressão bastante maior que a do uruguaio.
A "ausência" de Rui Costa
A má forma do recém-regressado Petit, que falhou imensos passes, intercepções e que ainda não corre com a sua velocidade normal, justifica parte do insucesso do Benfica no controlo do meio-campo. A grande fatia dos problemas da equipa da casa residiu, porém, na falta de desenvolvimento do jogo pelas alas. A não ser com esporádicas subidas de Leo a tabelar com Rodríguez, o Benfica raramente deu profundidade às suas laterais. De qualquer forma, depois faltaria sempre alguém para corresponder na grande área, uma vez que Nuno Gomes estava muito isolado entre Pedro Emanuel e Bruno Alves.
Há uma questão que é necessário analisar neste jogo: a “ausência” de Rui Costa. Rui Costa jogou atrás de Nuno Gomes e foi sempre marcado em cima por Paulo Assunção. O problema é que nem Rodríguez, nem Maxi se movimentaram à frente da defesa portista de forma a que a equipa do Benfica conseguisse criar desequilíbrios. Era fundamental que os dois extremos fizessem mais diagonais, mais roturas sem bola, que não ficassem tão estáticos. Afinal de contas, era preciso algo próximo daquilo que o Porto fez com Lucho, Sektioui, Quaresma e Lisandro – jogadores táctica e tecnicamente muito mais bem preparados. Sem ninguém a deambular nas costas de Paulo Assunção, Rui Costa ficou com a tarefa muito mais dificultada, pois nada importunou a marcação que o brasileiro efectuou ao camisola 10 do Benfica, que, aos 35 anos, já não conta propriamente com a mesma energia para fazer acelerações muito pronunciadas a fim de receber a bola. Com a saída de Katsouranis (entrada de Cardozo), Nuno Gomes foi jogar nas costas de Cardozo e Paulo Assunção deixou a marcação a Rui Costa para vigiar o camisola 21 do Benfica. Portanto, Rui Costa baixou a sua posição e, contando igualmente com a descida do bloco portista, teve mais condições para construir jogo. Como já vimos no capítulo dedicado ao Porto, com a entrada de Di María e Adu, Paulo Assunção deixou de fazer marcação individual e marcou sobretudo à zona, com Bolatti ao seu lado.
Katsouranis choca com Petit?A resposta a essa pergunta dependerá sempre do sistema e dos jogadores utilizados. De qualquer maneira, neste 4-2-3-1, é legítimo levantar uma série de dúvidas relativamente à coexistência de ambos no duplo-pivot defensivo. O grego é um médio com características bastante interessantes em termos de marcação, desarme, mas também na forma como surge na grande área do adversário em movimentos verticais sem bola para finalizar. Assim, com o actual desenho do Benfica, de apenas um ponta-de-lança, vai ser difícil que Katsouranis tire proveito desse seu ponto forte a nível ofensivo, que tantas vezes observámos no losango de Fernando Santos quando jogava ligeiramente encostado ao lado direito. Negando esse ponto forte do grego, Camacho pode estar a desenvolver uma mecânica contraproducente na equipa, pois um 4-2-3-1 com Petit e Katsouranis no duplo-pivot defensivo pode tornar o Benfica uma equipa relativamente limitada ao nível do transporte de bola pelo eixo. Por outro lado, existem outro tipo de questões relacionadas com a presença de Rui Costa, mas que ficarão para outra oportunidade. Para já, o que é mesmo fundamental – e já é tarde, tendo em conta os sete pontos de desvantagem no campeonato e a eliminação da Liga dos Campeões –, é que o Benfica invista num extremo-direito, e que Di María (no lado esquerdo) e Cardozo comecem a surgir com mais frequência no onze inicial.
Luís Catarino
» 2007-12-04