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Hoffenheim

Nada surge por acaso


Recordam-se do genérico da famosa série americana “Dallas”? Uma pequena ajuda: os nomes dos actores surgem individualmente, em letras amarelas, misturados entre imagens de arranha-céus da cidade texana, do rancho Southfork e também do estádio dos Dallas Cowboys. O fabuloso percurso realizado pelo TSG 1899 Hoffenheim é um dos temas mais apetecidos pelos media e uma boa demonstração da febre que se vive em redor deste clube dos arredores de Sinsheim (sudoeste da Alemanha) teve lugar num recente magazine semanal de resumos da Bundesliga. O que é que o Hoffenheim tem a ver com as peripécias da família Ewing? Felizmente, coisa nenhuma. Porém, a forma particularmente imaginativa com que um canal de televisão alemão decidiu pegar nos actores da fantástica aventura do Hoffenheim e montar um sketch com o formato da apresentação da série “Dallas” constitui um bom ponto de partida para retratar o actual líder do campeonato alemão. Patrick Duffy ficou naturalmente de fora da convocatória e foram nomes como o de Ralf Rangnick (treinador) ou Vedad Ibisevic (o goleador) que figuraram na lista, ao mesmo tempo que apareciam, em ecrã tripartido, tal e qual o genérico da série, imagens aéreas da vila de Hoffenheim e do novo estádio construído em Sinsheim. Tudo adaptado do genérico da série “Dallas”, inclusivamente com a mesma música. Rangnick e Ibisevic são dois dos actores do Hoffenheim, mas o principal, e que ainda não foi referido, chama-se Dietmar Hopp.


Quem é Dietmar Hopp?

Segundo dados da Forbes, Dietmar Hopp, 68 anos, principal investidor do Hoffenheim, está entre os mil homens mais ricos do mundo. Assim, percebe-se melhor o porquê da ascenção de um clube que no ano 2000 ainda actuava na 5.ª divisão e que, hoje, com 16 jornadas disputadas no ano de estreia na Bundesliga, ocupa o primeiro lugar da tabela, em igualdade com o Bayern (34 pontos), recorrendo ao melhor ataque da prova (41 golos marcados) para arrasar os adversários. Mas por que razão Dietmar Hopp, co-fundador da SAP, empresa líder em software industrial, escolheu Hoffenheim, uma pequena vila rústica com pouco mais de três mil habitantes, para investir parte da sua grande sua fortuna? A verdade é que, em tempos, Hopp jogou futebol amador no Hoffenheim e decidiu, há cerca de dez anos, começar a desenvolver projectos de longo prazo para ajudar o clube a crescer. Um dos mais ambiciosos projectos, além da melhoria gradual das condições infraestruturais, de treino e de formação de jovens jogadores, é mesmo o da construção de um novo estádio, com capacidade para 30 mil espectadores, com base em Sinsheim, cidade vizinha onde Hopp espera recrutar a maioria dos novos sócios do clube. O estádio tem inauguração prevista já para o início de 2009 – o Hoffenheim tem actuado em Mannheim enquanto a obra não ficar finalizada.


O estilo do Hoffenheim: pressão alta, agressividade e ataque intensivo



Acreditem nisto: muito poucas equipas europeias terão a capacidade e a disposição para fazer aquilo que o Hoffenheim faz em campo. É impressionante a agressividade com que os jogadores são capazes de pressionar e de dificultar a tarefa do adversário na sua primeira fase de construção e como conseguem manter um acentuado comportamento atacante ao longo de toda a partida. O treinador, Ralf Rangnick (ex-Estugarda e Schalke), tem consciência que esta estratégia de ataque intensivo e super agressivo acarreta algumas desvantagens, sendo a principal delas a aceleração da fadiga (mental e física) dos seus jogadores – o último desafio com o Bayern exemplifica bem esse detalhe. No entanto, naqueles períodos em que o Hoffenheim carrega em cima do adversário, não há quem resista e é nisso que reside a aposta de Rangnick: desmarcações agressivas e incisivas, passes rápidos e directos, sem circulação mastigada da bola, tornando o adversário mais vulnerável pelo facto de este não conseguir retomar as suas posições-base com a rapidez desejada, e muitos homens a subir para dar mais consequência às jogadas de ataque.

Uma das características das equipas que pressionam alto é a de aumentarem o número de faltas cometidas. Os jogadores do Hoffenheim, como é natural, cometem mais faltas do que o habitual, pois não só a agressividade da pressão é maior e isso origina mais intensidade no contacto físico e eventual imprecisão na disputa da bola, como também existe o perigo constante de serem apanhados em situação defensiva de igualdade numérica. Por este último motivo é que os elementos do Hoffenheim cometem muitas faltas estratégicas no meio-campo do adversário, de modo a evitar serem surpreendidos e a ganharem mais tempo para recuperar as suas posições no bloco defensivo. Rangnick joga no risco, mas é precisamente essa voracidade que torna esta equipa tão entusiasmante.


Figuras:

Na liga alemã são cada vez mais os agentes que começam a levar muito a sério o trabalho desenvolvido por esta equipa, que tem uma média de idades bastante baixa no onze titular. Alguns dos jogadores em destaque:

Timo Hildebrand (Guarda-redes, 29 anos). Assinou esta semana pelo Hoffenheim, depois de rescindir com o Valência. Já conhecia Ralf Rangnick do Estugarda – foi com ele que se estreou na Bundesliga em 1999/2000 - e irá reforçar aquele que era, visivelmente, o sector mais frágil da equipa. Ainda assim, Daniel Haas, que conquistou a titularidade à 7.ª jornada do campeonato, é ligeiramente mais consistente do que o seu antecessor, Ramazan Özkan.

Andreas Beck (Lateral-direito, 21 anos). Perdeu espaço no Estugarda e encontrou em Hoffenheim um projecto suficientemente aliciante que lhe devolveu a confiança. Em comparação com o austríaco Ibertsberger (lateral-esquerdo destro), Beck tem mais técnica no cruzamento e mais rapidez de desmarcação pelo flanco. Extremamente compenetrado, tem vindo a revelar-se como um dos melhores laterais-direitos alemães e ainda só tem 21 anos.

Marvin Compper (Defesa-central, 23 anos). É canhoto e até foi como defesa-esquerdo que jogou a maior parte das vezes no Borussia M’Gladbach, onde chegou a actuar com o defesa-central português Zé António. Aliás, foi também como defesa-esquerdo que fez o seu jogo de estreia pela selecção alemã frente à Inglaterra, no passado mês de Novembro. Essa chamada à selecção prova bem a qualidade que Compper tem exibido esta temporada, embora no Hoffenheim seja sempre defesa-central. É ele quem normalmente coloca as bolas longas para o ataque e tem também um papel importante a dar as coordenadas à linha de quatro de defesas, que normalmente actua muito subida, fabricando a armadilha do fora-de-jogo, para prensar o adversário num bloco compacto. Não tem muita aceleração, mas tem-se mostrado eficaz na antecipação dos lances e a desarmar. O seu parceiro é Matthias Jaissle, de 20 anos.

Tobias Weis (Médio-interior direito, 23 anos). Bem como Andreas Beck e Matthias Jaissle, Tobias Weis proveio do Estugarda. Weis é um médio-interior direito de enorme combatividade e é um dos mais importantes elementos quando a equipa tem de aumentar a intensidade do pressing. Luta com uma energia quase inesgotável e fez parte dos 20 convocados por Joachim Löw no último desafio particular com a Inglaterra, embora ainda não tenha concretizado a estreia.

Luiz Gustavo (Médio-defensivo, 21 anos). Importante para ganhar bolas pelo ar no meio-campo e, sobretudo, para tentar que o bloco se parta o menos possível. Uma vez que a equipa faz transições muito rápidas, por vezes com muitos jogadores a subirem no terreno, é fundamental que o brasileiro Luiz Gustavo fixe a sua posição no eixo, mantendo as suas funções de cobertura e protegendo a zona defensiva. Embora se percebam as suas restrições em campo, precisa de ganhar mais confiança a executar o passe e a conduzir a bola. É canhoto e, no ano passado, na segunda divisão, fez alguns jogos como defesa-esquerdo.

Sejad Salihovic (Médio-interior esquerdo, 24 anos). Um craque que não vai ficar mais tempo despercebido. Devido ao facto de Rangnick alinhar quase sempre com três atacantes em simultâneo (Ibisevic, Ba e Obasi), muitas vezes não há lugar para este bósnio no onze inicial, o que não deixa de ser irónico, pois trata-se de um dos melhores jogadores da liga alemã. Esquerdino com qualidade técnica, classe e excelente capacidade de inserção no espaço de finalização, Salihovic é também um fantástico executante de livres directos. Ostenta bastante carisma entre os adeptos do Hoffenheim, pois tem a particularidade de, tal como o treinador Rangnick, ter estado na subida do clube da terceira para a segunda e da segunda para a primeira divisão.

Carlos Eduardo (Médio-ofensivo, 21 anos). Um espectáculo de jogador. Já se sabia que a sua margem de progressão era grande, mas é surpreendente a forma como se tornou num jogador tão maduro em tão pouco tempo. Saiu do Grémio para representar o Hoffenheim na segunda divisão alemã em 2007/08 e foi deixando de ser aquele rapazito que era atirado para a faixa esquerda para tentar fazer qualquer coisa através de um drible. Cresceu a todos os níveis e, hoje, podemos dizer que está entre os 5 melhores jogadores da actual edição da Bundesliga. Tem um pé esquerdo com fino controlo, lê, organiza, corre, interpreta bem a missão colectiva e tanto consegue desempenhar o papel de médio interior-esquerdo, como o de falso extremo-esquerdo a flectir para o meio, aparecendo por trás dos dois avançados. Passa e remata com excelência e por alguma razão o Hoffenheim pagou sensivelmente 7M de euros pelo seu passe no ano passado. Apesar da quantidade de golos marcados por Ibisevic, Carlos Eduardo é, indiscutivelmente, o elemento mais valioso e completo do plantel.

Chinedu Obasi (Extremo-direito/segundo-ponta, 22 anos). Joga ligeiramente encostado para o lado direito do ataque e tem, tal como os outros dois atacantes, ordens para estar sempre concentrado no pressing, tanto em profundidade, como em largura. Repararam no primeiro golo do Bayern na jornada anterior? Pela primeira vez em que o Hoffenheim, mais concretamente por Obasi, falhou na armadilha da pressão alta, Lahm correu sem problemas até que ganhou espaço para marcar o golo do empate – o tipo de jogo intenso do Hoffenheim obriga, de facto, a uma grande concentração no controlo rápido dos espaços; o mínimo erro é fatal. De volta ao perfil de Obasi, é um jogador que, para além de abrir na ala direita, consegue comunicar bem atrás dos dois avançados, pois tem uma boa técnica com os dois pés. Dribla e finta a uma velocidade elevada, mas o seu papel no ataque do Hoffenheim vai muito para além da criação ofensiva, pois, como vimos, é no aumento da intensidade do pressing que esta equipa faz a diferença. Nesse capítulo, Obasi denota uma entrega irrepreensível. Não actuou nas primeiras jornadas da Bundesliga porque estava nos Jogos Olímpicos com a selecção nigeriana, finalista vencida pela Argentina.

Demba Ba (Avançado-centro, 23 anos). Rangnick não abdica dele. A primeira impressão é a de que é um avançado muito alto e tosco, mas, à medida que o forem vendo, irão perceber que tem vários pontos de interesse. É um verdadeiro jogador de equipa e não é tão bom finalizador como Ibisevic, embora seja tão ou mais influente a segurar bolas pelo ar. Está sempre a lutar e não dá um lance por perdido. Tem boa leitura das desmarcações dos colegas, faz bem o movimento de recuo para auxiliar os médios criadores e é outra peça-chave na fase da pressão alta.

Vedad Ibisevic (Avançado-centro, 24 anos). O possante avançado bósnio é o grande goleador do Hoffenheim na liga alemã, com 18 golos marcados em 16 jornadas. Esta temporada tudo lhe tem saído bem em termos de finalização dentro da grande área e neste momento deve ser o futebolista mais confiante do planeta. Em 2004, depois de actuar no campeonato universitário dos EUA pelo St.Louis, assinou pelo PSG, na altura treinado pelo compatriota Vahid Halilhodzic – tinha 20 anos e não se conseguiu impor no clube francês. Esta temporada tem sido um dos avançados em maior destaque na Europa e trata-se de outro jogador que dedica grande esforço na transição ataque-defesa, trabalhando muito bem com os seus colegas pela forma como faz o pressing. Ele e Demba Ba alternam constantemente de posição no ataque e revelam um grande entendimento nas desmarcações entre si (e com Obasi). Veremos se consegue manter um nível aproximado de golos marcados até final de época, até porque o Hoffenheim joga nos limites da resistência física.


Luís Catarino

» 2008-12-12
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