LDU
Maracanazo à equatoriana
Pela primeira vez na história da Taça Libertadores, um clube equatoriano alcançou o título de campeão. O Barcelona, de Guayaquil, esteve muito perto de o conseguir em duas ocasiões, mas, tanto em 1990 (frente aos paraguaios do Olimpia), como em 1998 (contra os brasileiros do Vasco da Gama), sairam derrotados na final. A LDU, da capital Quito, tornou-se, assim, na primeira equipa do Equador a sagrar-se campeã sul-americana, sendo que dois jogadores do actual plantel pertenceram ao conjunto do Barcelona que perdeu há dez anos com o “Vascão”: o guarda-redes José Cevallos e o ponta-de-lança Agustín Delgado. Apesar da derrota por 3-1, a LDU conquistou a Libertadores em pleno estádio do Maracanã, em desempate por grandes penalidades. Cevallos, fragilizado nesse encontro devido a uma lesão muscular (acabou por sofrer três golos de Thiago Neves no tempo regulamentar), foi fundamental nos penalties.
Utilização do 4-4-2 e do 3-5-2O argentino Edgardo Bauza é o treinador responsável pelo mais recente sucesso internacional da LDU. Contando com a solidez da dupla de médios-centro constituída por Patricio Urrutia e pelo paraguaio Enrique Vera, Bauza pôde também explanar o sistema de três defesas-centrais com mais facilidade. O desenho-tipo pressupunha a colocação de Jairo Campos na posição de defesa-direito, embora se trate de um defesa-central de origem. Por este último motivo, sempre que Bauza queria alternar a configuração do sistema para três defesas-centrais, então Campos passava a actuar do lado esquerdo do centro da defesa, com o argentino Norberto Araujo a liderar no eixo e Renan Calle no lado direito do trio. Deste modo, Paul Ambrosi (esquerda) e Joffre Guerrón (direita) tinham como função preencher toda a extensão das faixas laterais, embora o primeiro tivesse em Luis Bolaños um óptimo apoio no momento ofensivo. Em 4-4-2, ou seja, quando a equipa privilegiava a estabilidade e o controlo e não tinha tanta necessidade de assumir o risco, Ambrosi era o defesa-esquerdo, sempre com menos propensão atacante do que Guerrón.
Um jogador que merece destaque na LDU é o médio-ofensivo/segundo-ponta Damián Manso. Aos 29 anos, esta antiga promessa do futebol argentino tem um papel importantíssimo na definição dos ataques. Esquerdino, mede o último passe com precisão. É ele o mestre de cerimónias nas bolas paradas (livres e cantos), mas é sobretudo na definição do último passe e na mobilidade que consegue fazer a diferença. Atrás do ponta-de-lança e compatriota Claudio Bieler, Manso movimenta-se constantemente à procura do melhor espaço de recepção e a possibilitar linhas de penetração para os colegas.
Pontos fracos- Os defesas-centrais Norberto Araujo e Renan Calle têm um bom poder de elevação, domínio de bola e um razoável sentido de antecipação, mas têm imensos problemas quando se adiantam e têm de lidar com atacantes que imprimam alguma velocidade. Os piores períodos da LDU, quer com os mexicanos do América, quer com o Fluminense, derivaram da relativa falta de velocidade/agilidade de Araujo, Calle, mas também de Jairo Campos. Este é o elemento da equipa mais forte no jogo aéreo e é extremamente útil nas bolas paradas ofensivas. Porém, é muito lento e falta-lhe qualidade técnica para sair a jogar.
- O argentino Claudio Bieler é um avançado móvel, que foge à marcação dos defesas contrários e abre espaços para outros companheiros, mas não projecta assim tanta capacidade finalizadora para o ataque. Não chega ter espírito de sacrifício.
Pontos fortes- Joffre Guerrón e Luis Bolaños são as duas pérolas de Edgardo Bauza. Com eles em campo, a LDU teve quase sempre dinâmica nas alas.
- Os dois médios-centro. A maturidade táctica do capitão Urrutia e a omnipresença e resistência de Vera fizeram com que a equipa, em certos momentos, não perdesse totalmente o controlo das situações, como podia ter acontecido no Maracanã.
- A forma como a equipa aproveita as potencialidades de Damián Manso. Logo após a recuperação da bola, os colegas tentam colocar a bola no seu pé esquerdo, para que depois este execute o último passe. Hoje, o argentino é um jogador com mais calo e absolutamente preponderante no comportamento ofensivo da LDU.
- Tanto o médio-ofensivo Franklin Salas como o gigante ponta-de-lança Agustín Delgado são duas boas opções para se ter no banco. Devido ao castigo de Bolaños para o desafio da 2.ª mão contra o América, Salas, que é rápido e bom no 1v1, obrigou os mexicanos a uma atenção especial.
Luis Bolaños (Extremo-esquerdo, 23 anos)Dos jogadores da LDU, este será, muito possivelmente, aquele que tem mais potencial. Enquanto Guerrón preencheu activamente a ala direita, Luis Bolaños expressou o seu jogo na posição de extremo-esquerdo, revelando quase sempre tendência para entrar na zona central a partir do flanco esquerdo para concretizar o passe ou o (excelente) remate com o seu pé direito. É um extremo com um agradável controlo de bola, com frequentes mudanças de velocidade e que gosta de tabelar com os colegas e serpentear nos últimos 30 metros em movimentos de desmarcação. É evoluído no entendimento do jogo e não só é capaz de dar uma boa resposta técnico-táctica, como também possui uma admirável atitude competitiva. Tem 23 anos e vale a pena começar a seguir a sua carreira com atenção nos próximos meses.
Joffre Guerrón (Médio-direito, 23 anos)Resultado das boas exibições de Joffre Guerrón nesta edição da Taça Libertadores, os responsáveis do Getafe já o contrataram para a próxima temporada. O "Dinamite", 23 anos, foi o médio-direito do onze de Edgardo Bauza e tem na potência física a sua principal arma. É impressionante como é que, com 119 minutos de jogo nas pernas, foi capaz de fazer aquele sprint monstruoso que provocou a expulsão do defesa-central do Fluminense (Luiz Alberto), na 2.ª mão da final. Nota-se que ainda tem de aperfeiçoar bastante o modo como define os lances, pois, nas cinco partidas que tivemos oportunidade de observar, vimos Guerrón tomar algumas decisões descabidas, mesmo tendo tempo e espaço para executar melhor. Chegou inclusivamente a demonstrar algum desleixo nalgumas situações em que perdia a bola (neste aspecto vai ter obrigatoriamente de evoluir se quiser vingar em Espanha). No entanto, se estiver motivado, pode causar grandes problemas aos adversários devido à sua capacidade de arranque e incrível força muscular (é muito difícil tirar-lhe a bola quando protege com o corpo). Mostrou iniciativa para tentar o drible, cruza bem e tem um remate explosivo. O controlo de bola não é dos melhores.
Três jogadores mais velhos: Cevallos (37), Calle (31), Urrutia (30)
Três jogadores mais novos: Guerrón (23), Bolaños (23), Campos (24)
Luís Catarino
» 2008-07-23