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Ibra, lo speciale


Há jogadores que, pela rara qualidade que trazem ao jogo e pelo facto de conseguirem fazer a diferença em determinados detalhes, exigem cuidados específicos no seu enquadramento. Zlatan Ibrahimovic é, desde há muito tempo, o melhor jogador do plantel da Inter e, admito, o facto de José Mourinho ter iniciado a época 2008/09 com uma aposta regular num sistema de 4-3-3 causou-me alguma apreensão. Hoje, suponho que Mourinho já não deve ter dúvidas que o sistema de 4-4-2 é mesmo o ideal para tirar o máximo proveito dos seus melhores jogadores, sejam eles Ibrahimovic, Maicon e até Materazzi.


Porquê o uso inicial do 4-3-3?

Inviabilizada a contratação de Frank Lampard ao Chelsea, José Mourinho perdeu a oportunidade de obter um óptimo jogador para actuar no eixo do meio-campo com propensão para aparecer em zona de finalização. Lampard teria sido o reforço perfeito para o 4-4-2 deixado pelo anterior técnico, Roberto Mancini. No entanto, quem ingressou na Inter, além do médio-interior esquerdino Sulley Muntari, foram dois extremos: o brasileiro Mancini e o português Ricardo Quaresma. Qual o propósito? É possível que Mourinho tenha tido o receio natural de que a grande maioria das equipas italianas recorresse a uma excessiva concentração de jogadores no bloco defensivo e que fosse necessário ter extremos que soubessem criar oportunidades a partir dos flancos - esticar o adversário. Também é possível que o treinador português tenha tido a intenção de marcar uma distinção mais firme em relação ao trabalho de Roberto Mancini e quisesse recorrer ao sistema que utilizava nos últimos tempos do Chelsea. Por outro lado, no início de época havia ainda a questão Stankovic, um bom médio para actuar no topo de um eventual losango, mas que tardou em mostrar a sua total disponibilidade.


As vantagens do 4-4-2 na Inter

São várias as razões que poderão ter levado Mourinho a utilizar o 4-3-3 em algumas partidas, mas nenhuma delas será assim tão convincente a ponto de sacrificar o melhor jogador do plantel: Zlatan Ibrahimovic. Basta ter um pouco de memória e perceber de que forma tem jogado o avançado sueco nas várias equipas por onde passou. No Ajax, sob o comando de Ronald Koeman, fazia dupla regular com Sonck no ataque e possibilitava as roturas de Van der Vaart e Sneijder. Em Turim, com Fabio Capello, alinhava igualmente em 4-4-2, seja com Trezeguet, Del Piero ou Zalayeta e permitia que Nedved, Camoranesi e Vieira rompessem. Na selecção da Suécia, com Lars Lagerbäck, acontecia o mesmo: Henrik Larsson ou Allbäck eram seus parceiros e tanto os médios Ljungberg como Källström eram presenças habituais na zona de finalização. Por fim, também na Inter de Roberto Mancini o 4-4-2 foi constante, com Ibra em conjugação com Crespo ou Cruz, por exemplo.

Ibrahimovic tem de jogar em 4-4-2 para tirar o máximo partido da sua criatividade extraordinária. Se não houver um avançado-centro ao seu lado para marcar mais presença na grande área e ocupar a tarefa dos defesas, Ibra não tem tantas possibilidades de recuar para zonas exteriores e inventar um último passe, um toque de calcanhar ou qualquer outro momento de génio. Pelo contrário, se o colocarem mais preso à grande área, muitas vezes isolado, à espera de cruzamentos, Ibra manifesta-se da pior forma, pois falta-lhe a predisposição para jogar com o físico e, acima de tudo, falta-lhe o instinto, o faro e técnica de golo.

Entende-se, então, por que motivo Mourinho tem agora insistido tanto em Adriano, mesmo com alguns atritos pelo meio da sua relação, e a dar menos minutos a Mancini e a Quaresma. A presença de Adriano no ataque, apesar de ainda não estar na sua forma ideal, possibilita que Ibrahimovic se desloque mais vezes para as zonas exteriores onde consegue verdadeiramente fazer a diferença e jogar o seu melhor futebol. E isso faz muita, mas mesmo muita diferença. Por outro lado, os movimentos do sueco, neste formato 4-4-2, pedem as entradas dos médios pelo corredor central. No último clássico frente à Juventus, Muntari e Stankovic foram um bom exemplo nesse tipo de desmarcações. Enquanto Javier Zanetti permanecia mais atento no controlo a Nedved e às subidas de Molinaro, Muntari e Stankovic interpretavam muito bem as exigências do losango: persistência defensiva, combatividade e boa leitura dos espaços na fase de definição. O facto é que, sem o sérvio, dificilmente esta estratégia teria tanto sentido.


Clássico com a Juventus

Samuel regressou de lesão e constitui com Materazzi uma dupla de centrais muito forte do ponto de vista muscular. Embora o argentino até tenha alguma velocidade, o mesmo não acontece com Materazzi, daí que o 4-4-2 em losango, com linhas mais estáveis, seja benéfico também ao nível das transições ataque-defesa. Com um 4-3-3, onde, por exemplo, Mancini, Quaresma ou Obinna não têm muita capacidade para fechar o flanco, um ataque rápido do adversário pode provocar muito perigo pelo facto de Materazzi ter pouca corrida de não ter um apoio próximo de Cambiasso e dos restantes médios. Já em relação ao 4-4-2 em losango, não só ele confere outra segurança e não expõe Materazzi e Samuel a espaços muito abertos, onde poderiam ser batidos em velocidade pelos adversários, como também promove a supremacia física  – veja-se as dificuldades que Amauri e Del Piero tiveram para receber a bola na zona central; Materazzi e Samuel dominavam rapidamente a situação porque os espaços de acção eram mais reduzidos.

Outro ponto de interesse neste losango tem a ver com os dois laterais, capazes de dar uma boa amplitude e de decidir e executar bem na fase de construção. A Inter consegue colocar a bola directamente nos avançados com bolas longas, mas também pode subir no campo com as progressões dos dois laterais, muito confiantes com a bola nos pés e em diálogo permanente com os avançados. No caso de Maicon, que nem fez um grande jogo contra a Juventus, é ainda mais impressionante a sua capacidade de arranque e a forma como se aproxima da grande área para tabelar e rematar. Com dois laterais desta categoria, ambas as faixas laterais ficam bem preenchidas e todo o bloco mantém o seu equilíbrio. O essencial é, portanto, montar um sistema em que se consiga aplicar um modelo estratégico que tire o máximo partido das características de cada jogador. No caso de Ibrahimovic, Mourinho já terá percebido quem é o mais especial de todos.


Luís Catarino

» 2008-11-26
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