Milan
Antes competitivo, sempre competitivo
Em Milão, Beckham reencontrou-se com o seu caráter competitivo.Pela forma como se desenvolve em função das características dos jogadores, a equipa do Milan é, desde há uns meses, uma das mais entusiasmantes da Europa. A presença de Kaká e de Alexandre Pato no ataque convidou ao incremento gradual de modelos táticos mais adequados. Nessa perspetiva, Carlo Ancelotti sacrificou Ronaldinho Gaúcho, incorporou David Beckham e a dinâmica coletiva tornou-se, naturalmente, mais evoluída.
Mesmo tendo como possíveis objetivos a promoção e a evolução da MLS, nunca entendi completamente por que razão David Beckham se demitira do futebol europeu de modo tão enfadonho. Compreende-se que a parte financeira que lhe foi acenada por Los Angeles tenha sido bastante atrativa, compreende-se que as coisas se tenham tornado mais complicadas no Real Madrid com o fim do mandato de Florentino Pérez, compreende-se que a marca Beckham também tenha começado a pesar mais do que o próprio jogador, compreende-se que o desafio de ser cabeça-de-cartaz de uma liga nacional (MLS, nos EUA) até pudesse ser aliciante e compreende-se que houvesse vontade de estreitar relações com o gossip de Beverly Hills. No entanto, aquilo que mais custará aceitar é como é que um jogador que ainda estava física e tecnicamente apto para continuar a ter bons desempenhos nas ligas mais competitivas da Europa (isso era notório também na seleção inglesa) estava a desperdiçar tempo de carreira na Califórnia.
O traço marcante do MilanNa primeira linha do meio-campo, Andrea Pirlo distribui a bola quase sempre com o melhor timing e colocação, quer para as faixas laterais *, quer em profundidade. E é neste tipo de lançamentos que muitas vezes ganham protagonismo os dois grandes aceleradores deste Milan: Kaká e Pato. Eles são, muito provavelmente, o traço mais marcante deste conjunto tão bem estruturado por Carlo Ancelotti.
* além de utilizar o seu melhor pé, o direito, também recorre com muita facilidade ao esquerdo, quando a situação pede.
O grande dilema do adversárioColoquem-se na pele do treinador adversário. A vossa equipa, no momento em que o Milan tem a posse de bola, depara-se normalmente com um dilema significativo: baixar ou subir o bloco defensivo? Quais são as consequências de se ordenar um recuo da linha de defesas? Em ataque continuado, Beckham terá mais hipóteses de avançar e tirar cruzamentos em zonas de perigo, Ambrosini poderá libertar-se e surgir na grande área para cabecear, os dois laterais Jankulovski e Zambrotta ganharão mais tempo para se envolverem no ataque e irão permitir a Seedorf, Kaká e Pato (sobretudo estes três) desmarcarem-se no eixo do terço atacante, ganharem a linha de fundo e cruzarem - grande mobilidade; constantes roturas. O Milan atribui imensa importância ao jogo pelas faixas laterais, mesmo que não utilize extremos. Atentem em Beckham e Pirlo quando recebem a bola e quando fazem variações de flanco. Raramente falham um passe longo e, chegada a bola ao recetor, propicia-se novamente a desmarcação dos atacantes – isso obriga os vossos defesas a ter de voltar a analisar as marcações e linhas de passe naquele momento.
O Milan joga sem ponta-de-lança fixo e não é nada fácil lidar com este cenário. Enfim, tem vantagens e desvantagens. Mas pensem na outra hipótese: subir a vossa linha de defesas. Se Pirlo ou Beckham recebem a bola, lançam-na para a velocidade de Kaká ou Pato. Creio que basta imaginar esta jogada para adivinhar o golo certo. Um dos aspetos mais relevantes desta sociedade brasileira é a sua frieza e eficácia na cara do guarda-redes. Ambos são absolutamente extraordinários na finalização e excelentes a preencher rapidamente os espaços, aparecendo de trás.
Porquê Beckham em vez de Ronaldinho?Desde que Beckham chegou à equipa, Ronaldinho Gaúcho foi sendo afastado da titularidade e as razões prendem-se, em parte, com aquilo que foi dito acima. Além de, na medida das suas possibilidades, poder servir de auxílio defensivo a Pirlo e ao médio de cobertura do lado esquerdo (Ambrosini **), Beckham aumenta a dinâmica coletiva por vários motivos.
Antes de mais, há que ter em consideração que, na verdade, a equipa jogava bem com Ronaldinho, sem Beckham. Ronaldinho pode não estar nas condições físicas e psicológicas ideais, mas conserva uma visão e uma capacidade técnica indiscutivelmente muito boas. A questão é que, estando posicionado do lado esquerdo, com tendência para se deslocar para o meio com a bola controlada, ele convida a equipa a mastigar o jogo num sentido muito específico, reclamando um ponta-de-lança mais fixo que não existe a não ser quando Inzaghi entra em campo. A presença de Beckham, pelo contrário, confere mais largura e versatilidade de soluções, o que naturalmente favorece as desmarcações de Kaká e Pato, pois as defesas adversárias tendem a abrir, a concentrarem-se menos na grande área. O Milan desenvolveu-se como equipa, não só porque adquiriu um elemento bastante competitivo (Beckham), mas também porque encontrou uma forma de potenciar ainda mais as características daquele que é, provavelmente, o ponto mais forte do onze: a dupla Kaká e Pato. Jogar de acordo com as características destes dois brasileiros é a melhor forma de não pensar mais na ausência de um ponta-de-lança fixo.
** antes de Beckham chegar, o ataque estava demasiado dependente das subidas de Ambrosini até à zona do ponta-de-lança para dar altura ao ataque. Por vezes, devido à circulação mais lenta e denunciada da bola em ataque continuado, tornava-se difícil projetar a velocidade de desmarcação de Kaká e de Pato. Ou seja, estes eram mais facilmente anulados pelos defesas-centrais adversários porque não havia a largura desejada no desenho ofensivo em ataque continuado.Luís Catarinofoto: AP e Lapresse
» 2009-02-06