Liga dos Campeões
Vítimas do engano
O momento em que a bola rematada por Ronaldo entra na baliza de Almunia.Marcar livres diretos exige uma técnica apurada no momento em que se bate a bola, mas há um fator que pode ser tão importante quanto o remate em si: ter em conta o guarda-redes. No último Arsenal v Manchester United, da segunda mão da meia-final da Liga dos Campeões, o golo de Cristiano Ronaldo ilustra bem essa ideia. O remate é tecnicamente muito bem efetuado (em força e direcionado ao primeiro poste), mas há um detalhe que teve imensa influência na obtenção do golo e que tem a ver com a colocação de John O’Shea ao lado da barreira (de dois jogadores) do Arsenal. Como se percebe, a presença de O’Shea naquele local específico obrigou o guarda-redes Manuel Almunia a deslocar-se ligeiramente para o seu lado direito para que pudesse ver a bola partir e isso foi suficiente para que o espanhol perdesse tempo de chegada ao
rocket de Ronaldo.
Na época 2006/07, o golo de Shunsuke Nakamura pelo Celtic frente ao Manchester United foi relativamente semelhante nesse aspeto. Gravesen e Jarosik juntaram-se à barreira de cinco elementos do MU e Van der Sar, já muito distanciado da zona para onde o japonês viria a colocar a bola, ficou sem possibilidade de reação para negar o excelente remate.
Nos anos 60, a Inter treinada por Helenio Herrera celebrizara uma estratégia de livres diretos muito eficaz para aquela época. Mario Corso (esquerdino) e Luis Suárez (destro) criavam a dúvida ao guarda-redes sobre quem haveria de marcar. Depois, independentemente de quem efetuasse o remate, se o guarda-redes defendesse a bola para a frente, Giacinto Facchetti estava dentro da grande área, sempre a postos para fazer golo na recarga. Atualmente este tipo de jogada até é considerada bastante vulgar. Os detalhes estratégicos foram evoluindo constantemente ao longo dos anos e hoje é cada vez mais necessário inventar novas formas de enganar o adversário.
A este propósito, César Luis Menotti distingue três conceitos no futebol: o tempo, o espaço e o engano. “Vejam o golo que Maradona marcou aos ingleses (o segundo, nos quartos-de-final do México 86) (...) É uma corrida baseada no engano: parece que pára e não pára, que toca e não toca, que vai para a esquerda e vai para a direita. Isto é o engano”, sublinhou Menotti numa entrevista ao El Gráfico, onde acabou por concluir que os golos resultam, não tanto da distração dos defesas, mas antes da capacidade dos atacantes em saberem enganar os primeiros. ‘El Flaco’ citava inclusivamente o caso de Martín Palermo, que foge bem dos seus marcadores, mas o mesmo exemplo até podia ser dado com Juninho Pernambucano, um dos jogadores que mais treino desenvolve nesse domínio do engano, mais concretamente na conversão de livres.
Juninho não só consegue rematar com uma técnica fora-de-série, como conjuga essa virtude com uma noção muito clara sobre as melhores formas de fragilizar um guarda-redes. Notem a quantidade de vezes em que, em remates a 40 metros da baliza, o médio brasileiro pretende que a bola, em efeitos irregulares, pingue na pequena área para dificultar a tarefa do guardião adversário.
Mas Juninho conhece outras formas de controlar a situação, aproveitando, inclusivamente, a ajuda dos seus colegas de equipa. Nesta temporada, o golo do Lyon à Fiorentina (
marcado por Benzema) e também o livre direto frente ao Barcelona são mais dois bons exemplos de como ludibriar a equipa contrária. Neste último caso, em que a bola estava situada na face lateral da grande área, Juninho contou com o auxílio de Makoun e Benzema. Ambos apareceram rapidamente junto à pequena área como se fossem corresponder à bola cruzada pelo brasileiro, mas este colocou-a diretamente dentro da baliza, fazendo-a entrar junto ao segundo poste. Aparentemente parece um lance em que o guarda-redes é muito mal batido. No entanto, a verdade é que Valdés, ao ver que Makoun e Benzema se desmarcavam de forma tão decidida, não deve ter pensado noutra hipótese que não fosse o cruzamento, daí que se tivesse adiantado para tentar intercetar a bola. Acabou por ser um passo em falso por parte do guarda-redes do Barcelona, mas foi, sobretudo, um lance muito bem preparado pelo Lyon, com a marca de Juninho. Como sugere Menotti, tudo isto faz parte desse conceito intrínseco ao futebol: o engano.
Luís Catarino
foto: reuters
» 2009-05-11