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Liga dos Campeões

Bisonte no Purgatório


Decifrar as ironias e os contrastes psicológicos que palpitam num jogo de futebol torna-se, por vezes, um desafio ainda mais aliciante do que estudar uma tática ou contemplar um gesto técnico. No último Chelsea v Barcelona, a contar para a segunda meia-final da Liga dos Campeões, esses contrastes foram perfeitamente visíveis na figura de Michael Essien. O poderoso médio ganês do Chelsea, que aos nove minutos de jogo tinha colocado os londrinos em vantagem na eliminatória com um formidável remate à Zidane, foi subitamente despromovido da sua condição de herói quando não foi capaz de intercetar devidamente uma bola fácil que estava na posse do Barcelona. Dessa jogada na grande área do Chelsea resultou o grande momento de Iniesta (1-1), que acabou por qualificar os catalães em tempo de descontos.

A realização televisiva ofereceu-nos imediatamente as repetições do golo heróico de Iniesta sob diversos ângulos, a celebração desenfreada de Guardiola e, novamente, o eufórico autor do golo. Para o final da sequência de imagens, estava reservada aquela que, muito possivelmente, melhor define esta eliminatória: um plano de Michael Essien a caminhar, cabisbaixo, tendo como pano de fundo uma desfocada bancada onde estavam os adeptos do Barcelona. Visualizem, assim, o enquadramento do esmorecido Essien num cenário escuro, sombrio, com ligeiros tons avermelhados que provinham do distante grená dos acessórios culés e de um flamejante colete laranja de um assistente de recinto. Toda a fotografia, que captava os braços dos catalães a movimentarem-se num super slow-motion de delírio e de loucura, transpunha-nos para uma cena dantesca em que o “bisonte” ganês era a principal personagem.

Aquele Purgatório parecia reunir tudo o que se tinha passado na eliminatória, em particular nesta segunda mão em Londres. Nela cabiam a consternação pelas grandes penalidades não assinaladas por Ovrebo, o tormento do erro individual e, quem sabe, a derrota do elogio do físico perante um Barcelona que nunca abdicou de uma entusiasmante conceção de futebol técnico. Talvez o Chelsea tivesse mesmo alcançado a final da competição caso o árbitro norueguês tivesse assinalado os penalties que ficaram por marcar. Mas pensem também no mérito de uma equipa que, em desvantagem numérica após a expulsão de Abidal (aos 66 minutos), mostrou convicção para continuar a procurar o golo e para amedrontar o adversário sob os mesmos princípios dinâmicos que sempre a coordenaram.

Não terá sido por acaso que Essien se desorientou naquele corte aparentemente simples e que nenhuma unidade do Chelsea tenha conseguido fechar atempadamente a zona de remate frontal utilizada por Iniesta. A acumulação de fadiga mental nos londrinos, provocada pelos elevados níveis de pressão e de concentração a que tinham de estar sujeitos para acompanhar a rapidez dos jogadores do Barça, poderá explicar esses dois erros pontuais que apenas surgiram em tempos de descontos.

Na segunda parte deste jogo de Londres, numa altura em que o Barça ainda estava a perder por 1-0, Guardiola abraçou Hiddink com sorrisos e sem complexos, como que revelando estar preparado para a eliminação e simultaneamente de perfeita consciência com aquilo que a equipa tinha desenvolvido até àquela fase. Porém, o desfecho, como se viu, até veio a ser favorável ao treinador catalão.

Foi essencialmente pelo facto de a formação blaugrana saber explanar a sua mentalidade positiva, de conhecer e de treinar os pequenos truques para desvendar a melhor maneira de ir para cima do adversário, que tanto o Chelsea como até o Shakhtar *1 ficaram relativamente diminuídos e vacilaram nos instantes finais dos seus confrontos com o Barça. Apesar do desempenho bastante discutível de Ovrebo, é fundamental reconhecer a importância da empolgante e bem delineada ideia de jogo do Barcelona.


*1: No jogo de Donetsk na fase de grupos, os ucranianos estiveram a vencer o Barça por 1-0 até aos 87 minutos de jogo, altura em que o suplente Messi aproveitou um deslize do guarda-redes Pyatov para empurrar a bola para dentro da baliza. Aos 90+3, Iniesta foi claramente carregado por Srna dentro da grande área do Shakhtar, mas o árbitro Howard Webb entendeu castigar o médio catalão por simulação. Mesmo assim, apesar das adversidades, o Barcelona ainda teve forças para encontrar o golo da vitória, no minuto seguinte, após uma magnífica conclusão de Messi.

Luís Catarino

» 2009-05-10
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