Liverpool
Gerrard, o marginal
Habituámo-nos a ver o Liverpool de Benítez como uma equipa rigorosa, obediente, rígida, robotizada. Nas últimas edições da liga inglesa, porém, todo esse carácter calculista não foi suficiente para uma aproximação mais regular aos restantes candidatos à vitória na Premiership. Em jornadas perante equipas mais retraídas, era frequente os Reds encalharem e perderem pontos na tabela, muito devido à inexistência de jogadores que pudessem surpreender e fazer a diferença com rasgos individuais em momentos específicos do jogo. A chegada de Fernando Torres a Anfield no ano passado coloriu um pouco desse cenário cinzentão. Dentro e fora da grande área, o ponta-de-lança espanhol é fantástico na maneira como improvisa e encontra espaços para finalizar. Recorrendo à astúcia e à capacidade técnica, o ex-colchonero consegue resolver um jogo sozinho com um pormenor individual.
Embora no plantel do Liverpool não abundem os tais jogadores capazes de fintar o previsível, ainda existe outro grande marginal para além de Fernando Torres. Não, por acaso não é Xabi Alonso, que tenta um chapéu do meio-campo em cada dois jogos. Chama-se Steven Gerrard e, prova disso, marcou um golo absolutamente distinto na semana passada em Marselha.
Quando a bola foi entregue, devagarinho, por Dirk Kuijt, o capitão do Liverpool já tinha gravada na sua cabeça a imagem da bola enfiada na baliza de Steve Mandanda. Acreditem, aquele lance não é para qualquer um. Visualizar o alvo e, com aquele enquadramento, rematar de primeira com uma técnica tão apurada, quase como se estivesse a bater um pontapé de canto, exige uma espécie de instinto treinado ao limite. É que, para além da propensão natural para imaginar este tipo de jogadas, é necessário ir mantendo intacta a técnica de execução. Neste processo, Gerrard é ímpar.
Luís Catarino
» 2008-09-20