Lyon
O lado B de Alain Perrin
O Lyon venceu o Rangers de forma clara no Ibrox (0-3; Govou 16', Benzema 85' e 88') e qualificou-se para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. O hexacampeão francês era, aliás, obrigado a ganhar para seguir em frente, enquanto que aos escoceses bastava o empate para se juntarem ao Barcelona nos dois primeiros lugares do grupo. Importa ver de que forma o treinador do Lyon, Alain Perrin, apresentou a sua equipa em campo. Recorde-se que no desafio entre estas duas equipas disputado na 2.ª jornada, no Stade de Gerland, o Rangers venceu por 0-3. Esse desaire do Lyon significou, na altura, a segunda derrota consecutiva na prova. Que modificações houve, então, para que o Lyon tivesse realizado, na última quarta-feira, uma exibição com uma qualidade tão diferenciada?
O que melhorou no Lyon?O Lyon é uma equipa que entretanto já definiu perfeitamente a sua forma de jogar e que já não tem dúvidas sobre o melhor sistema e o modelo predominante a utilizar – ver este
texto para perceber alguns problemas relativos ao tal início de época mais conturbado, com enfoque na primeira partida com o Rangers. A verdade é que, com a utilização de Ben Arfa e Govou nas alas, o Lyon consegue, agora, ter mais capacidade para alargar a frente de ataque e não concentra tanto os seus jogadores no eixo. Porém, não é a mera utilização dos extremos que, por si só, faz com que a equipa apresente um melhor rendimento global. A questão essencial é que o Lyon estabeleceu finalmente os seus princípios de jogo no 4-3-3 e todos os jogadores têm cada vez mais uma melhor noção de como fechar ou esticar o bloco.
O caso de Kim Källström é um bom exemplo dessa evolução colectiva e o confronto com o Rangers confirmou essa ideia. Källström actuou como médio interior-esquerdo e, apesar de ainda denotar algumas falhas de concentração, tem vindo a aprender a dosear melhor o seu esforço, de modo a não se desgastar tanto de forma desnecessária na condução de bola rápida. Juntamente com o principal distribuidor, Juninho Pernambucano, o sueco fez parte da primeira grande barreira defensiva aos ataques do Rangers. O Lyon vai jogando bastante melhor com o recuo gradual do bloco e, tanto neste último jogo com o Rangers, como também nos desafios com o Estugarda e o Barcelona, vimos a equipa a defender frequentemente com quase todas as suas unidades atrás da linha do meio-campo num desenho de 4-1-4-1, apenas com Benzema solto no ataque e com Juninho, ocasionalmente, a fazer um pressing ligeiramente mais alto com intensidade moderada.
Toulalan, um médio com outro nívelUm dos jogadores fundamentais para o desenvolvimento colectivo do Lyon é Jérémy Toulalan. Tem tido alguns problemas físicos, mas, sempre que joga a titular, nota-se imediatamente o aumento de qualidade, principalmente no que diz respeito à capacidade para recuperar a bola e controlar os espaços defensivos. Tem 24 anos (não se deixem enganar pelos cabelos brancos!) mas a sua leitura de jogo é bastante avançada. Não possui muita capacidade de aceleração e, talvez por isso, às vezes comete mais faltas do que o desejável, pois também se trata de um jogador duro, que não tem medo do choque. Não é um elemento que surja muito a finalizar na área adversária, mas o seu posicionamento e a capacidade de desarme no meio-campo defensivo são notáveis. Antecipa bem os passes e os movimentos do adversário e é igualmente eficiente a dobrar os laterais e os dois médios-centro de segunda linha (Juninho e Källström).

Toulalan é, sem dúvida, um dos melhores médios-defensivos da actualidade, que actua sempre muito concentrado e que é importante para orientar os colegas a manter a coesão do sistema defensivo, sobretudo agora que Alain Perrin assumiu uma utilização mais regular do bloco médio/baixo. Toque de bola não lhe falta para sair de situações de pressão e sabe escolher bem o destino da bola após a recuperação da mesma, embora dê a sensação que precisa de ser um pouco mais eficaz nos passes de média e longa distância. De qualquer forma, em comparação com Bodmer, e mesmo com o possante Fábio Santos que até tem jogado relativamente bem sempre que é chamado, Toulalan apresenta outro nível de jogo. Afinal de contas, convém referir que Toulalan foi formado numa das academias com maior tradição no mundo no que concerne à formação de jovens futebolistas – a academia do Nantes, onde, curiosamente, também cresceram outros talentosos médios-defensivos franceses como Deschamps, Desailly ou Makelele.
Benzema e Ben Arfa: irreverência no ataqueTalentoso fora-de-série com apenas 20 anos, o avançado-centro Karim Benzema esmagou o Rangers de Walter Smith com uma exibição formidável, sendo que os dois golos (já perto do apito final) até nem foram os principais motivos de destaque no cômputo geral do seu desempenho. Contando com uma extraordinária capacidade técnica na finta, no domínio e na condução de bola em velocidade (a sua passada tem algumas semelhanças com a de Ronaldo), consegue definir sempre bem em qualquer zona do ataque, embora entre preferencialmente pelo lado esquerdo em direcção ao eixo. Os adversários acumulam-se à volta dele, importunam-no com puxões, mas Benzema nunca perde o equilíbrio e fica quase sempre com a bola em sua posse. Desde que Ben Arfa entrou com mais regularidade para a equipa titular que a equipa ganhou mais mobilidade e elasticidade no perímetro atacante. A razão deve-se ao facto de Benzema recuar com frequência até à linha do meio-campo para receber a bola e, posteriormente, proteger, progredir, driblar, ou tabelar com Ben Arfa ou Govou, que trocam muitas vezes de flanco e rompem em velocidade para desestabilizar as marcações dos adversários. Sempre que o Lyon experimentou jogar com Fred ou Baros um pouco mais fixos na grande área, com Benzema mais encostado ao lado esquerdo, abdicando um dos extremos, o ataque perdeu alguma flexibilidade e tornou-se ligeiramente mais previsível e susceptível de ser anulado. Refira-se que tanto o brasileiro como o checo atravessam um mau momento de forma.

Embora Benzema esteja alguns furos acima da concorrência, também é importante destacar o talentoso Hatem Ben Arfa, igualmente com 20 anos. Actua como extremo e é, muito provavelmente, o jogador com maior habilidade no futebol francês. Tem um pé esquerdo espectacular e muda de velocidade com imensa facilidade. Ainda tem, contudo, um longo caminho a percorrer em termos de entendimento colectivo, sendo essa uma das grandes diferenças para Benzema, que, de facto, é um avançado com uma maturidade muito evoluída em termos de movimentação com e sem bola. Apesar de uma certa imaturidade, que ainda assim vai sendo compensada com alguns pormenores técnicos excepcionais, Ben Arfa trouxe uma refrescante onda de irreverência ao ataque do Lyon. Recorde-se que o Lyon, embora fosse uma equipa muito equilibrada, estava um pouco dependente das dinâmicas produzidas pelo flanco esquerdo (Abidal e Malouda). Com a quebra dessa asa esquerda (transferidos para o estrangeiro), Perrin teve de proceder a algumas alterações, como esta aposta no virtuosismo de Ben Arfa e de Benzema – é difícil esquecer uma recepção de calcanhar feita por Benzema, em corrida, após um passe longo de Juninho, num jogo contra o Estugarda. Pela vivacidade e entusiasmo com que Benzema e Ben Arfa confrontam o adversário no 1v1 e pelo à-vontade com que correm com a bola dá a sensação que o próprio Sidney Govou, contagiado, tem vindo a ganhar mais confiança e até já arrisca alguns números técnicos que não o víamos fazer há algum tempo.
O lado B de PerrinBenzema e Ben Arfa são, portanto, parte fundamental deste lado B da carreira de Alain Perrin no Lyon. Depois de um período inicial mais propenso a alguns reparos, com lesões em jogadores nucleares à mistura (Coupet, Cris e Toulalan), o hexacampeão francês, pela mão de Perrin, virou a cassete e mostrou capacidade de resposta nos momentos mais difíceis. Tanto em Estugarda, como em Glasgow, o Lyon teve força e a sempre necessária ponta de sorte (o falhanço de Darcheville ajudou muito...) para competir com os melhores durante mais algum tempo.
Luís Catarino
» 2007-12-15