Real Madrid
Fontes do desastre
No último clássico da liga espanhola, repararam que o Real Madrid não recuou após o 1-0 marcado por Higuaín aos 13 minutos? Apesar das primeiras ameaças de Thierry Henry junto ao flanco, Juande Ramos manteve as suas linhas de defesa e de meio-campo adiantadas e não baixou o bloco. Admite-se que, numa fase inicial, o Real até quisesse correr mais riscos para tentar chegar à liderança no marcador. Jogar com linhas subidas, ainda por cima sem o devido equilíbrio tático, já era muitíssimo perigoso, mas compreende-se que alguma coisa teria de ser feita para marcar golos a Valdés. Contudo, por que razão o Real não se protegeu mais para gerir o resultado logo depois do golo de Higuaín, especialmente tendo em conta que do outro lado estava um conjunto com um nível ofensivo fortíssimo? A verdade é que este Real não tinha treino, vocação ou disponibilidade para recorrer a um plano alternativo que preconizasse uma estratégia de maior concentração defensiva. Vejamos alguns detalhes que demonstram a nítida desorientação coletiva dos
blancos nesta derrota por 2-6.
A linguagem corporal de Gago como barómetro da desorientação coletivaFace à desorganização tática evidenciada pelo Real Madrid e uma vez que estes estavam a jogar com as linhas subidas, era apenas uma questão de tempo até que o Barcelona começasse a impor as suas regras. Só a partir do momento em que o Barça fez o terceiro golo é que, por exemplo, Raúl e Higuaín começaram a recuar (sem grande método, é certo), o que é um sinal claro de que havia alguma coisa que não estava a funcionar bem na equipa orientada por Juande Ramos.
Encolhia os ombros, esbracejava, desistia de correr e abria novamente os braços em desespero. Toda a desorientação tática do Real Madrid era resumida na linguagem corporal de Fernando Gago. O argentino alinhou no centro do meio-campo apenas com a ajuda de Lassana Diarra e aqui esteve o principal problema da equipa, pois nem Marcelo, nem Robben, Raúl ou Higuaín os auxiliaram devidamente nos vários momentos do jogo. Notou-se bastante a ausência de Wesley Sneijder, pois poderia dar uma ligação consistente entre setores: passe, pressão, receção e condução (e remate).
1) Problemas no momento ofensivoQuando Gago ou Diarra queriam construir um ataque, tinham de dar a bola novamente nos defesas, pois nenhum dos outros jogadores recuava para oferecer linhas de passe – foi das primeiras coisas que Huntelaar tentou corrigir logo que entrou em campo. Por aqui se viu que o Real não conseguia sair a jogar e logo se perceberam as primeiras dificuldades ofensivas. A perda de bola de Diarra no lance do terceiro golo do Barça é sobretudo um erro individual do francês, mas não deixa de haver responsabilidades coletivas pelo facto de a equipa não apresentar variedade de soluções. A única jogada-padrão quando entravam no meio-campo do Barça era, para além de aguardar pela chegada dos habituais milagres de Higuaín, apostar em lances individuais de Robben no lado direito, tentando driblar dois ou três adversários.
2) Problemas no momento defensivoO Real foi sempre uma equipa extremamente desorganizada e desorientada nos vários momentos do jogo. Encostado ao lado esquerdo do meio-campo, Marcelo não entendia o que tinha de fazer quando Daniel Alves não subia. Robben, na direita, defendia com os olhos, enquanto Raúl e Higuaín muito raramente desceram para fechar os espaços na zona central. É lógico que Gago e Diarra tiveram muitas dificuldades nas tarefas de recuperação e o primeiro golo do Barça é disso um bom exemplo: Robben não acompanha a subida de Abidal, Diarra tem de sair da zona central para pressionar o último, Henry ganha espaço, dá a bola a Messi no centro e, também beneficiando do lapso de cobertura de Ramos, ataca o espaço deixado por Cannavaro – o italiano tinha subido ligeiramente para compensar o movimento de Diarra para a faixa lateral. Como é que tudo isto começou? No facto de Robben ter comprometido os colegas ao não ter acompanhado Abidal.
Mas há outros exemplos óbvios de desorganização e de escassa interligação entre setores. Nas várias situações em que Eto’o se fixava entre Metzelder e Heinze, repararam no posicionamento de Marcelo? Mesmo que Daniel Alves não subisse pelo flanco, Marcelo não tinha elasticidade tática para dobrar Gago ou Diarra quando estes eram forçados a sair do eixo. Perante tão grande défice coletivo de marcação, o duplo-pivô do Real ficava cada vez mais isolado e hesitante na forma como elaborava a cobertura. Gago e Diarra tinham cada vez menos certezas sobre onde e como deviam pressionar e tudo isto se devia à falta de solidariedade de Marcelo, Robben, Raúl e Higuaín. Quando algum destes quatro jogadores dava sinais de luta (ainda que quase sempre a correr sem nexo atrás da bola…), logo a seguir desistiam dos lances e é óbvio que, face a esta inconstância, Gago e Diarra não sabiam com quem podiam contar. Tendo em conta esta exasperante falta de rigor a todos os níveis, seria praticamente impossível sair bem sucedido num confronto com um Barcelona que é soberbo a explorar os espaços.
Razões para a colocação de Messi no eixoTalvez seja conveniente recuarmos até 13 Dezembro de 2008, data do jogo da primeira volta em Camp Nou entre estas duas equipas (vitória de 2-0 para o Barça). Uma das críticas que foi feita a Pep Guardiola após essa partida foi a sua insistência em querer manter Messi na faixa direita. O facto de o argentino ter estado muito tempo fora das zonas de maior perigo para o adversário convidava Ramos (defesa-esquerdo), Drenthe (médio-esquerdo) ou Gago (médio-defensivo) a não hesitarem em cometer algumas faltas duras que o iam desgastando fisicamente.
Possivelmente recordando esse detalhe, neste duelo da segunda volta no Santiago Bernabéu o treinador do Barça apostou em Messi como falso ponta-de-lança, desviando Eto’o para o lado direito do ataque em 4-3-3. Em termos práticos isto significa que, apesar de tirar Eto’o da zona do golo, o Barça ganhou um jogador extremamente rápido para aparecer nas costas de Gago e Diarra, que teriam de abrir espaços na zona central face ao pouco auxílio dos restantes colegas do Real. Ao mesmo tempo, Messi tinha condições para se movimentar mais livremente, tabelando com Henry e tentando aproveitar a lentidão de Cannavaro e de Metzelder. Por outro lado, não surgindo nos tais espaços mais suscetíveis a sofrer faltas, também se protegia de marcadores mais duros como Ramos ou Heinze.
Luís Catarinofoto: reuters
» 2009-05-04