Villarreal
O princípio de Liedholm
Mudaram-se algumas regras do jogo, as camisolas e as botas foram sendo concebidas com material mais desenvolvido, os estádios tornaram-se mais cómodos para os espectadores e a qualidade dos relvados melhorou substancialmente. São imensos os detalhes que proporcionaram ao futebol uma inovação gradual ao longo das últimas décadas. Os modelos tácticos e a estruturação do treino complexizaram-se, as transmissões televisivas estenderam-se a todo o mundo e o capital financeiro penetra na modalidade de uma forma cada vez mais feroz e impositiva. No entanto, há uma coisa que nunca mudou: o sentido da bola. É verdade que os materiais com que as bolas são produzidas são radicalmente distintos, mas aquilo que verdadeiramente importa, o carinho com que ela deve ser entendida e compreendida, manteve-se inalterável.

Uma das clássicas expressões utilizadas por Nils Liedholm nos tempos em que era treinador em Itália era a de que “quem deve suar é a bola, e não os jogadores”. Por ser de assimilação tão simples, esta frase tanto pode ser proclamada a aprendizes, como a veteranos. Observem Robert Pires, por exemplo. O francês completa hoje 35 anos de idade e dá a sensação de que todos os dias se socorre daquela máxima de Liedholm para desenvolver o seu característico estilo de jogo, com bola no chão colada ao pé, um/dois toques e um inteligentíssimo aproveitamento dos espaços. O natural descréscimo de resistência física quase que deixa de ser um obstáculo quando se tem uma capacidade de raciocínio tão amadurecida nas tomadas de decisão. É isso que torna Robert Pires um jogador admirável: pensa mais rápido do que os outros e tem absoluta confiança nessa vantagem.
Se Pires fosse jogador de Liedholm, teriamos a certeza de que haveria razões para este ficar tranquilo, pois o seu princípio estaria a ter um seguimento perfeito por parte do actual extremo do Villarreal. Agora, se, em vez de Pires, Liedholm tivesse de lidar com Cristián Rodríguez, dá para imaginar a inevitável frustração do mítico treinador sueco, pois do uruguaio não se consegue espremer outra coisa que não seja suor.
Luís Catarino
» 2008-10-29