Taça UEFA
O Getafe de Laudrup
O simples facto de se tratar de uma equipa espanhola impõe, logo à partida, uma considerável dose de respeito perante qualquer adversário. O Getafe, clube dos arredores de Madrid que apenas se estreou na primeira divisão espanhola na época de 2004/5, é um emblema que, naturalmente, ainda conserva uma história muito limitada no principal plano do futebol espanhol. No entanto, pelo futebol organizado e competitivo que os “azulones” têm vindo a exibir nos últimos tempos, o pior erro que o Benfica poderia cometer seria o de subestimar este conjunto, actualmente orientado por Michael Laudrup. Da bravura do capitão Belenguer, passando pela qualidade de passe de Rubén de la Red até às mudanças de velocidade do atacante nigeriano Uche, destacamos brevemente alguns aspectos do Getafe, o próximo adversário europeu do Benfica na Taça UEFA e que foi finalista vencido na edição anterior da Taça do Rei (derrotado pelo Sevilla).
O onze inical contra o Racing Santander na 1.ª mão das meias-finais da Taça do Rei (28/2/2008)
A experiência de David BelenguerCom 35 anos, David Belenguer é o capitão e líder absoluto da linha defensiva do Getafe. Compensa alguma falta de velocidade em distâncias prolongadas com uma larga experiência, traduzida numa excelente leitura de jogo, um apurado sentido de antecipação dos lances e um óptimo desarme. Comporta-se como um guerreiro em campo e foi treinado por Rafael Benítez na época de 1998/9, quando actuava no Extremadura. Ao lado de Belenguer deverá estar Daniel ‘Cata’ Díaz, o argentino que venceu a última edição da Libertadores com a camisola do Boca Juniors e que chegou a Espanha para substituir Alexis, transferido para Valencia no último Verão. Díaz é um defesa fisicamente bastante forte, com presença no jogo aéreo, mas que denota alguns limites em termos de reflexos e aceleração. Face à saída de Alexis, passou a ser uma das principais referências da equipa nas bolas paradas ofensivas.
O repentismo de Uche
O Getafe é uma equipa com flexibilidade nas transições defesa-ataque e existe quase sempre a preocupação em fazer um dos dois avançados descair na ala para dar mais apoios e linhas de passe. Nesse aspecto, Manu del Moral, um pouco frágil fisicamente, costuma ser um apoio bastante útil, uma vez que acompanha bem as jogadas e habitualmente serve de apoio a tabelas e desmarcações. Já Uche, que chegou ao Getafe no último Verão para substituir Daniel Güiza (17 golos na Liga + Taça do Rei em 2006/7), tem um estilo de jogo diferente do de Manu. O nigeriano é um avançado extremamente repentino e a quem não se pode dar o mínimo de espaço para rodar, pois uma das suas especialidades é precisamente a de adiantar a bola de forma muito rápida, utilizando a sua potência física e intuição de ataque. Não tem uma capacidade técnica extraordinária, mas os seus arranques e desmarcações são muito difíceis de travar caso lhe dêem espaços. Normalmente os defesas têm que cometer faltas para o segurar.
Rubén de la Red e Esteban Granero, o toque do Real Madrid

É por Rubén de la Red (na foto, à esquerda) que corre quase todo o jogo do Getafe. Actua habitualmente à frente da defesa, orientando a transição defesa-ataque com inteligência e rapidez de processos. Executa a recepção e o passe com facilidade e simplicidade e nota-se que é um jogador com escola, evoluído a todos os níveis. De la Red, 22 anos, veio esta temporada do Real Madrid e só não participou na vitória frente aos blancos pelo facto de haver uma cláusula no seu novo contrato que o impede de defrontar a sua ex-equipa. O mesmo aconteceu com Esteban Granero (na foto, à direita), que se encontra emprestado pelo Real Madrid ao Getafe. Granero, que esteve no último Mundial sub-20 realizado no Canadá, actua em linhas mais adiantadas em relação a De la Red e tem na sua capacidade de último passe a sua principal arma. Além disso, possui um óptimo drible curto e tem vindo a progredir notoriamente em termos de marcação à zona, apesar de não ser essa a tarefa para a qual está mais vocacionado.
Casquero, o elo entre meio-campo e ataqueA complementar o meio-campo surge Francisco Casquero, um dos jogadores incontornáveis no onze do Getafe e que está perto de cumprir 32 anos. Embora De la Red seja o primeiro a desenhar os lances ofensivos a partir da linha mais recuada do meio-campo, Casquero é quem geralmente imprime mais velocidade nas transições pelo eixo. Aparece com frequência à entrada da grande área para finalizar ou assistir e é um médio bastante completo, tanto na fase de construção e definição ofensiva, como a fechar os espaços ao adversário nos períodos em que a equipa não tem a posse de bola. A sua presença dá mais segurança aos seus colegas de equipa e é mais um elemento que contribui decisivamente para que o Getafe apresente um futebol marcadamente apoiado e com movimentos que favorecem a progressão em passes curtos.
Quando Laudrup pretende jogar mais baixo, dando mais poder de desarme e controlo defensivo à linha do meio-campo, uma das opções mais frequentes é a chamada de Fabio Celestini. Este médio suíço tem a desvantagem de jogar mais feio, de cometer mais faltas do que o desejável e por vezes abusa da agressividade com que disputa as jogadas com os adversários. No ano passado, Schuster atribuiu-lhe a titularidade no campeonato em 34 ocasiões, mas esta temporada tem vindo a perder peso na equipa, muito por causa da chegada de Rubén de la Red.
A dinâmica de Pablo HernándezNa fase em que a equipa se encontra com posse de bola no meio-campo adversário, existe sempre alguém a dar uma alternativa no flanco mais próximo para dar largura ao desenho ofensivo e, assim, facilitar a troca de bola com passes curtos - tanto podem ser os defesas-laterais (Licht, Contra/David Cortés), como até o próprio Manu del Moral. Porém, há um elemento do Getafe que tem uma influência especial na dinâmica pelas alas: Pablo Hernández. Jovem extremo que em breve irá completar 23 anos, tem uma enorme facilidade em jogar em qualquer uma das alas. Joga predominantemente com o pé direito e, por exemplo, quando defrontou o Real Madrid, actuou como extremo-esquerdo, com o veterano Mario Cotelo no lado direito a fechar o flanco e a tentar utilizar a sua boa capacidade de cruzamento. Pablo Hernández movimenta-se muito bem entre linhas e tem tendência para romper em diagonal para zonas interiores, não só quando surge do lado esquerdo, mas também do lado direito, conduzindo a bola com o pé direito. É muito rápido, tem boa capacidade técnica e consegue, ao mesmo tempo, ser um jogador de equipa, não havendo dúvidas que se trata de uma das revelações da liga espanhola 2007/8. Como alternativa para o lado direito, Laudrup também conta com o uruguaio Juan Ángel Albín. Quando o sul-americano entra em campo, próximo dos últimos 30 metros, Hernández pode fixar-se mais no lado esquerdo.
Abbondanzieri ou Ustari?

Michael Laudrup tem a sorte de poder contar com dois bons guarda-redes no seu plantel. Ambos argentinos. Óscar Ustari, 21 anos, tem sido escolhido com frequência para os jogos da Taça UEFA e da Taça do Rei e é possível que seja ele a defrontar o Benfica. Na verdade, Ustari só foi três vezes titular na liga espanhola porque a baliza está entregue a Roberto ‘Pato’ Abbondanzieri – aos 36 anos, é o principal guardião argentino da actualidade.
A presença de Abbondanzieri pode facilitar a evolução e adaptação do talentoso Ustari à nova realidade europeia – foi contratado ao Independiente, onde era colega de Sergio Agüero. De outra forma, seria relativamente difícil compreender porque é que a direcção presidida por Ángel Torres gastara cerca de 6M euros na contratação de Ustari e não lhe era atribuída titularidade imediata. Como foi dito acima, é muito possível que seja Ustari o escolhido para defrontar o Benfica. Contudo, se Laudrup optar pela maior experiência de Abbondanzieri – vencedor do prémio Zamora do ano passado –, há que ter atenção às reposições de bola de ‘Pato’, normalmente feitas de forma rápida para as faixas laterais.
O treinador: Michael LaudrupTem 44 anos e uma carreira brilhante como jogador, tendo inclusivamente chegado a representar Barcelona e Real Madrid, clubes onde foi colega de Luis Milla, seu actual adjunto no Getafe. Na sua fase inicial de treinador, comandou o Brondby durante quatro anos (campeão em 2004/5), tendo como adjunto o ex-internacional dinamarquês e campeão europeu de selecções em 1992, John 'Faxe' Jensen, que o acompanha no banco do Getafe juntamente com Milla. Laudrup chegou este Verão ao Getafe para substituir Bernd Schuster.
Luís Catarino
» 2008-03-01