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Liga dos Campeões

Fletcher explica muito, mas não tudo


Messi explorou a desorganização defensiva do MU no eixo do meio-campo.


O facto de o Barcelona ter apresentado dez canteranos *1 nos dezoito convocados da final demonstra como na academia de La Masia se trabalha com propósitos bem distintos em relação à grande maioria dos clubes do resto da Europa. A ambição pelos títulos é cultivada em simultâneo com o desejo de ter a bola no pé e de a tratar com consideração. Estamos perante uma forma de viver o futebol que instiga a perfeição do passe, numa lógica que vai desde a precisão no contacto com a bola, passando também pela leitura e busca constantes do melhor espaço para a receção (e recuperação).

O Barcelona 2008/09 terá sido o ponto mais alto de realização de La Masia, não só pela quantidade de jogadores oriundos da formação envolvidos na primeira equipa, mas também porque este foi um período que viu coincidir a fase de maturação de alguns dos intérpretes mais talentosos. O mérito de Pep Guardiola foi, precisamente, o de não desperdiçar esse momento único e de não operar mudanças abruptas, dando continuidade aos princípios técnicos, táticos e idiossincráticos que foram sendo estabelecidos nos jogadores desde os escalões jovens.

Hoje, o Barça é uma equipa vencedora e com um estilo próprio que subsiste numa ideia de jogo atrevida. Desenvolver um futebol com esta simplicidade já seria difícil. Mas muito mais empolgante é desafiar toda uma ordem global que sugeria que obter triunfos com a bola no pé era uma utopia. Talvez não seja caso para lhe chamar “revolucionária”, pois as ideias sempre estiveram dentro do clube. De qualquer modo, pela facilidade com que todos os jogadores do plantel absorveram, na prática, a essência e a vivacidade do passe, defendendo com posse de bola, esta equipa do Barcelona é já um marco indelével na história do futebol.

Um guarda-redes (Valdés) que negou a Cristiano Ronaldo o golo da esperança dos ingleses, um Tarzan de braçadeira que defende a camisola até à morte (Puyol), um central com grande qualidade de passe (Piqué), um miúdo (Busquets) com centímetros e toque de bola para fazer o papel de Yaya Touré no meio-campo ao lado de dois discretos quebra-cabeças no seu pico de vida futebolística (Xavi e Iniesta) e, finalmente, um rato que, como dizia Maradona, faz da bola uma parte do seu corpo (Messi). Estes eram os sete canteranos do Barça no onze titular em Roma. A equipa poderia estar mais forte caso os três defesas Márquez, Abidal e Daniel Alves estivessem disponíveis. No entanto, a verdade é que o Manchester United sentiu muito mais a ausência de um só jogador: Darren Fletcher.

*1: os dez jogadores da convocatória que atuaram nos escalões jovens do Barcelona são Valdés, Piqué, Muniesa, Puyol, Sergio Busquets, Pedrito, Xavi, Iniesta, Krkic e Messi. Sete foram titulares.


À volta do golo de Eto'o

É legítimo considerar que, pela forma como os ingleses se dispuseram em campo, as suas probabilidades de insucesso aumentaram. Perceber como sofreram o primeiro golo (aos 10 minutos, na primeira tentativa do Barça) é perceber grande parte dos problemas dos Devils neste encontro. Por um lado, há a inegável qualidade dos catalães. Por outro, notou-se no MU falta de combatividade e alguma inoperância de Ferguson em lidar com as circunstâncias.

Guardiola colocou Messi como falso ponta-de-lança, enquanto Henry (esquerda) e Eto’o (direita) encostaram ligeiramente nos flancos. No lance do primeiro golo, existe um detalhe importante, que é o posicionamento de Eto’o. Este tinha acabado de pressionar o guarda-redes e manteve-se fora-de-jogo durante alguns segundos. Quando a bola chegou a Iniesta, este iniciou a condução e Eto’o surgiu sorrateiramente por trás da defesa do MU, entre Vidic e Evra, para que ambos hesitassem na marcação – Eto’o fez este movimento várias vezes no jogo *2. Depois, o atacante camaronês recebeu a bola, ganhou o 1v1 com Vidic e concretizou na grande área. Todo o trabalho de Eto’o (com e sem bola) é um exemplo concreto da grande categoria do Barça, mas há que destacar alguns pontos negativos no momento defensivo dos ingleses. Repararam no momento em que Iniesta arrancou com a bola sensivelmente a partir da linha do meio-campo? Giggs não o pressionou e isso implicou que, num ápice, Anderson e Carrick estivessem numa situação defensiva de 2v2 contra Iniesta e Messi.


Ausência de Fletcher agravada com a saída de Anderson

Foi neste último aspeto da falta de controlo do meio-campo que residiu o principal problema do MU na final de Roma. Pode dizer-se que Alex Ferguson não teve culpas pelo facto de Fletcher estar castigado e de Hargreaves estar há muito tempo gravemente lesionado no joelho. Qualquer um deles teria dado a combatividade e a flexibilidade tática necessárias à linha média, juntamente com Carrick e, eventualmente, com um terceiro elemento que jogasse no vértice superior do triângulo (Anderson ou até Giggs). Porém, sem Fletcher e tendo em conta que do outro lado estava uma equipa com um meio-campo superior ao nível da circulação de bola, o técnico não podia esperar que Carrick e Anderson dessem conta do recado quando Giggs revelava tanta apatia na pressão e quando não havia Tevez para equilibrar a balança nesse domínio.

Além disso, não é fácil entender como é que, ao intervalo, Ferguson opta por tirar Anderson, recuando Giggs para mais próximo de Carrick. Ainda que Tevez fosse capaz de aumentar a intensidade de pressão nas linhas mais altas, é intrigante como é que o treinador do MU ofereceu o meio-campo ao Barça de maneira tão declarada. Há uma jogada no início da segunda parte em que o Barça contra-ataca, descontraidamente, e os quatro defesas ingleses estão posicionados em linha, apenas com Henry misturado. Messi e Eto’o estão à frente dessa linha de defesas, apenas com Carrick na cobertura, enquanto Park e Giggs passeavam calmamente a longos metros de distância no meio-campo… O golo de Eto’o logo aos dez minutos pode ter diminuído algum do moral dos ingleses, mas quase que não há desculpas aceitáveis para tantas facilidades num desafio com esta importância.

Voltando um pouco atrás. O facto de Anderson constituir dupla de médios mais defensivos com Carrick não é, por si, sinal de incapacidade defensiva. A questão é que, não havendo uma pressão incisiva do MU na fase inicial de construção de jogo do Barça – passividade e desorientação de Giggs *3 –, Anderson tinha frequentemente de pressionar alguns metros mais à frente. Este é um pormenor importante porque aquilo que era aconselhável num jogo com estas caraterísticas era que Anderson permanecesse com Carrick mais tempo próximo da linha de defesas para não deixar que Xavi, Iniesta e Messi tivessem condições para definir junto da grande área e para comunicar com Henry e Eto'o.

Em certas alturas, a inferioridade numérica do MU no meio-campo foi notória. A partir daí geraram-se algumas outras descompensações, como o facto de Park ser obrigado a fechar mais por dentro, o que, por exemplo, fez com que Sylvinho ganhasse mais condições de subida pelo seu flanco.

Foi em Londres, quando Fletcher viu o cartão vermelho contra o Arsenal, que o Manchester United começou a perder a final de Roma. Porém, fica a sensação que Alex Ferguson se terá precipitado, principalmente na substituição de Anderson. Obviamente não o digo com a demagogia de já conhecer o resultado final, mas digo-o porque os recentes desafios do Barcelona com o Real Madrid e com o Chelsea permitiam antever que o preenchimento do meio-campo e o aumento da combatividade eram fatores fundamentais para tentar superar o principal ponto forte dos catalães (circulação). Nesta final, e mesmo tendo em conta que Park até podia ter marcado no segundo minuto de jogo, o Manchester United cometeu erros estratégicos que fizeram com que a responsabilidade pelo resultado não estivesse apenas na ausência de Fletcher e na grande qualidade do adversário.


*2: este tipo de movimentos de recuo de Eto’o, em que se colocava entre Vidic e Evra, era outra das razões que impunha que Anderson permanecesse mais tempo junto de Carrick e não subisse tanto para pressionar aquilo que os outros (Giggs) não pressionavam.

*3: num determinado lance na primeira parte, percebeu-se como os jogadores do Barça sentiam que Giggs não constituía particular ameaça em termos de pressão. O defesa-central improvisado Yaya Touré tinha a bola em sua posse e não se importou muito com a presença do galês nas suas costas. Numa zona relativamente perigosa da defesa, rodou e saiu calmamente em condução. Se fosse com Tevez, Berbatov, Rooney ou Cristiano Ronaldo, dificilmente Touré teria tido esta tranquilidade. Refira-se, também, que as iniciativas de Touré com condução a partir da defesa criaram alguma hesitação em Rooney, que nalgumas situações não percebia quem tinha de marcar, se Touré, se Puyol, que entretanto subia pelo flanco. A passividade de Giggs notou-se também no momento ofensivo do MU, pois raramente criou linhas de passe para os colegas do meio-campo, especialmente na primeira parte. Muitos passes errados na transição para o meio-campo do Barça tiveram origem no facto de não ter havido mobilidade e linhas de passe suficientes.



A testa de Messi




Nos últimos 30 anos, foram 12 os jogadores que marcaram golos de cabeça nas finais de Taça/Liga dos Campeões Europeus. Assim, depois de Trevor Francis, Pruzzo, Kögl, Van Basten, Boli, Riedle, Morientes, Lúcio, Sol Campbell, Kuijt e Cristiano Ronaldo, foi Messi a juntar-se ao restrito lote. Quando vemos a elevação do craque de 1.70m para marcar um golo de cabeça entre O’Shea e Ferdinand, lembramo-nos, por exemplo, de um golo de há 15 anos em que Romário, na meia-final do Mundial 94 frente à Suécia, fez o golo da vitória: Jorginho cruzou do lado direito e o baixinho, mais apertado do que no lance de Messi, saltou no meio de Roland Nilsson e de Patrik Andersson para bater o guarda-redes Thomas Ravelli com a testa. A sensação de escalada de montanha ganha particular relevo e ironia quando, na equipa adversária, se encontravam atacantes com muito maior propensão para fazer golos de cabeça. No caso da Suécia, Kennet Andersson era o caso paradigmático. Na final da última quarta-feira, era Cristiano Ronaldo uma das referências preferenciais do MU no jogo aéreo, como já tinha sucedido em Moscovo, no ano passado.


Luís Catarino
foto: reuters

» 2009-05-30
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