Internacional
Estilo, golo, identidade
Por estes dias poucos são os que ainda não pensaram em estabelecer comparações entre a actual equipa do Barcelona e a
Dream Team blaugrana do início da década de 90. Mas fará realmente sentido pô-las lado a lado com o fim de eleger a mais espetacular? Partindo do princípio de que uma parte substancial do núcleo do Barcelona é constituída por Puyol, Xavi, Iniesta e Messi, já não falando de Valdés, Piqué, Busquets ou Krkic, talvez não faça muito sentido. Estes jogadores cresceram todos em La Masia (o centro de formação do Barça) e todos eles comportam uma identidade de jogo bem definida e uma determinada inteligência coletiva que lhes foi naturalmente transmitida de geração em geração. Nelas inclui-se, obviamente, a
Dream Team potenciada por Johan Cruijff. Por este motivo é que, como defendia Valdano num artigo escrito há umas semanas, não fará sentido perder tempo a tentar eleger a melhor das equipas do Barcelona.
Excluindo agora todos os elementos exteriores, relacionados com a forma como os adversários impõem a marcação ou com o aumento da intensidade de jogo que o futebol conhece nos dias de hoje, estas duas gerações do Barcelona nunca poderão ser dissociadas uma da outra devido ao facto de a mais recente ser sempre um produto derivado das anteriores. Como é que Guardiola, ainda que no seu primeiro ano de treinador de seniores, teve capacidade para pôr o Barça a jogar desta maneira? O que seria de Xavi e Iniesta, fantásticos circuladores de bola, se não tivesse havido a
Dream Team a servir-lhes de fonte (indireta) de inspiração e a regular os seus princípios de jogo? Este é um exercício que em muitos clubes não terá aplicação viável, mas o Barcelona é uma verdadeira exceção por via do dedicado trabalho de formação. Claro que haverá outros pontos de debate, como, por exemplo, definir o que é “formação”. Será desenvolver jogadores especificamente de acordo com as necessidades e idiossincrasias do clube? Ou formar jogadores com capacidades para poderem adaptar-se a qualquer outro clube? A partir de que idade é que podemos considerar que um jogador é efectivamente formado no clube? Boas questões para futuras conversas.
Quando Ibrahimovic recuperou o cisne Explicar uma jogada de Ibrahimovic é muitas vezes uma tarefa inglória porque mexe com os conceitos de génio e criatividade. Aí não me aventuro muito. No entanto, o segundo golo que o avançado da Inter marcou à Reggina no passado fim de semana suscita-me uma interpretação ligeiramente distinta, mais complementar.
Ibra recebeu a bola descaído no lado direito, evitou dois defesas enquanto entrava na zona central e, quando chegou à zona D, executou com o pé esquerdo um remate subtil, por alto, a Puggioni, o guarda-redes
calabrese.
Deu-me uma sensação de
déjà vu… É nestas alturas que tiro especial proveito desse sagrado espaço do meu cérebro que diz respeito à memória futebolística. Recordo-me de um golo marcado na época 1985, igual a este de Ibra. Posso dizer-vos que o local da receção foi mais ou menos o mesmo, bem como o movimento de penetração com a bola (fugindo a dois adversários) e a zona onde o remate de pé esquerdo (com a mesma subtileza e colocação) foi efetuado. Este golo de 1985 foi trabalhado com mais velocidade, mas a semelhança é, em tudo, impressionante. Até o guarda-redes bate na relva da mesma maneira! Só falta dizer quem foi o autor desse golo: o cisne de Utrecht, Marco van Basten. Van Basten jogava pelo Ajax e, neste dia 27 de Maio de 1985, assinou em Amesterdão uma obra-prima contra o Volendam.
Ibrahimovic tinha, então, 3 anos de idade e aos 19 viria a ser jogador do Ajax. Tudo isto pode ter sido coincidência, como também pode não ter sido. Eu quero acreditar que não foi e o exemplo que citei a propósito do Barcelona é a melhor justificação que encontrei para corroborar essa tese. Ninguém disse a Ibrahimovic para imitar aquele golo de Van Basten. O que acontece é que quem apreende uma realidade como a do Ajax espelha certos ensinamentos técnicos e táticos que são perfeitamente identificáveis e padronizados, tal como acontece na passagem de testemunho entre gerações no Barça. Vimos este tipo de lances noutros antigos craques do Ajax; não só em Cruijff, como também em Van Basten, Bergkamp e Litmanen. Ibrahimovic é o último da descendência e o mais irónico é que, se calhar, nem se apercebeu de que tinha acabado de replicar alguém que também já tinha crescido na mesma casa.
Golo de Van BastenGolo de Ibrahimovic
Luís Catarino
foto: Reuters
» 2009-03-24