Barcelona
Em busca do sorriso perdido
Encostado à linha lateral, melancólico e impotente para reagir. Há meses que Ronaldinho escondeu o sorriso largo e hoje o seu futebol é dominado não pela alegria, mas antes pelo excesso de peso e pela imensa especulação sobre uma possível transferência. A significativa perda de condição atlética de Ronaldinho, também devido a uma lesão no tornozelo que se arrastou durante muito tempo, é mais do que evidente.

O último Barcelona – Real Madrid serviu para mostrar a perturbante dificuldade que o brasileiro manifestou nos momentos em que tinha de superar os adversários em situações de 1v1: a capacidade de explosão, a clarividência, a leveza e a mobilidade são menores. Lembrem-se de como jogava o melhor Ronaldinho no Barcelona, por exemplo há duas épocas. Ocupava a mesma posição-base de falso extremo-esquerdo – Rijkaard não alterou o sistema de 4-3-3 –, queria ter a bola no pé, a equipa canalizava grande parte do jogo para o lado esquerdo, mas a forma como o brasileiro procurava os espaços interiores para receber a bola e depois distribuí-la era bastante mais intensiva.
Abidal não dá apoios no meio-campo adversário como Van Bronckhorst? O tridente do meio-campo está menos unido do que nas épocas anteriores e isso obriga a dinâmicas mais cautelosas por parte dos laterais, que, por sua vez, afectam o jogo dos atacantes? Eto’o não está fisicamente a 100% e, por isso, no clássico, não caiu no lado esquerdo de modo a potenciar a mobilidade do brasileiro? É legítimo levantar todas estas questões e até a contratação de Henry merece ser analisada. Porém, há outras razões de fundo que poderão ter mais... peso. Ronaldinho é um jogador que, tendo como termo de comparação aquilo que já demonstrou, tem vindo a registar um decréscimo substancial na sua condição atlética, verificada na menor capacidade de explosão e de reacção.
A juntar a este detalhe fundamental, subsiste também um outro tipo de questão, relacionado com a convivência do grupo. Já nesta época, Edmílson falou publicamente na existência de ovelhas negras dentro do Barcelona, que só queriam dinheiro, festas e contratos publicitários. O alvo das críticas de Edmílson era claramente Ronaldinho e as conversas entre Puyol, Iniesta e Xavi deram a entender que havia situações a necessitar de ser reparadas. Até que ponto alguns dos jogadores do plantel, depois de conquistar a Liga Espanhola e a Liga dos Campeões, continuam a ser orientados de forma a apresentarem-se na máxima força e a terem a mesma ambição para lutar pelos mesmíssimos desafios?
O futuro de Ronaldinho poderia ter a sua solução apenas na melhoria da sua condição física. No entanto, analisando numa perspectiva mais drástica, poderá ser essencial uma mudança de ambiente, que lhe possibilite viver uma realidade distinta e, sobretudo, traçar outros objectivos e desafios. Assim, este caso de Ronaldinho parece ser um daqueles em que é preciso haver um clique para voltar tudo à sua excepcional normalidade. Resta saber se o interruptor para recuperar o sorriso se encontra em Milão ou em Londres, pois em Barcelona está próximo do curto-circuito.
Luís Catarino
» 2007-12-28