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Crise em Gerland?




Apenas um mau momento, ou algo mais do que isso? As duas pesadas derrotas do Lyon na Liga dos Campeões – em Barcelona e em casa frente ao Rangers – fizeram aumentar o clima de pressão sobre os responsáveis do hexacampeão francês. No entanto, existem algumas condicionantes que, obviamente, implicaram uma mudança natural no estilo de jogo do Lyon. Será que se justifica empregar o termo “crise” à actual realidade em Gerland?


Alain Perrin e o desvanecimento da anterior dinâmica do 4-3-3

Alain Perrin é o treinador que substituiu Gérard Houllier no final da temporada anterior. Perrin, registe-se, já havia sido convidado pelo presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas, em 2002, na altura para colmatar a saída de Jacques Santini do comando técnico do clube. Perrin preferiu assinar contrato com o Marselha, mas acabou por vincular-se ao Lyon cinco anos depois, ou seja, neste Verão de 2007, logo após a conquista da Taça de França pelo Sochaux.

Orientar o Lyon também tem as suas dificuldades, apesar de o clube possuir uma capacidade financeira incomparavelmente superior às dos outros emblemas franceses. Uma dessas dificuldades é, por exemplo, a de motivar e estabelecer objectivos a jogadores que estão numa equipa que nos últimos seis anos foi sempre campeã nacional. É certo que existirá a miragem da Liga dos Campeões, competição na qual o Lyon nunca conseguiu fazer corresponder os resultados das eliminatórias com as suas ambições. Além disso, alguns jogadores nucleares foram transferidos para o estrangeiro neste Verão, como Abidal, Tiago e Malouda. Como iremos ver de seguida, a saída desses três elementos teve um peso bastante grande e implicou mudanças no modelo de jogo colectivo da equipa.

Alain Perrin é um confesso defensor do 4-4-2 e foi esse sistema que foi tentando implementar na Peace Cup – torneio que o Lyon disputou durante a pré-época na Coreia do Sul. Até que ponto essa tentativa de transição do antigo 4-3-3 de Houllier não tem prejudicado a dinâmica colectiva nalguns desafios, como neste caso da humilhante derrota ante o Rangers, ou, inclusivamente, na partida do Camp Nou, em que os jogadores, estruturados num 4-4-2, entraram bastante receosos?


Implicações negativas devido à perda de dinâmica no lado esquerdo

Uma das notas dominantes na equipa do Lyon da última época era a insistência das jogadas pelo lado esquerdo. Éric Abidal e Florent Malouda jogavam de olhos fechados. Cooperavam muito bem entre si e a dupla era uma das grandes armas da equipa. Florent Malouda era um dos melhores intérpretes na conciliação entre trabalho defensivo e precisão na definição dos ataques. No 1v1 para a linha de fundo, ou deslocando-se para espaços interiores, o actual jogador do Chelsea tomava quase sempre as melhores decisões e impunha os ritmos adequados. Era o jogador perfeito para dar profundidade ao flanco esquerdo e, ao mesmo tempo, actuar como segundo-ponta atrás do avançado-centro. Simultaneamente, Réveillère e François Clerc/Sidney Govou costumavam impor uma maior dose de futebol directo no lado direito. Essa era a forma de dinamizar os flancos e proporcionar as entradas dos médios-centro na grande área, como Juninho e Tiago.

Contra o Rangers, Perrin apostou, de facto, num 4-3-3. No entanto, se tiveram a oportunidade de observar os movimentos de Benzema e Govou, repararam que todo o seu jogo se concentrava na zona central e isso só facilitou a tarefa defensiva do Rangers – à medida que os golos dos escoceses iam surgindo, a tarefa de Walter Smith foi ficando mais fácil com o recuo do bloco. Benzema, Baros e Govou trocavam algumas vezes de posição, mas a norma era procurar tabelas e passes curtos pelo corredor central. Karim Benzema, 19 anos, está a realizar uma óptima temporada naquela posição híbrida entre o flanco esquerdo e a zona do ponta-de-lança. O regresso de Fred após prolongada lesão, ou mesmo a permanência de Milan Baros como avançado-centro, devem fazer com o que Benzema (9 golos no campeonato) se mantenha próximo do lado esquerdo e manifeste, no terreno, essa tendência de Perrin para a aplicação de um desenho de dois avançados-centro.

Esta solução exige, todavia, que a equipa apresente maior profundidade nos flancos, designadamente no lado direito, onde Kader Keita será uma excelente alternativa a Govou, que não está em boa forma – desde que o marfinense actue mais próximo da linha, claro. No entanto, também o lado esquerdo precisa que Fabio Grosso seja capaz de apresentar um futebol consistente (defensiva e ofensivamente), o que não se tem verificado. Exceptuando nos últimos jogos do Mundial de 2006, o seu futebol esteve longe de convencer Roberto Mancini e a crítica, em geral. Com a saída de Abidal e Malouda, o Lyon abdicou dessa espécie de exclusividade na condução dos ataques pelo lado esquerdo e, neste desafio com o Rangers, vimos uma equipa com menos precisão e menos cinismo, denotando uma acumulação excessiva de jogadores no corredor central e com pouca clarividência nos desdobramentos. A presença de jogadores de grande capacidade técnica como Belhadj ou Ben Arfa, por si só, não iria solucionar essa questão.


O meio-campo e a saída de Tiago para Turim

Além de ter perdido dinâmica em todo o flanco esquerdo, o Lyon sofre igualmente as consequências da transferência de Tiago para a Juventus. Tiago era o médio-centro que, além de ter uma boa entrada no espaço de finalização, dava uma grande capacidade de circulação de bola à equipa, ao mesmo tempo que defendia próximo do médio mais defensivo, Toulalan. No jogo com o Rangers, perante a não utilização de Toulalan, que é um jogador muito seguro a escolher as opções de passe como pivot defensivo, o médio mais recuado começou por ser Mathieu Bodmer. Este tem actuado como defesa-central neste início de temporada, não só devido à lesão de Cris, mas também à do suíço Patrick Muller. Apesar de se ter notabilizado como médio-ofensivo no Lille, foi como defesa-central que Bodmer fez a formação no Caen, não estranhando, por isso, a adaptação ao lado de Squillaci. Uma vez que Anderson finalmente entrou no onze, então Bodmer passou para o meio-campo. É um jogador com uma grande disponibilidade e muito equilibrado. No entanto, não tem a mesma astúcia de Toulalan a gerir o meio-campo e a construir jogo. De qualquer forma, face à concentração de avançados à frente da grande área escocesa, Kallstrom e Juninho não tinham muitas opções de passe para poder dar a melhor consequência ao crescente avolumar de jogo ofensivo. Assim, os jogadores do Lyon – Juninho em particular destaque – recorreram muitas vezes a jogadas individuais e ao remate exterior. Lyon teve a posse de bola, o Rangers teve o controlo do jogo.


As duas grandes baixas (Coupet e Cris)

São as duas grandes baixas no Lyon. O guarda-redes Grégory Coupet é o jogador com mais partidas disputadas na liga francesa – 417 no total (351 pelo Lyon e 66 pelo rival, o St.Étienne) – e a sua experiência é fundamental para tranquilizar os companheiros, além do simples facto de ser incomparavelmente melhor guarda-redes do que Rémy Vercoutre. A hesitação no golo de Beasley é, aliás, sintomática em relação a essa diferença de qualidade.

A outra ausência de relevo é a do defesa-central Cris, que se lesionou gravemente no início desta temporada, em Toulouse. Lembro que esse jogou terminou com uma derrota no último minuto e foi a primeira de duas derrotas consecutivas a contar para o campeonato francês. Se no caso de Coupet a direcção do Lyon não contratou nenhum guarda-redes e Perrin decidiu apostar em Vercoutre, já no caso de Cris o presidente Jean-Michel Aulas decidiu adquirir Anderson ao Benfica. É bastante notório que, sem Coupet e Cris, a linha mais recuada do Lyon deste início de época reage com mais lentidão e, além disso, não consegue impor o desejado equilíbrio emocional para superar os momentos mais críticos.


Faz sentido falar de crise?

É, pois, cedo para concluir que há uma crise em Gerland. Apesar do grande impacto destas duas derrotas europeias contra o Barcelona e Rangers, o Lyon é, para todos os efeitos, líder da liga francesa (19 pontos ex aequo com o Nancy, que tem um jogo a menos) e tem o melhor ataque na prova com 18 golos marcados em 9 partidas.

Há três pontos a ter em consideração.

O primeiro é que já houve um período mais aceso de críticas nesta temporada quando o Lyon, com a lesão de Cris, sofreu duas derrotas consecutivas para a liga francesa (em Toulouse e em Lorient). Daí que também estas duas derrotas na Europa tragam novamente à superfície todo o tipo de problemas que o Lyon ostenta, aumentando, assim, a impaciência dos adeptos.

O segundo ponto tem a ver com a selecção do plantel e com aquilo que se pode esperar do trabalho de Alain Perrin. Mesmo apesar das vendas de Abidal, Tiago e Malouda, o Lyon tem claramente o melhor plantel de França e tem condições mais do que suficientes para revalidar o título nacional. No entanto, naquilo que concerne à presença na Liga dos Campeões, já podem subsistir mais dúvidas. Para 2007/8, o Lyon perdeu uma boa parte do domínio táctico e não vai conseguir superiorizar-se aos adversários mais fortes da mesma forma que o fazia anteriormente.

Finalmente, há um terceiro aspecto relacionado com as lesões de Coupet e Cris, uma vez que perder dois jogadores tão influentes – não só ao nível técnico, mas também no capítulo do tal equilíbrio emocional – não deixa de ser um grande revés nos planos de Perrin. Será que quando ambos estiverem em plenas condições físicas, o Lyon ainda poderá discutir a Liga dos Campeões?

Na Liga dos Campeões as hipóteses de sucesso não serão as melhores, mas isso não implica necessariamente a existência de uma crise, pois o Lyon tem tudo para ser heptacampeão e continuar a alargar o seu registo na história do futebol francês.


Luís Catarino

» 2007-10-05
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