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Boca Juniors

Como os xeneizes venceram a Libertadores 2007



1977: Cruzeiro (Brasil)
1978: Deportivo Cali (Colômbia)
2000: Palmeiras (Brasil)
2001: Cruz Azul (México)
2003: Santos (Brasil)
2007: Grémio (Brasil)

Sem rival à altura. O Boca Juniors conquistou a sexta Taça dos Libertadores da sua história e, diga-se, com relativa facilidade face aos poucos recursos evidenciados pelo Grémio. Na verdade, tudo se complicou para os brasileiros com a expulsão de Sandro Goiano no jogo da primeira mão, incidente que precipitou a hecatombe do Grémio em Buenos Aires (vitória do Boca por 3-0). No segundo jogo da final, os argentinos controlaram perfeitamente a partida e ainda apontaram dois golos (nova vitória do Boca, por 0-2), já depois de o Grémio ter estado perto de marcar em duas boas ocasiões – por Diego Souza (trave) e pelo ex-xeneize Rolando Schiavi (poste).

As duas conquistas de 1977 e 1978 (Juan Carlos Lorenzo)

As duas primeiras Taças dos Libertadores conquistadas pelo Boca Juniors remontam a 1977 e 1978, quando a equipa era orientada por Juan Carlos Lorenzo. Nessa geração pontificavam jogadores como o capitão Rubén Suñé (defesa-central ou médio-defensivo), os defesas-centrais Roberto Mouzo (jogador com mais partidas disputadas com a camisola do Boca - 426) e ‘Pancho’ Sá (recordista na Libertadores com seis edições ganhas, incluindo quatro pelo Independiente), o guerreiro lateral-direito Vicente Pernía (pai do colchonero Mariano), o médio ‘Chino’ Benítez e o extremo Ernesto ‘Héber’ Mastrángelo, passando ainda pelo médio-ofensivo/avançado Carlos Veglio (foi também adjunto de Carlos Bianchi no clube), pelo médio ‘Marito’ Zanabria, até ao grande lateral-esquerdo Alberto Tarantini, apesar de só ter participado na final de 1977. Na baliza, nada mais, nada menos, que Hugo ‘El Loco’ Gatti – o excêntrico guarda-redes que defendeu o derradeiro penalty no jogo de desempate da final de 1977, frente ao Cruzeiro (os brasileiros eram, precisamente, os detentores do título, depois de terem batido o River Plate em 1976).

A era Bianchi (títulos em 2000, 2001 e 2003)

O Boca só voltou a vencer o troféu em 2000. Foi, aliás, a primeira de três Taças dos Libertadores ganhas sob o comando técnico de Carlos Bianchi – as outras duas foram logo em 2001 e 2003. ‘Virrey’ Bianchi, que já havia ganho o troféu em 1994 (então treinando o Vélez Sarsfield), foi o principal artífice de uma equipa que venceu tudo, a nível nacional e internacional, incluindo duas edições da Taça Intercontinental (ao Real Madrid e Milan).


Descrição do onze-tipo do Boca Juniors versão 2007


A influência de Riquelme

Aparenta um olhar de reprovação sobre tudo o que o rodeia e parece que está sempre de costas viradas para o mundo. Esta sensação de inquebrável petulância que envolve Juan Román Riquelme é, no entanto, aquilo que o distingue de qualquer outro futebolista mundial. Esperando que um colega tenha as melhores condições para receber um passe, conserva e protege a bola entre três ou quatro adversários sedentos em derrubá-lo. Há quem lhe chame lento. Pekerman, todavia, prefere reforçar a ideia de que tudo o que ele faz tem lógica e que, às vezes, o mais difícil é que os colegas consigam acompanhar a sua inteligência de jogo.

Riquelme reencontrou, no seu regresso ao Boca Juniors, o local ideal para desenvolver o seu futebol. Além da veneração dos adeptos xeneizes, tem, ao seu lado, três jogadores que caçam as segundas bolas e que procuram entregar-lhas para que se dê início à melhor organização de jogo. A fantástica sensibilidade no pé direito permite-lhe, também, ser uma enorme mais-valia em livres e cantos. Foi, muito possivelmente, o melhor jogador na Taça dos Libertadores, competição que, aliás, já havia conquistado em 2000 e 2001. Nesta edição de 2007, apontou sete golos, espalhando, igualmente, jogadas irrepreensíveis do ponto de vista técnico.

O poder físico de Palermo e a mobilidade de Palacio

Complementam-se muito bem. Martín Palermo, hoje bastante mais maduro e consciente das suas limitações, sabe perfeitamente que funções lhe são exigidas e o que tem de fazer em campo. Ponta-de-lança de excelente poder físico, Palermo é, depois de Riquelme, o principal target-man na construção de jogo do Boca. Isto explica-se pelo facto de que quando Riquelme não está em condições de receber a bola para definir os lances com sentido criativo, os defesas xeneizes optem, muitas vezes, por passes longos em direcção a Palermo, sempre posicionado em frente à grande área da equipa contrária. Nessa circunstância, este tenta ganhar as bolas aéreas (e ganha muitas!) e, se possível, amortecê-las para as costas dos defesas adversários, tentando que Palacio tire proveito da sua rapidez de antecipação. Um ponta-de-lança-pivot à antiga, com espírito de sacrifício ilimitado.

Rodrigo Palacio é um jogador que encaixa muito bem nas características de Martín Palermo, que, como vimos, é um avançado de desgaste. Palacio é pura mobilidade. Sem ser um ponta-de-lança, é bastante astuto e sabe procurar os melhores espaços, principalmente nos flancos, dando a largura necessária que, por vezes, escasseia pelo facto de Cardozo, Banega, Riquelme ficarem amarrados à zona central (dependendo da estratégia colectiva, Ledesma pode contrariar essa tendência, surgindo no flanco direito). Além de saber perfurar a grande área (pelo eixo ou a partir do flanco), Palacio luta também pela recuperação de bolas, sendo frequente descer até ao seu meio-campo para perturbar o adversário portador da bola. Vindo do Banfield, chegou a La Bombonera em Dezembro de 2004 e praticamente conseguiu fazer esquecer Guillermo Barros Schelotto, que era um dos ídolos do clube e, tal como Palacio, um importante coadjuvante de Martín Palermo no ataque.

La Bombonera - o templo de Hugo Ibarra

Apesar da imagem de flop com que ficou na curta passagem pelo Porto (melhorou um pouco no Mónaco), Hugo Ibarra tem vindo a consolidar-se como um dos grandes ícones da última década do Boca Juniors. Foi um dos primeiros reforços da era Bianchi em 1998 (vindo do Colón) e, a par de Sebastián Battaglia, pode orgulhar-se de ser o único jogador do Boca que participou nas finais vitoriosas da Libertadores em 2000, 2001, 2003 e 2007. Não é para todos.

Contrariamente ao lateral-esquerdo Clemente Rodríguez (destro; vai poucas vezes à linha), Ibarra sobe bastante pelo seu flanco. Aliás, uma vez que Palacio flanqueia sobretudo para o lado esquerdo, tanto Ibarra como o próprio Ledesma tendem a atacar o flanco direito com mais fluidez, equilibrando o desenho colectivo no momento de posse de bola. Vale a pena registar um dos velhos hábitos de Ibarra, que é o de cruzar frequentemente com o pé esquerdo, variando, assim, as opções no desenvolvimento ofensivo. Nunca foi um excelente defesa, mas, na dimensão do futebol sul-americano, o seu trabalho ofensivo acaba por revelar-se extremamente compensador.

Pablo Ledesma - recuperação e ataque

Riquelme pode ser o jogador mais distinto e brilhante do Boca Juniors, mas há um que, por toda a versatilidade que ostenta, merece largo destaque. Pablo Ledesma, 23 anos, é uma das revelações do futebol argentino dos últimos meses.

Marcou, por exemplo, um golo importante na difícil primeira-mão da meia-final, em Cúcuta. Mais importante ainda, o seu papel táctico em ambos os jogos da final com o Grémio foi absolutamente determinante para o sucesso da equipa de Miguel Ángel Russo. Ever Banega actuou como vértice mais recuado do meio-campo – orientando a equipa com passe curto e condução de bola -, enquanto Ledesma foi o interior-direito e quem mais auxiliou o trabalho de Banega na recuperação da posse de bola. No jogo da primeira-mão, também pelo facto de o Boca jogar em casa, Ledesma (ex-Talleres) teve um papel de maior destaque nas saídas para o ataque – depois de fechar a zona central junto de Banega, Ledesma conseguia partir com rapidez. Além da boa capacidade de desenvolver os lances ofensivos, é um bom recuperador, com uma resistência física notável que lhe permite competitividade em ritmos mais elevados.

Já que falámos em Banega e Ledesma, falemos também de Neri Cardozo. Actua como interior-esquerdo e o facto de ser destro não facilita a sua presença na linha, pois também está longe de ser um fora-de-série no drible e na velocidade com que conduz a bola. Nas duas mãos da final, foi o primeiro a ser substituído, ora para a entrada de Dátolo (extremo; quando a equipa queria mais caudal atacante), ora para a entrada de Battaglia (médio-defensivo; segurar o resultado). Ainda assim, durante os 60 minutos em que esteve presente no jogo de Porto Alegre (Grémio com Lucas a titular), ajudou a controlar as marcações do meio-campo, com Banega e Ledesma igualmente concentrados no enclausuramento dos espaços.

A dupla de centrais (Daniel Díaz & Morel Rodríguez)

O guarda-redes Maurício Caranta (jogou com Gonzalo Bergessio no Instituto) não é propriamente sinónimo de segurança, mas, à sua frente, actuam dois defesas-centrais que trabalham relativamente bem entre si.

A agressividade e o porte físico de Daniel Díaz podem valer-lhe algum respeito perante os adversários, mas a sua falta de velocidade é um ponto negativo difícil de esconder. Díaz faz dupla com o paraguaio Morel Rodríguez, que, apesar de ser mais baixo, é mais rápido e tem mais facilidade em subir até ao meio-campo. Joga na antecipação e é ele quem costuma colocar bolas longas em direcção a Palermo. Ambos podem ser úteis na cobrança de livres directos – Díaz em força, em zona frontal; Morel Rodríguez em colocação, sempre que o livre for inclinado para o lado direito, uma vez que Morel é canhoto. Este último pode também jogar como defesa-esquerdo.


Luís Catarino


» 2007-06-25
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