PESQUISA:
Primeiro Toque logotipo
Benfica

As problemáticas de Camacho


Camacho vem anunciando que o Benfica cria poucas situações de golo, sendo que a exibição do último derby reforçou essa ideia. O que pode Camacho fazer para inverter essa tendência? Seguem-se apenas algumas das questões e problemáticas relacionadas com as novas dinâmicas do Benfica, que perdeu muito em termos de qualidade com as saídas de três jogadores importantes: Karagounis, Miccoli e Simão.


Nuno Gomes vs Óscar Cardozo

Se, efectivamente, Óscar Cardozo estiver em condições de jogar, tem valor mais que suficiente para ser titular nesta equipa. No desafio com o Sporting, o 4-2-3-1 do Benfica esteve relativamente bem organizado a nível posicional (Paulo Bento jogou com bloco geralmente recuado), mas não encontrou a melhor correspondência no ataque. Nuno Gomes, o avançado-centro, quase nunca conseguiu dominar uma bola de costas para a baliza, deixando que Anderson Polga se tivesse antecipado, sem cometer faltas, em praticamente todos os lances.

O brasileiro realizou um bom desempenho a nível individual. Todavia, é necessário sublinhar que Óscar Cardozo, mais possante, teria muito mais capacidade que Nuno Gomes para receber, segurar e, consequentemente, promover roturas dos médios e extremos em redor da grande área do adversário. Haverá algumas condicionantes na mecânica do modelo benfiquista, mas, no imediato, é importante que Camacho entenda que as características do paraguaio são as que mais se adequam às necessidades actuais do clube no caso de ser utilizado o 4-2-3-1, com apenas um avançado-centro.


Nuno Gomes em dupla com Cardozo?

É uma hipótese que Camacho pode considerar. No entanto, a questão terá de ser vista numa perspectiva mais generalizada do plantel. Além de Petit e Katsouranis, pura e simplesmente não existe um terceiro médio-centro que consiga garantir equilíbrio entre linhas – Nuno Assis joga sobretudo no meio-campo adversário e não desarma; Gilles Binya não tem maturidade; Romeu Ribeiro não tem tido oportunidades muito prolongadas. Essa situação da falta de um médio-centro já vem da temporada anterior, tendo sido perceptível que João Coimbra não tinha essa capacidade para recuperar a bola e simultaneamente definir o início da transição defesa-ataque com a devida rapidez. Com a lesão de Petit, é compreensível que Camacho utilize Maxi Pereira no centro do meio-campo, ao lado de Katsouranis. A equipa perde em habilidade a transportar a bola pelo eixo, mas o uruguaio tem uma boa resistência e pode ajudar a equipa a não perder o fôlego nas segundas partes, bem como a assegurar minimamente a base defensiva. Contudo, o Benfica precisa de dar maior dimensão ao seu jogo e é essa capacidade extra que Camacho não tem encontrado nos seus jogadores. Nuno Gomes poderia até actuar próximo de Cardozo em jogos com determinadas características, mas retirar músculo ao meio-campo defensivo pode ser demasiado arriscado, como iremos ver a seguir.


As decisões de Camacho

Forçado a utilizar Maxi Pereira ao lado de Katsouranis, Camacho coloca Rui Costa em zonas mais adiantadas do 4-2-3-1. Neste momento, é a melhor opção que o treinador espanhol pode tomar, pois Maxi Pereira não tem futebol para ser o médio-direito da equipa. Rui Costa poderia ser importante a construir jogo a partir de linhas mais recuadas. O problema é que isso choca sempre com a necessidade de garantir uma eficácia defensiva, pois, com Katsouranis e Rui Costa no eixo, a equipa ressente-se claramente ao nível da recuperação da posse de bola. Para isso, Maxi Pereira teria de se deslocar mais vezes para fechar a zona central, perdendo ainda mais capacidade para desenvolver jogadas no lado direito. Se a equipa entrar neste tipo de múltiplos desdobramentos, tudo se tornará mais complicado de gerir porque não há entrosamento – nem dos jogadores novos, nem ao nível do comportamento táctico pretendido, que diverge do de Fernando Santos.

Por todas estas razões, principalmente naquilo que diz respeito à entrada de Cardozo na equipa titular, convém dar o benefício da dúvida ao trabalho dos extremos Rodríguez e Di María. O uruguaio – um pouco pesado – gosta de ter a bola, mas ainda não conseguiu desmentir a ideia de que é pouco objectivo nas decisões e na leitura das desmarcações dos colegas. No entanto, se não existe um ponta-de-lança que segure jogo – e não havendo predisposição para o contra-ataque –, há poucas possibilidades para Rodríguez ou qualquer outro conseguirem fazer um bom trabalho. Daí que uma eventual entrada de Freddy Adu no onze talvez possa ser prematura. Este internacional sub20 pelos EUA é um daqueles jogadores com a tal capacidade extra para poder vir a fazer a diferença, mas a equipa ainda não tem estabilidade táctica para um bom enquadramento do médio-ofensivo.


Valorizar Di María

De qualquer forma, o melhor lugar de Di María é no lado esquerdo. É certo que pode trocar de posições para o flanco direito ocasionalmente durante o jogo, mas a sua posição-base deve ser a de extremo-esquerdo – com liberdade para entrar em zonas interiores. Sem Rodríguez, tudo ficaria mais facilitado para Di María e importa saber até que ponto esse não é um factor que Camacho deva ter em consideração. Afinal de contas, explorar o melhor futebol de Di María seria um enorme passo para a maior produção ofensiva que o próprio Camacho pretende.


Luís Catarino

» 2007-10-01
PRIMEIRO TOQUE © 2007
CONTACTOS semmais.com