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Aquilo que o auricular de Sam não resolve


Durante as primeiras partes, senta-se umas filas acima do nível do relvado e, devidamente equipado com o sofisticado kit auricular, absorve e transmite o comportamento táctico dos vinte e dois jogadores em campo para o seu banco de suplentes. É assim o ritual de Sam Allardyce, o novo treinador do Newcastle para 2007/8. No entanto, tem havido um pormenor que nem o impressionante aparato de fios que cobrem a gravata do treinador dos Magpies tem sido capaz de solucionar. Quem tem visto os últimos jogos do clube facilmente percebe que detalhe é esse: o desempenho defensivo de Charles N’Zogbia.

A última derrota do Newcastle, em casa do Manchester City, revelou alguns pontos frágeis da equipa, particularmente no caso de N’Zogbia, o extremo que tem sido opção de Allardyce para o lado esquerdo da defesa. Se é verdade que a sua velocidade ajudou, por exemplo, a decidir o desafio da penúltima jornada da Premier League – vitória em casa frente ao West Ham, na qual N’Zogbia apontou um golo e assistiu os outros dois –, também não deixa de ser evidente que quando há o mínimo de rapidez nas transições defesa-ataque do adversário, ou quando este é capaz de conferir mais profundidade aos flancos, o Newcastle treme. Sobretudo pelo lado esquerdo da sua defesa, onde N’Zogbia é frequentemente apanhado em falhas posicionais.

Frente ao Manchester City – brilhantemente orientado por Eriksson – N’Zogbia não fechou o espaço interior e deixou Stephen Ireland ganhar a linha de fundo para cruzar a bola e assistir Martin Petrov, que concluiu, com sucesso, ao segundo poste. Foram várias as gafes de N’Zogbia durante a partida, como passes arriscados para o guarda-redes, Given, ou mesmo na falta de atenção a dobrar o defesa-central que actuava mais no seu lado. Quando Rozehnal subia alguns metros para atacar as bolas pelo ar, N’Zogbia deveria ter tido essa preocupação de fechar o espaço interior, uma vez mais. É certo que a lesão de Cláudio Caçapa implicou algumas alterações no centro da defesa, com a entrada de Steven Taylor e a consequente deslocação de Rozehnal para o lado esquerdo do centro da defesa. No entanto, mesmo reforçando as fantásticas qualidades de N’Zogbia enquanto tem que desequilibrar no último terço, é inevitável apontar o inconstante trabalho de marcação do francês.


Como jogou o Newcastle

Sam Allardyce não tem podido contar com bastantes jogadores devido a lesão, como é o caso dos defesas-laterais Stephen Carr (direito) e Celestine Babayaro (esquerdo), do extremo-esquerdo Damien Duff ou, mais recentemente, do defesa-central Cláudio Caçapa e do ponta-de-lança Michael Owen. Assim, no jogo do City of Manchester, o ex-treinador do Bolton elaborou um 4-4-2 em que James Milner se colocou no lado direito do meio-campo. Funcionado Alan Smith como o terceiro elemento do meio-campo a fechar a zona central – juntamente com Nicky Butt e Geremi –, e não tendo Damien Duff disponível, realçava-se a necessidade de haver um lateral-esquerdo com a produção ofensiva de N’Zogbia. No entanto, essa intenção de Allardyce reverte-se numa irregularidade defensiva que é absolutamente indesejável. Porque, mesmo quando N’Zogbia não sobe, não tem noção dos espaços de marcação. Em suma, defende mal e prejudica a equipa, como é lógico.

No início da segunda parte, Allardyce ainda tentou desviar Obafemi Martins para o flanco esquerdo e manter Viduka como ponta-de-lança, numa espécie de 4-3-3 com Milner do lado direito. Contudo, essa solução acabou por não ter resultados práticos, pois afastou o nigeriano da zona onde melhor consegue exercer o seu jogo. Apesar de ter apontado um golo, também não teve as melhores condições para o fazer no centro, mas isso seria uma questão para outra análise, relacionada com o modelo de jogo colectivo adaptado às características do antigo avançado do Inter.


A hipótese mais sensata?

Ainda que eventualmente prematura, talvez a melhor solução para segurar o lado esquerdo seja atribuir a titularidade ao espanhol José Enrique – contratado ao Villarreal por aproximadamente 9M euros – e deslocar N’Zogbia para a sua posição predilecta de extremo-esquerdo, onde tem, de facto, capacidade para se exibir como um dos melhores intérpretes da Premier League. A questão será quando Duff estiver recuperado da lesão, pois Milner é cada vez mais indiscutível na equipa titular e, aparentemente, isso impossibilitaria o esquerdino irlandês de jogar a extremo-direito com N’Zogbia a extremo-esquerdo. Allardyce e o seu auricular terão a resposta.


Luís Catarino

» 2007-09-30
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