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Manchester United

Anderson, o rookie sem medo


Os grandes jogadores distinguem-se pela forma destemida como encaram os desafios. No último Liverpool – Manchester United, Anderson não se deixou amedrontar pelo ambiente hostil de Anfield Road, pelas acções intimidativas de Gerrard e também pelo facto de conviver, em 2007/8, com uma realidade futebolística completamente diferente daquelas que já vivera no Brasil e em Portugal. Nada parece tê-lo perturbado nestes meses em que surgiu como rookie na Velha Albion e a verdade é que se adaptou muitíssimo bem ao seu novo clube.


A diferença do Porto para Manchester


Se antes, no Porto e na selecção brasileira, jogava declaradamente como médio-ofensivo ou segundo-ponta, Ferguson e Queirós fizeram-no recuar um pouco no terreno, com menor predisposição para executar o último passe, que é uma das suas especialidades. Assim, substituindo o lesionado Paul Scholes, constitui-se como um importante elemento da transição defesa-ataque, no eixo do meio-campo, ligeiramente mais adiantado em relação ao outro médio-centro e na maior parte das vezes inclinado para o lado esquerdo.

A natureza de Anderson não é a de um jogador combativo, com essência de marcação e de desarme. Daí que seja importante a colocação de um outro médio-centro mais combativo bem próximo de si (Hargreaves), de forma a compensar uma eventual falta de agressividade do brasileiro na cobertura da zona. De qualquer modo, ainda que haja mecanismos colectivos de compensação que favorecem as exibições de Anderson, não deixa de ser surpreendente a maneira como se adaptou tão bem à realidade do futebol inglês, em que são evidentes os ritmos mais elevados e em que a bola está sempre em andamento, sem pausas. No Porto já víamos alguns sinais de que, por vezes, até auxiliava a equipa na tarefa de recuperação, mas aquilo que tem mostrado em Inglaterra superou todas as expectativas.

A título de curiosidade, refira-se que Anderson é o segundo brasileiro a vestir a camisola dos Red Devils em toda a história do clube. O primeiro foi Kleberson.

Nesta partida em Anfield, não se escondeu do duelo com o capitão adversário Steven Gerrard pela conquista do meio-campo e manteve o seu estilo, sempre com uma inquebrável força mental, nunca se deixando afectar pelas entradas mais duras que normalmente são cometidas sobre os mais novos de forma a intimidá-los.


Quais são as vantagens de usar Anderson nesta posição?

Nesta nova posição de médio-centro em 4-4-2, Anderson garante eficácia no passe e circulação rápida da bola pelo eixo. Não interfere tantas vezes na execução do último passe nas linhas mais adiantadas, aspecto em que ele é muito bom, mas consegue ser um elemento fundamental naqueles momentos em que o Manchester United quer passar mais tempo no meio-campo adversário. Além de saber ler o jogo para ocupar os espaços de recepção e desmarcação da melhor forma, a sua excelente capacidade de passe, bem como a habilidade para colocar o corpo e ganhar posição e proteger a bola em duelos individuais (é um dos melhores do mundo neste aspecto) faz com que a equipa esteja menos sujeita a perdas de bola e mantenha a sua posse durante mais minutos.

Por outro lado, o seu defeito mais visível será a falta de capacidade de desarme. Muitas vezes não quebra os ataques adversários na melhor altura porque não tem essa aptidão natural para defender: reduzida capacidade no desarme e no jogo aéreo e pouca mentalização para cometer faltas estratégicas. O lado positivo é que, só agora estando a dar os primeiros passos em Inglaterra, a tendência é para ultrapassar esses pontos mais fracos.


O Apache não o abandonou

Quando Evra sobe para fazer tabelas rápidas com Giggs, Anderson, antevendo que o ataque é de curta duração, fica mais recuado no meio-campo. Já quando o lateral francês fica atrás, Anderson costuma subir para oferecer uma linha de passe a Giggs e dá a possibilidade de circular a bola. Nestes pequenos aspectos posicionais, Anderson, que também é capaz de progredir muito bem em velocidade com a bola no seu pé esquerdo, já revela uma integração colectiva muito desenvolvida na equipa.

Contudo, neste desafio com o Liverpool, há um jogador que auxiliou imenso o trabalho do brasileiro: Carlos ‘El Apache’ Tevez. O argentino é um dos habituais dois avançados-centro. Porém, quando o Man.Utd teve de defender a vantagem na segunda parte, o Apache recuou a sua posição – estrutura de 4-2-3-1 com Cristiano Ronaldo a ponta-de-lança, Giggs à esquerda e Rooney à direita – e deu um enorme contributo no aumento da combatividade a meio-campo. Lutou por todas as bolas em várias zonas do campo e funcionou como uma solução preventiva de forma a que Anderson não ficasse vulnerável perante o assalto ainda mais agressivo do Liverpool. Hargreaves é um médio com muita bravura, mas seria arriscado ter apenas Anderson ao seu lado a aguentar a carga ofensiva do Liverpool. Aos 83 minutos, para controlar as linhas mais baixas que estavam já a ser atacadas por Babel, Torres e Crouch, Alex Ferguson substituiu Tevez por Carrick e deu, assim, mais consistência de desarme, estatura e capacidade de marcação ao duplo pivot defensivo. Anderson adiantou-se em relação a Hargreaves e Carrick para lançar os ataques rápidos sempre que a equipa tivesse a oportunidade de recuperar a bola. A solidariedade que os jogadores do Manchester United mostraram entre si foi fantástica e nesse âmbito é incontornável sublinhar a exibição de Tevez – batalhou imenso na segunda parte para fechar os espaços ao adversário e esse trabalho foi tão decisivo quanto o tento que apontou (bola parada).


Luís Catarino

» 2007-12-19
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