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Manchester City

A táctica de Eriksson




O óptimo desempenho que o Manchester City tem vindo a realizar na presente edição da Premier League deve-se, em grande parte, ao capital financeiro do milionário Thaksin Shinawatra. Antigo primeiro-ministro tailandês entre 2001 e 2006 – foi destituído após um golpe militar –, Shinawatra comprou o Manchester City e não se prevê que, nos próximos tempos, regresse à Tailândia, pois é acusado de vários crimes de corrupção, fuga aos impostos e violação dos direitos humanos.

A injecção de dinheiro no Manchester City é um ponto importantíssimo para perceber a realidade do clube. Afinal de contas, foi com um relativamente avultado investimento que o City conseguiu comprar alguns bons jogadores (ex. Elano, Corluka, Bianchi, Bojinov, Martin Petrov). Hoje, a consolidação no topo da tabela da Premier League é uma evidência. No entanto, o actual 3.º lugar na classificação (19 pontos em 9 jornadas disputadas) nunca teria sido possível sem o brilhante trabalho de motivação do treinador Sven-Goran Eriksson. Além de desenvolver o conjunto no plano táctico, o sueco tem vindo a transmitir imensa ambição e confiança a uma equipa que, recorde-se, terminou a época passada na 14.ª posição. Conheçamos, então, a forma como se estrutura o Manchester City que tão boa impressão tem causado nas últimas jornadas.


A base defensiva no eixo: Richard Dunne e Micah Richards

Micah Richards tem apenas 19 anos e é já um dos melhores jogadores da Premier League. No Manchester City actua como defesa-central, mas, durante bastante tempo, jogou no lado direito da defesa. Aliás, face à lesão de Gary Neville, é como lateral-direito que tem jogado recentemente na selecção inglesa de Steve McLaren (Terry e Ferdinand no centro). Micah Richards é um atleta impressionante: em velocidade, força e impulsão geralmente ganha superioridade aos adversários. Jogador com grande carácter e personalidade, tem tudo para ser um dos defesas mais marcantes do futebol inglês na próxima década. Vence praticamente todas as bolas pelo ar, incentiva permanentemente os seus colegas e possui uma excelente intimidade com a bola, que o faz sair a jogar em várias situações. Ao seu lado está o capitão Richard Dunne, que, ainda no período de Stuart Pearce, herdou a braçadeira de capitão de Sylvain Distin (uma das referências defensivas da equipa que entretanto se transferiu para o Portsmouth). O irlandês contagia os companheiros com a sua determinação e, tal como Richards, é poderosíssimo no jogo aéreo. É um jogador que está no Manchester City há sete anos e é indispensável para preservar a identidade do clube, mantendo elevados os índices competitivos do colectivo.


Os defesas-laterais (Garrido e Corluka)

Internacional croata – nascido na Bósnia-Herzegovina há 21 anos –, Vedran Corluka foi um dos jogadores que chegou ao City neste Verão (ex-Dinamo Zagreb). Jogador de elevada estatura e que controla bem o espaço defensivo, também tem facilidade em subir ao meio-campo adversário. Não consegue prolongar a velocidade de corrida durante muito tempo, por isso é conveniente que perceba o melhor momento para subir pelo flanco. Na selecção croata é habitual terceiro defesa-central, encostado ao lado direito. No lado esquerdo da defesa do City encontra-se o basco Javier Garrido. O ex-jogador da Real Sociedad possui uma boa resistência e protege as acções individuais de Martin Petrov naquele flanco.


A baliza

O sueco Andreas Isaksson tem sofrido algumas lesões e Kasper Schmeichel (20 anos) jogou como titular nos jogos iniciais da temporada. No entanto, nas últimas duas jornadas da Premier League, o titular na baliza do Manchester City foi o internacional sub21, Joe Hart. Tal como Schmeichel, Hart ainda tem bastante a provar.


Hamann, Johnson e Ireland

O Manchester City praticamente não tem tido oscilações ao nível da equipa inicial e Eriksson tem podido contar com os seus médios-centro, o que facilita imenso a manutenção do sistema-base. Dietmar Hamann é o médio-defensivo mais recuado da equipa e, mesmo que pelos seus pés não passe um significativo volume de jogo, é uma unidade essencial na orientação do meio-campo. Aos 34 anos, o alemão já não tem a mesma frescura física para subir ao meio-campo adversário e tentar aplicar o seu fortíssimo pontapé. Contudo, é um jogador que está na Premier League há praticamente dez anos e que acumulou bastante experiência. Com o passar do tempo, foi reduzindo o seu estilo efervescente e, hoje, já não entra com tanta agressividade como era habitual. Está visivelmente mais calmo e aposta mais no jogo posicional.

Quem mais beneficia directamente da presença de Hamann no centro do meio-campo é o internacional sub21 inglês, Michael Johnson. É um médio-centro que trabalha na recuperação, mas também possui uma responsabilidade acrescida na circulação de bola no meio-campo adversário, denotando ainda uma boa chegada à grande área contrária. Aos 19 anos, conquistou a titularidade no Manchester City e tornou-se já numa das maiores promessas do futebol inglês. Tem algumas semelhanças com o português Tiago na forma como desenvolve a ocupação dos espaços.

O City é uma equipa que sabe fechar as suas linhas mais recuadas e que desenvolve muito bem o contra-ataque. Nesse âmbito, um dos elementos mais importantes é Stephen Ireland. Jovem irlandês de 21 anos, revela uma boa capacidade de clausura no eixo central e é rápido nas transições para o ataque – pelo eixo, ou pela direita. É um jogador que, além de trabalhar muito para a equipa, define relativamente bem as jogadas no momento ofensivo.


O subversivo Martin Petrov e o estilo de Emile Mpenza

O extremo-esquerdo Martin Petrov simboliza a faceta mais subversiva da equipa. O búlgaro veio este Verão do Atlético Madrid e é um jogador que adquiriu mais confiança e moral desde que é orientado por Eriksson. Petrov executa cruzamentos de grande qualidade com o seu pé esquerdo, sabe conservar a posse de bola e a sua mobilidade no último terço do campo é um factor essencial para provocar os desdobramentos ofensivos de outros jogadores, como Elano, Ireland ou Johnson. Marca bem livres directos e cantos e é aquele que consegue imprimir um toque de maior imprevisibilidade à equipa.

Emile Mpenza é o jogador que tem aproveitado as lesões de Valeri Bojinov e Rolando Bianchi para assumir a titularidade. O bom jogo aéreo do internacional belga é bastantes vezes utilizado para dar correspondência aos cruzamentos de Petrov, mas a sua utilidade no ataque do City é mais visível no jogo sem-bola, abrindo espaços para a entrada dos médios. Mpenza já perdeu alguma fugacidade e, por essa razão, tem vindo a privilegiar um estilo de jogo mais físico.

Uma curta referência a Geovanni - o ex-jogador do Benfica tem sido frequentemente suplente utilizado, mas já foi herói nesta temporada, ao marcar o golo da vitória (remate de fora de área) frente ao grande rival, o Manchester United. Foi, aliás, o único desafio da Premier League onde foi titular.


Elano, a grande estrela do momento

Assinou esta temporada pelo City – vindo do Shakhtar Donetsk – e já é uma das principais estrelas da Premier League. Os recentes golos de livre directo que o internacional brasileiro apontou ao Newcastle e Middlesbrough colocaram-no no topo da preferência dos adeptos, mas há todo um trabalho realizado que não pode deixar de ser mencionado.

Elano joga numa posição mais adiantada em relação àquela onde actua na selecção brasileira. Assim, deambula nas costas do ponta-de-lança para tentar definir o último passe ou rematar de fora de área – com menos tarefas de recuperação de bola no seu meio-campo, necessariamente. Impõe facilmente a sua presença em campo e assume a liderança da equipa no meio-campo adversário – nas opções de passe e na combatividade.


Luís Catarino

» 2007-10-11
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