Inglaterra
A palavra certa

É a mesma coisa durante todas as pré-temporadas. Compras, vendas, manobras de empresários, promessas, milhões, birras e muitos torneios particulares que, embora preparados a lume brando, servem para reativarmos o apetite pela competição. Por motivos bem distintos dos das dimensões técnica e tática do jogo, foi ao ver um desses torneios disputados nos últimos dias que me impressionei como há muito não me acontecia.
No ecrã da televisão, aparecia um senhor agasalhado, com um chapéu negro, sentado na bancada mais privilegiada do St. James’ Park, em Newcastle. Supus que devia ser alguém conhecido, pois tinha o plano só para ele. Eis que o narrador da transmissão refere o nome dessa pessoa. Parou-me o coração! Passados uns poucos minutos, a mesma pessoa aparece novamente no ecrã e o narrador volta a dizer o seu nome. Não era engano. Era mesmo Bobby Robson, 76 anos, absolutamente irreconhecível, envelhecido pelo cancro*.
Bobby foi, enquanto treinador, o homem da palavra certa, dita na altura certa e que fazia a lógica do jogo regressar à sua genuína simplicidade. A afabilidade, o saber estar, a integridade, o desportivismo, a dignidade, a simpatia e o sentido de humor conseguiram, afinal, fazer equipa neste mundo de pedantismo e de negócios muitas vezes sujos. Com categoria e resultados, Bobby provou-o como ninguém. Grandíssimo.
* - Bobby Robson assistia a um jogo de futebol entre all-stars de Inglaterra e Alemanha com alguns nomes das décadas de 80 e 90, no âmbito de um troféu batizado com o seu nome e cujas receitas se destinam ao centro de pesquisa Sir Bobby Robson Cancer Trials, de um hospital em Newcastle.Luís Catarino
» 2009-07-28