Após ter alcançado o primeiro lugar do grupo C, no qual também participaram Hajduk Split, Steaua de Bucareste e Anderlecht, o Benfica encontrou-se com o fortíssimo Milan de Fabio Capello nos quartos-de-final da Liga dos Campeões da temporada 1994/5. Os lisboetas perderam o desafio do Giuseppe Meazza por 2-0 (1 de Março de 1995) e não conseguiram melhor do que um 0-0 na segunda mão disputada no Estádio da Luz (15 de Março). A superioridade dos italianos no conjunto da eliminatória não merece discussão.
MilanFoi uma exibição táctica verdadeiramente impressionante aquela que o Milan registou em ambos os jogos da eliminatória. Especialmente no primeiro, em San Siro. Vejamos, então, como actuou o Milan nesta fase dos quartos-de-final, depois de concluído o apuramento no grupo de Ajax, Casino Salsburgo e AEK. Os holandeses foram, aliás, os primeiros classificados, tendo Capello perdido três vezes para Louis van Gaal na temporada. Duas na fase de grupos (0-2, 0-2) e uma outra na final (0-1). A temporada de 1994/5 foi uma época de transição mais atribulada, sendo que os rossoneri, campeões europeus em título, acabaram por quebrar a série de três scudetti consecutivos. Em 1995/6 voltariam a ser campeões nacionais, já com George Weah e Roberto Baggio.
Recorrer ao jogo exteriorUma das jogadas típicas do Milan de Capello era recorrer ao jogo exterior, com procura intensiva das faixas laterais na construção dos ataques. Assim, Christian Panucci ou Paolo Maldini colocavam a bola rapidamente em Dejan Savicevic ou Marco Simone. Os dois últimos geralmente recebiam a bola junto à linha lateral para alargar o campo defensivo do adversário e, dessa forma, conquistar mais espaços de ruptura. Após a recepção de bola, tanto Savicevic (direita), como Simone (esquerda), efectuavam diagonais interiores com a bola controlada, enquanto Daniele Massaro permanecia no eixo, prendendo a atenção de Mozer e William. Na segunda parte, Capello tentou implementar mais mobilidade com Stroppa no lugar de Massaro (33 anos), que ainda chegou a alternar de posição temporariamente com Savicevic.

De qualquer modo, nas diagonais, Savicevic era particularmente perigoso, pois contava com um pé esquerdo fabuloso, capaz de conduzir a bola em velocidade e desequilibrar na finta e no drible. Já Simone, não sendo tão repentino e imprevisível, havia conquistado um importante capital de confiança e provocava, naquela fase, algum temor nos defesas – vide o golo sensacional que apontou na fase de grupos ao Casino Salsburgo.
Ao contrário do 'Génio' Savicevic, que conseguia inventar jogadas espectaculares nas situações mais inesperadas, Simone estava mais dependente dos colegas quando tinha de cair na faixa esquerda. Ou para jogar directamente com a referência, Massaro, ou aguardando as roturas de Boban. De outra forma, a sua deslocação para o flanco esquerdo não faria tanto sentido.
Mesmo não utilizando extremos de raiz, Capello explorava as faixas laterais para criar jogadas de ataque. A velocidade com que Panucci e Maldini colocavam a bola na frente obrigou o Benfica a manter o seu bloco mais recuado. Não só se precaviam eventuais situações de perigo para a linha defensiva rossonera, que jogava bastante alta e não permitia que o bloco se desligasse, como também aumentava a probabilidade de sucesso no desfecho dos ataques, com Savicevic a romper em velocidade em situações de igualdade numérica.
Defesa alta - uma das premissas essenciais da Zona PressingArrigo Sacchi impulsionou a Zona Pressing no Milan nos finais dos anos oitenta e Fabio Capello apurou-a no início da década de noventa, após a ida de Sacchi para a Squadra Azzurra. É certo que, no cômputo geral, a qualidade individual dos jogadores do Benfica não tinha comparação com a dos rossoneri. Daí que tenha havido uma luta desleal de sistemas 4-4-2. No entanto, foi verdadeiramente impressionante a qualidade geral evidenciada pelos italianos no domínio da zona. Em síntese, a equipa demonstrou método na fase de definição ofensiva e, sobretudo, precisão nos movimentos de recuperação da posse de bola.
A linha defensiva do Milan jogou bastante subida, tendo como principal objectivo a redução dos espaços do adversário. Resultado dessa estratégia, o Benfica não teve condições para trocar a bola ou pensar o jogo convenientemente. Isto porque Boban, Simone, Massaro e Savicevic se posicionavam de forma a perturbar imediatamente as saídas para o ataque dos portugueses – principalmente Savicevic, que mostrou estar muito bem fisicamente, envolvendo-se, com assiduidade e eficácia, nos momentos defensivo e ofensivo da equipa.
Ora, face a esta pressão alta, se os defesas do Benfica não tivessem já despejado um passe longo para o meio-campo adversário (aquilo que mais convinha a jogadores fortes no jogo aéreo como Galli ou Maldini), teriam imensas dificuldades em entrar no meio-campo do Milan. Com a colaboração mais directa de Boban e Savicevic, os dois médios-centro Desailly e Albertini prensavam o adversário portador da bola, que, assim, dificilmente teria alguma hipótese de sucesso. Pressão e redução de espaços: a armadilha perfeita para a recuperação da posse de bola. Tanto que o Benfica, na primeira parte, raramente efectuou mais de três passes seguidos nas jogadas a meio-campo.
As diferentes funções do meio-campo no trabalho de pressing e construçãoO elegante Zvonimir Boban – destro, mas também com excelente capacidade de passe e remate com o pé esquerdo – foi uma unidade importante no adiantamento do bloco rossonero. Recuemos uma temporada. Depois de o possante médio Frank Rijkaard se ter transferido para o Ajax, Capello teve alguma dificuldade em adaptar Boban a uma posição ao lado de Albertini. No entanto, precisamente em 1993/4, com a estabilização de Desailly no centro do meio-campo, a equipa ganhou mais consistência, tendo o croata desenvolvido (nem sempre da forma mais regular) o seu futebol criativo em linhas mais adiantadas do campo.
De facto, Boban tinha um excelente remate de fora de área e apresentava qualidade na circulação de bola. Mas, apesar de ter tido uma importância relativa na pressão ao adversário portador da bola (Vítor Paneira ou João Pinto, por exemplo), isso é devido ao facto de ter sido o terceiro ou quarto homem do meio-campo; nunca como segundo homem, nas funções de Desailly. Uma questão de características individuais e de molde colectivo, pois Boban era um jogador que precisava de protecção e apoios; não deviam ser-lhe atribuídas demasiadas tarefas de desarme ao lado de Albertini. A afirmação de Desailly, um ano antes, na posição de médio, foi, portanto, determinante. Para a equipa e para o crescimento de Boban nos anos seguintes.

Marcel Desailly jogou ao lado de Albertini. Face à força descomunal e ao ímpeto do francês, era impossível o adversário esconder receio nos lances divididos. Tinha a particularidade de subir à grande área para tentar atacar cruzamentos. E até foi nesse tipo de movimentos que subiu ao terceiro andar e assistiu Marco Simone no lance do primeiro golo, após cruzamento de Boban no lado esquerdo. No plano defensivo, revelou-se inultrapassável, e a sua agressividade e a sua pujança física foram decisivas para um domínio absoluto do meio-campo.
Albertini não ostentava, obviamente, o mesmo poder muscular de Desailly, mas teve um papel de relevo quando a equipa apresentou mais dificuldades de aproximação à grande área do Benfica. Uma vez que o sistema de pressing do Milan provocou alguma fadiga em determinados jogadores – principalmente nos atacantes -, a equipa começou a investir menos nos ataques rápidos e mais na subida lenta do bloco, com Maldini e Panucci a conferir apoio posicional no meio-campo adversário e a fechar mais por dentro. Assim, a capacidade de passe de média/longa distância de Albertini foi fundamental para variar o flanco mais rapidamente e possibilitar que as unidades mais criativas conseguissem mais tempo e espaço para executar os lances ofensivos. Depois do 2-0, e com Capello a querer evitar que o Benfica marcasse um golo, o Milan baixou o ritmo e o papel de Albertini na circulação pelo eixo central tornou-se mais evidente. E da parte dos portugueses não houve ninguém que o tivesse estorvado minimamente - um papel que cabia a João Pinto e/ou Caniggia.
A supremacia de BaresiNo que diz respeito aos defesas-centrais – quase sempre em linha subida-, Filippo Galli actuou ligeiramente mais adiantado do que Franco Baresi. Galli, mais possante, atacou grande parte das bolas aéreas na sua zona - o Benfica foi obrigado a recorrer ao passe longo para “despachar” a bola da sua zona defensiva – e vigiou Caniggia mais perto, enquanto Baresi interpretou as funções de líbero. Mais solto – atento nas dobras a Galli, Maldini e Panucci –, Baresi foi a verdadeira voz de comando do sector. Aos 34 anos, ainda possuía uma tremenda agilidade, que lhe permitia sair vencedor de todas as situações de 1v1. Leitura de jogo brilhante e quase sempre perfeito a colocar o avançado adversário em fora-de-jogo. O timing dos seus desarmes era do outro mundo. Maldini teve um óptimo professor.
Galli – Baresi era, de facto, uma dupla com enorme experiência e sagacidade. Sobretudo no caso de Baresi. Porém, note-se que quem vinha sendo titular mais assiduamente ao lado do capitão era já Alessandro Costacurta.
Um losango para LisboaUma vez que Albertini se encontrava castigado para o jogo da segunda mão, Capello aplicou em Lisboa um 4-4-2 em losango, que nunca foi uma variante muito utilizada pelo técnico italiano ao longo da sua brilhante carreira. Assim, a tarefa de segurar a vantagem de 2-0, perante um Benfica com um onze inicial mais ofensivo, coube a Eranio, Desailly e Donadoni a sustentação do meio-campo. Desailly como vértice mais recuado, e Eranio (direita) e Donadoni (esquerda) como médios-interiores fechando a zona central quando o Benfica tinha a posse de bola e deslocando-se para as alas, em diagonal, na construção dos ataques.
Nesta variante de losango, Boban assumiu uma posição mais central e não tanto encostado à meia-esquerda como no encontro de San Siro. A ideia era clara: aproveitar a sua capacidade de condução de bola e de passe para lançar a velocidade de Simone e Savicevic nas costas de Paulo Bento. Refira-se que, em Lisboa, o Milan pressionou, naturalmente, em linhas mais baixas do que no jogo da primeira mão. Deixámos de ver, por exemplo, os avançados a pressionar em comprimento, passando, antes, a pressionar em largura, com Simone e Savicevic mais pacientes e recuados.
BenficaArtur Jorge sabia que ia enfrentar muitas dificuldades no jogo da primeira mão e que o factor San Siro ia aumentar o nervosismo de alguns jogadores. Desta forma, colocou em campo uma equipa muito cautelosa, mas com pouca elasticidade. Tavares, completamente desadequado para a posição de médio-esquerdo, nem atacou, nem defendeu. O mesmo aconteceu com Kenedy, que entrou para o seu lugar na primeira parte e que viria a sair na segunda para a entrada de Izaías. Como referimos na análise do Milan, a equipa portuguesa não teve capacidade para solucionar a pressão agressiva dos italianos, sobretudo nos minutos iniciais de cada parte.

Os defesas e os médios lançavam várias vezes a bola para o meio-campo do Milan sem critério, evitando apenas que perdessem a bola na sua zona defensiva. O Benfica conseguiu adiar o primeiro golo do Milan até à segunda parte, tendo ainda marcado um golo por Caniggia, que a equipa de arbitragem invalidou (mal).
Veloso e Dimas, bem como Abel Xavier e Paulo Bento, tinham, de facto, muitas dificuldades em construir jogadas de ataque apoiado - muito jeito teriam dado Schwarz e Rui Costa. A agressividade do pressing italiano impedia que os benfiquistas tivessem clarividência suficiente para organizar os lances ofensivos. Como médio-defensivo, Paulo Bento até tinha boa capacidade técnica e leitura de jogo para efectuar um desempenho relativamente equilibrado. No entanto, para batalhar contra a intensa zona pressionante do Milan, era preciso bastante mais do que a presença de Paulo Bento. Ainda para mais, Abel Xavier esteve muito preso à sua área defensiva, não tinha facilidade em bater-se no 1v1 defensivo e também não conseguia sair a jogar e criar situações de desequilíbrio no meio-campo adversário. Nesse aspecto, Paulo Bento teve trabalho... a dobrar.
Daí que houvesse alguma necessidade de que um dos avançados recuasse para receber a bola. João Pinto fê-lo mais vezes, até para tentar fugir da dura marcação que estava a sofrer, mas foi notório que a equipa sentiu falta de mais apoios e cooperação dos restantes elementos da equipa. Tanto Caniggia como João Pinto estavam sozinhos no ataque, pois um dos elementos que normalmente apresentava melhor rendimento, o médio-direito Vítor Paneira (esteve na final de Viena frente ao Milan, em 1990), não conseguia vencer a duríssima oposição de Maldini. No fundo, uma vez que o Benfica actuou sempre com, pelo menos, seis jogadores em linhas muito baixas, não houve suficiente ligação entre sectores para dar consistência às transições defesa-ataque.
Tentar virar a eliminatória na LuzNo Estádio da Luz, para recuperar a desvantagem de 0-2 sofrida em Milão, e com Mozer castigado, Artur Jorge lançou o segundo-ponta Edilson no onze titular. O brasileiro tentou pegar no jogo desde a linha do meio-campo, normalmente em jogadas individuais. Sem sucesso. Artur Jorge colocou igualmente Nelo na equipa titular. O ex-Boavista tinha o papel de ajudar Paulo Bento na clausura do meio-campo, mas também o de tentar cruzamentos para a grande área de Rossi.
Comparando com o jogo da primeira mão – e muito devido ao modelo mais prudente do Milan – o Benfica teve bastante mais posse de bola e oportunidades de rematar à baliza neste encontro em Lisboa. Izaías, que voltou a entrar na segunda parte, chegou a efectuar um remate que bateu nos dois postes… Nesse lance, percebeu-se que a estrelinha da sorte não tinha acompanhado o Benfica, e que Capello ia sair vencedor do confronto com Artur Jorge sem golos sofridos.
Titulares mais velhos do Milan: Baresi (34 anos), Massaro (33), F. Galli (31)
Titulares mais novos do Milan: Panucci (21 anos), Albertini (23), Simone (26)
Titulares mais velhos do Benfica: Veloso (37 anos), Preud'homme (36), Mozer (34)
Titulares mais novos do Benfica: Abel Xavier (22 anos), Edilson (23), João Pinto (23)