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A influência de Lisandro




Pelos golos que marca e pela disponibilidade que demonstra, Lisandro López tem sido um dos jogadores mais consistentes do Porto e do futebol português nesta temporada 2007/8. Mas o que está, afinal, por detrás dos excelentes desempenhos do avançado argentino? Além das características individuais do jogador, a flexibilidade que Jesualdo Ferreira imprimiu no 4-3-3 permitiu que a equipa não se tivesse ressentido das ausências de Adriano, Postiga e Farías. O mérito das exibições de Lisandro reside, em grande parte, no modo astuto como o treinador do Porto montou a sua linha atacante.


A conjuntura inicial (as lesões de Adriano e Farías; a situação dúbia de Postiga)

Recuemos uns meses, até à fase da pré-temporada. A saída de Anderson para Manchester não deixava dúvidas sobre o sistema táctico que Jesualdo Ferreira iria apostar mais frequentemente em 2007/8: o 4-3-3. Adriano, que tinha terminado 2006/7 com uma série de 10 golos nas últimas 13 jornadas do campeonato, era o ponta-de-lança em quem Jesualdo, muito provavelmente, iria confiar a titularidade. Adriano tinha dado continuidade ao final de 2006/7 com uma pré-época sensacional e estava em grande forma. Porém, o brasileiro lesionou-se em Braga, na 1.ª jornada do campeonato, e Jesualdo reestruturou ligeiramente a linha adiantada dos dragões para os desafios subsequentes.

Na 2.ª jornada, frente ao Sporting, o treinador do Porto apresentou, então, a equipa inicial com a mesma estrutura de 4-3-3, com Sektioui e Quaresma a alternarem nas alas, mas o ponta-de-lança foi… Lisandro López, já regressado após o castigo que lhe foi imposto devido à caricata expulsão contra o Genk na pré-temporada.

A juntar à indisponibilidade de Adriano e Farías (ambos por motivos físicos), também a situação dúbia de Hélder Postiga no plantel do Porto durante as jornadas iniciais favoreceu a permanência e evolução de Lisandro como único ponta-de-lança naquele sistema táctico, ladeado pelos extremos Sektioui e Quaresma.


Uma ferramenta táctica

Lisandro é um avançado que sobressai pela gigantesca capacidade de trabalho sem-bola. Nunca será um finalizador puro, mas sim um avançado de desgaste, de grande mobilidade, sempre muito activo nas desmarcações e mostrando uma permanente leitura do jogo para pressionar na zona e timing certos.

É capaz de correr em toda a largura do campo para tapar uma linha de passe, estorvando os defesas e médios adversários que iniciam a fase de construção de jogo. Num avançado, este tipo de disponibilidade física e táctica tão acentuada não se observa, de facto, com muita frequência, embora haja alguns bons exemplos, como o de Dirk Kuijt (Liverpool), ou mesmo o de Derlei enquanto jogador do Porto.

Não sendo finalizadores de elevada categoria, nem particularmente fortes no 1v1, Lisandro e Kuijt são, acima de tudo, avançados de grande mobilidade e resistência física, que oferecem um precioso contributo para as respectivas equipas em termos de desgaste do adversário. Kuijt é mais poderoso no choque do que o argentino, mas ambos assemelham-se na forma como exploram o momento sem-bola.


Mas se Lisandro nem sequer é um óptimo finalizador, como é que tem marcado tantos golos?

A resposta a essa questão está, em primeiro lugar, no modelo de jogo que Jesualdo trabalha. Muito da estratégia adoptada depende das características da equipa adversária. Se estivermos a falar de desafios em que há necessidade de ter mais cautelas em determinados períodos, é habitual vermos o Porto (4-3-3) apresentar-se com as suas primeiras linhas (defesa e meio-campo) mais baixas. Assim, de modo a manter o bloco unido, também Quaresma e Sektioui fecham mais atrás. E é aqui que entra o papel de Lisandro. O argentino pressiona a toda a largura do campo para precipitar as saídas dos adversários para o ataque e, além disso, serve de apoio aos dois extremos no momento da recuperação da posse de bola. Lisandro joga muitas vezes de costas para a baliza, bem próximo de Quaresma e Sektioui, para fazer bloqueio aos defesas contrários e facilitar as roturas rápidas dos dois extremos portistas em zonas mais interiores. De facto, é um tipo de trabalho quase invisível, mas que, consoante a estratégia necessária, se torna de grande utilidade para a equipa.

No entanto, existe um outro aspecto que deve ser tido em consideração, pois nem sempre o modelo utilizado pelo Porto contempla roturas rápidas dos extremos. Se o adversário consegue o resultado que lhe interessa e baixa o seu bloco, convidando o Porto a ter a posse da bola e a adiantar as suas linhas, então a estratégia ofensiva dos dragões terá de ser distinta. Por exemplo: Quaresma encosta mais na ala para abrir o perímetro ofensivo e efectuar cruzamentos. Para a equipa poder corresponder aos cruzamentos de Quaresma, então Jesualdo pode optar por tirar o outro extremo, Sektioui, ou o médio-interior, Raúl Meireles, para colocar Hélder Postiga ou Adriano junto de Lisandro López.

Com mais um jogador na grande área, Lisandro fica mais solto para ir buscar jogo atrás ou às alas, e mais livre de marcação na grande área. Em Marselha, Lisandro ganhou uma grande penalidade após uma desmarcação rápida, numa altura em que Postiga já estava em campo. Também frente ao Marselha, mas no Dragão, 'Licha' teve mais espaço livre para cabecear para golo, pois Postiga também estava na grande área para prender um outro defesa.

Lisandro não é um óptimo finalizador, mas o seu esforço, leitura e perseverança possibilitam-lhe a conquista do melhor espaço antes de rematar (quase sempre com bastante convicção). Observando as situações em níveis de competitividade mais equilibrados (fundamentalmente na Liga dos Campeões), Lisandro possui, de facto, mais condições para marcar golos quando tem outro avançado ao seu lado. Porém, é perfeitamente evidente que, mesmo quando não os marca, o seu trabalho merece sempre ser valorizado pela qualidade e consistência do seu jogo sem-bola.


Luís Catarino

» 2007-11-10
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