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Mustapha Dahleb


Mustapha Dahleb é um dos maiores nomes da história do Paris Saint-Germain, clube que representou durante dez anos (de 1974 a 1984). Nesse período, Dahleb jogou, inclusivamente, com Humberto Coelho (1975/76 e 1976/77) e João Alves (1979/80), que falaram ao Primeiro Toque sobre este futebolista argelino que deixou um admirável registo no Parque dos Príncipes.


“Um jogador extraordinário com carácter ganhador!” (Humberto Coelho)


Em 1975, um ano depois da queda do Estado Novo em Portugal, Humberto Coelho transferiu-se do Benfica para o PSG, um clube que tinha um projecto ambicioso de afirmação no contexto do futebol francês. Humberto pertenceu aos quadros dos parisienses durante duas temporadas e conviveu de perto com a qualidade técnica de Mustapha Dahleb. "O Dahleb era um jogador extraordinário, com um pé esquerdo fantástico. Um grande driblador, fortíssimo no 1v1”, constatou o antigo internacional português, que também aproveitou para salientar outros aspectos do argelino: “Tinha um carácter ganhador. Incentivava os colegas e puxava pela equipa. Além de ser um belíssimo jogador, tinha uma personalidade bastante forte e todos o respeitavam.”


“Dahleb era um mágico!” (João Alves)

João Alves (na foto com Dahleb) jogou no PSG na temporada de 1979/80 e foi outro craque que teve a oportunidade de actuar ao lado do argelino. “Era um criativo, um mágico, um grande talento! Um jogador na linha do Madjer, ou até do Chalana, com quem tinha algumas semelhanças, apesar de o Chalana jogar mais vezes junto ao flanco. Eu e o Dahleb fazíamos a meia-esquerda do PSG, ficando eu mais por dentro”, recorda o “Luvas Pretas”, que admite que Dahleb possuía qualidade para ter obtido mais reconhecimento internacional: “Ele tinha a qualidade. O problema surge quando os jogadores ficam muito tempo na mesma equipa e depois não ganham os títulos que lhe permitiriam obter esse reconhecimento fora do país onde actuam”, frisou Alves.

Relativamente a este ponto, também Humberto Coelho reconhece que “o facto de a Argélia não ser uma grande selecção, de o PSG ter sido criado há pouco tempo e de, na altura, haver uma menor mediatização do futebol comparando com os dias de hoje” são razões para a pouca notoriedade internacional de Mustapha Dahleb.

Curiosamente, João Alves ainda hoje mantém uma relação de amizade com Dahleb: “Não será todos os anos que nos encontramos, mas eu, ele, e o Boubacar (Sarr) somos muito próximos. O Dahleb é uma pessoa extrovertida, um grande companheiro e que se integrou muito bem na vida francesa”.


O início no Sedan

Mustapha Dahleb nasceu em 1952, em Béjaia, cidade situada na região da Cabília, na Argélia. Juntamente com os pais, emigrou muito novo para França, onde iniciou a prática do futebol e foi posteriormente detectado pelo Sedan. Em 1969, então com 17 anos, Dahleb estreou-se na equipa principal, que na altura participava na primeira divisão francesa. Porém, foi chamado a cumprir o serviço militar na Argélia e teve de regressar ao seu país de origem. Assim, nas épocas de 1971/72 e de 1972/73, representou a equipa argelina do Chabab Belcourt.

Depois desses dois anos no campeonato argelino, Dahleb voltou ao Sedan e, apesar do último lugar no final na classificação nessa temporada de 1973/74, os 17 golos e as boas exibições que registou chamaram a atenção de imensos clubes, incluindo o Ajax.


A transferência mais cara do futebol francês

Porém, apesar do interesse do Ajax, Dahleb assinou pelo PSG, em Julho de 1974. O PSG, recém-promovido à primeira divisão, era um clube que precisava de corresponder a um desígnio nacional. Ter um clube com uma boa capacidade para representar a capital francesa era algo fundamental para a própria imagem do futebol francês. O presidente Daniel Hechter foi um dos principais motores do crescimento do PSG na década de 70 e foi ele que avançou para a contratação de Mustapha Dahleb por aproximadamente 1.4M de francos, o que hoje equivaleria a cerca de 200 mil euros – tratava-se da transferência mais cara de sempre de futebolista em França. Dahleb, 22 anos, não tinha empresário. Porém, as negociações foram tudo menos fáceis para o lado de Daniel Hechter.

“O Dahleb não tinha empresário. Foi tudo negociado entre ele e Hechter. Apesar de ser muito novo, mostrou-se intransigente nas negociações. Sabia o que queria e quanto valia”, lembrou Just Fontaine, que era o treinador do PSG na altura em que Dahleb foi contratado.


A transformação implementada por Vasovic



Dahleb era um extremo-esquerdo de grande qualidade técnica e a sua influência no jogo do PSG era enorme. Com a saída de Fontaine do comando técnico no final da temporada de 1975/76, a escolha de Hechter recaiu sobre Velibor Vasovic, que, enquanto jogador, tinha sido campeão europeu pelo Ajax frente ao Panathinaikos em 1970/71. Mais rígido e disciplinador, Vasovic implementou, também, um novo conceito de jogo para Mustapha Dahleb. “Ele é o melhor jogador do clube. Quando actuava no lado esquerdo, estava 20 minutos em acção. Agora, no meio, vai estar 60”, afirmou o novo treinador do PSG para 1976/77, convicto que o argelino traria muito mais vantagens à equipa se participasse nos lances ofensivos a partir do eixo central.

No final da temporada, Dahleb contabilizou 22 golos no campeonato e, não só nessa época, como também na seguinte, foi considerado o melhor jogador da liga francesa. Refira-se que Vasovic lhe atribuiu igualmente o estatuto de capitão do PSG, pois o anterior, o irascível Jean-Pierre Dogliani, tinha protagonizado uma polémica novela com Fontaine e anunciara a sua retirada.


As duas Taças de França e a Europa

O PSG apresentou um crescimento mais notório nos fins da década de 70/inícios da década de 80, já com Francis Borelli na presidência. Com jogadores com a capacidade de Carlos Bianchi, Dominique Bathenay, Luis Fernandez, Boubacar Sarr, Dominique Rocheteau, Nambatingue Tokoto e, mais tarde, de Safet Susic, o PSG de Mustapha Dahleb foi ganhando uma dimensão cada vez maior no futebol francês. Orientados por Georges Peyroche, que foi um dos treinadores com mais longevidade na história do clube (211 jogos) e que tinha muita proximidade com os seus jogadores, o PSG conquistou duas Taças de França, em 1982 e 1983: a primeira frente ao St. Étienne de Michel Platini, a segunda frente ao Nantes. Foram, aliás, os dois únicos títulos que Dahleb venceu.

Nas duas participações na Taça das Taças, o PSG defrontou, em 1982/83, o Lokomotiv de Sófia – a primeira partida oficial do clube na sua história europeia. Eliminaram os búlgaros, de seguida os galeses do Swansea City, mas caíram na terceira eliminatória frente ao Watershei, da Bélgica. Em 1983/84, o PSG eliminou o Glentoran (Irlanda do Norte), mas na segunda eliminatória encontraram-se com a poderosa equipa da Juventus, que venceria a final da competição frente ao Porto. Na fabulosa formação de Turim, orientada por Giovanni Trapattoni, destacavam-se Cabrini, Scirea, Gentile, Tardelli, Paolo Rossi, Boniek ou Platini.

Antes de terminar a carreira, actuou pelo Nice na segunda divisão.


Os números de Dahleb e o duelo particular com Pauleta

A carreira de Dahleb na Europa nunca teve muito relevo, como vimos. No entanto, o mesmo não se pode dizer em relação ao seu desempenho na liga francesa. ‘Mouss’, como também era conhecido, é o maior goleador do PSG em jogos do campeonato, tendo apontado 85 golos pelos parisienses na principal divisão francesa. Tendo em conta que estamos a falar de um extremo-esquerdo/médio-ofensivo, que nem sequer era o marcador de penalties (François M’Pelé e Dominique Bathenay eram os elementos que costumavam apontar um maior número de grandes penalidades na equipa), a marca tem, de facto, um mérito acrescido.

Em todas as 306 partidas que disputou com a camisola do PSG, Dahleb apontou 98 golos (85 no campeonato + 13 na Taça de França). O recorde de golos marcados pelo clube em todas as competições pertence actualmente a Pauleta, mas o ponta-de-lança Dominique Rocheteau já tinha ultrapassado Dahleb, que é, hoje, o terceiro nessa lista. De qualquer forma, para que Pauleta (34 anos) ultrapasse a marca de Dahleb na classificação dos melhores marcadores do PSG em partidas do campeonato, tem de apontar mais 15 golos.


O grande momento em Gijón, no Mundial de 82


A vitória da Argélia frente à República Federal da Alemanha (RFA) foi um dos momentos mais marcantes da história dos mundiais de futebol. Na edição de 1982, em Espanha, a Argélia tinha a sua estreia absoluta em fases finais de campeonatos do mundo. O primeiro jogo era frente à RFA, de Briegel, Stielike, Breitner, Littbarski, Magath e Rummenigge, mas a ousadia ofensiva dos argelinos acabou por lhes dar um triunfo espectacular por 2-1 (golos de Madjer e Belloumi).

Infelizmente para a Argélia, a selecção da Áustria e a da RFA uniram forças para uma escandalosa demonstração de negação ao fair-play e arranjaram um resultado que permitisse a ambas a qualificação para a segunda fase, naturalmente com prejuízo para a selecção de Dahleb. ‘Mouss’ foi o segundo jogador mais velho da selecção argelina que disputou esse Mundial. Tinha, então, 30 anos.


Classificações do PSG e respectivo campeão francês nas 10 épocas com Dahleb:

1974/75: 15.º / Campeão: St. Étienne
1975/76: 14.º / Campeão: St. Étienne
1976/77: 9.º / Campeão: Nantes
1977/78: 11.º / Campeão: Mónaco
1978/79: 13.º / Campeão: Estrasburgo
1979/80: 7.º / Campeão: Nantes
1980/81: 5.º / Campeão: St. Étienne
1981/82: 7.º / Campeão: Mónaco
1982/83: 3.º / Campeão: Nantes
1983/84: 4.º / Campeão: Bordéus
(20 equipas participavam na primeira divisão)


Luís Catarino

» 2007-11-22
Nome: Mustapha Dahleb

Data de nascimento: 8 de Fevereiro de 1952

Local de nascimento: Béjaia, na Argélia

Posição: Extremo-esquerdo, Médio-ofensivo

Clubes:
1969/70: Sedan
1970/71: Sedan
1971/72: Chabab Belcourt
1972/73: Chabab Belcourt
1973/74: Sedan
1974/75: PSG
1975/76: PSG
1976/77: PSG
1977/78: PSG
1978/79: PSG
1979/80: PSG
1980/81: PSG
1981/82: PSG
1982/83: PSG
1983/84: PSG
1984/85: Nice

Internacional-A pela Argélia

Títulos:

- 2 Taças de França (1982 e 1983)

- Melhor jogador da liga francesa em 1976/77 e 1977/78

- Melhor marcador de sempre no PSG em jogos do campeonato (85 golos)
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