B.I.
Matthias Sammer

Foi um dos melhores futebolistas mundiais das últimas décadas. Vencedor do troféu Bola de Ouro em 1996, muito à custa da conquista do Euro 96, Matthias Sammer somou ainda ao seu palmarés a Liga dos Campeões em 1996/7. Essa foi a última época de sucesso na carreira do “cabeça de fósforo”, que começou cerca de dez anos antes, em Dresden, a sua cidade natal, situada na antiga RDA (República Democrática Alemã).
Matthias Sammer é uma das figuras incontornáveis da história do futebol germânico. Como referimos acima, Sammer nasceu na ex-RDA. Foi o capitão da selecção desse Estado imediatamente antes da queda do Muro de Berlim (9 de Novembro de 1989) e reunificação das duas Alemanhas (3 de Outubro de 1990). Nessa perspectiva, a sua dimensão na Alemanha de Leste está quase em pé de igualdade com Sparwasser, o médio-ofensivo da RDA que marcou o 1-0 que bateu a RFA no Mundial de 1974. Contudo, Sammer, filho de Klaus Sammer (antigo jogador do Dinamo Dresden), atingiu um nível no futebol alemão e internacional da década de noventa com que Sparwasser nem sequer podia sonhar.
A chamada de VogtsBeckenbauer tinha conquistado o terceiro mundial da RFA no Itália 90 e era o momento de Berti Vogts remodelar a Mannschaft de forma a alcançar as meias-finais do Euro 92 – foi essa a fasquia que o antigo baixinho lateral-direito colocou para a “nova Alemanha”. Alguns veteranos como Augenthaler ou Littbarski aproveitaram o título mundial para se retirarem. Chegada a altura de enfrentar o Euro 92, disputado na Suécia, Vogts não pôde contar com Matthäus (contraiu uma lesão no joelho) e, mais tarde, Rudi Völler juntou-se ao lote de indisponíveis. Foi daí que surgiu a necessidade de Sammer, um dos benjamins da Alemanha recém-reunificada, emergir como patrão do meio-campo. Jogador com inegáveis características de liderança, Sammer era daqueles em quem todos confiavam e sentiam tranquilidade para gerir o meio-campo. A título de curiosidade, foi o primeiro jogador da ex-RDA convocado para a selecção da Alemanha reunificada. Mais tarde, tendo em vista o Euro 92, alguns outros elementos da Alemanha de Leste, como Thomas Doll ou Andreas Thom, juntaram-se a Sammer.
Antes do Euro 92: De Dresden a Estugarda e as aventuras de 86 e 87Antes de irmos ao Euro 92, passemos apenas os olhos àquilo que foi a carreira de clubes e selecção até esse período. Sammer foi duas vezes campeão pelo Dinamo Dresden (1988/9 e 1989/90, quebrando uma hegemonia de dez títulos consecutivos do Dinamo de Berlim). Actuando no meio-campo, marcou, inclusivamente, 10 golos em 20 jogos da época de 1989/90 pelo clube onde também jogava Ulf Kirsten, avançado que se notabilizou no Bayer Leverkusen. Kirsten, aliás, foi um dos jogadores que representaram a selecção da ex-RDA com Sammer, mas também com Dariusz Wosz e os tais Thomas Doll (actual treinador do Hamburgo) e Andreas Thom.
Sammer tem uma trajectória curiosa nas selecções. Em 1986, foi campeão europeu de sub18 pela ex-RDA. A vitória final por 3-1 frente aos italianos foi jogada em Subotica, na ex-Jugoslávia. Um ano mais tarde, no Mundial sub20, disputado no Chile, levou a sua selecção ao terceiro lugar. Sammer marcou 4 golos nos 6 jogos que efectuou. Concretizou um hat-trick na fase de grupos contra a Colômbia e viria a apontar outro tento na meia-final perdida frente à Jugoslávia por 1-2 – nessa fortíssima selecção (que venceu na final a RFA de Möller, Preetz e Witeczek, o melhor marcador com 6 golos) actuavam verdadeiros craques em potência como Boban, Mijatovic, Suker e também aquele que foi considerado o melhor jogador do torneio, Prosinecki.
Após os dois títulos da liga da RDA e aproveitando o derrube do Muro, Sammer lança-se para a sua aventura no mercado internacional. Assim, em 1990, assina contrato pelo Estugarda, clube que lhe permitiu auferir um ordenado trinta vezes superior ao que ganhava em Dresden. Permaneceu no Estugarda até 1991/2, época em que se sagrou campeão alemão com Christoph Daum a treinador. Em 63 jogos nas duas épocas de Estugarda, Sammer apontou 20 golos.
Euro 92: A surpresa chamada DinamarcaChegámos ao Euro 92 e foi essa a primeira grande montra de Sammer no panorama internacional. Em Gotemburgo, a Alemanha veio a perder a final frente à surpreendente Dinamarca (0-2), pelo que houve alguma celeuma em relação ao facto de Vogts ter tirado Sammer ao intervalo para fazer entrar Doll. A equipa perdeu orientação no meio-campo e cada ataque da Dinamarca era um verdadeiro suplício para Illgner.
Curta passagem pelo Inter Refira-se que Sammer teve uma curtíssima estada de seis meses no Inter. Na altura, em 1992/3, os nerazzurri, já sem Brehme, Matthäus e Klinsmann, mas com Zenga, Bergomi, Nicola Berti, Shalimov e Ruben Sosa, eram orientados por Osvaldo Bagnoli. Sammer chegou para jogar no meio-campo e ainda marcou 4 golos nos 11 jogos da Serie A que cumpriu. No entanto, o alemão revelou problemas de adaptação e decidiu regressar à Alemanha. Curiosamente, Bagnoli não conseguiu ter com Sammer o sucesso que teve com outro alemão de grande nomeada. Hans-Peter Briegel, lateral-esquerdo que se sagrou campeão nacional pelo Hellas Verona em 1984/5.
Ingresso no Dortmund e a presença no EUA 94Desta forma, Sammer assinou pelo Borussia Dortmund em Janeiro de 1993. O treinador alemão Ottmar Hitzfeld colocou-o no meio-campo e no seu jogo de estreia marcou o golo da vitória, em casa, frente ao Bochum. Ainda foi a tempo de marcar 10 golos em 17 jogos da Bundesliga 1992/3. O Dortmund, onde ainda chegou a jogar Flemming Povlsen, dinamarquês que defrontara Sammer na final do Euro 92 pela Dinamarca, acabou essa temporada em 4.º lugar, com o Werder Bremen campeão.
Um ano depois, em 1994, a Alemanha campeã mundial em título não queria defraudar as expectativas e Sammer realizou um Mundial espectacular. Porém, a selecção foi eliminada nos quartos-de-final pela Bulgária. Por acaso, o médio Sammer (Matthäus jogou mais recuado com Helmer e Kohler) tinha-se lesionado antes e não participou nesse encontro em que brilhou a cabeçada fantástica de Letchkov. Também Effenberg esteve ausente do jogo da eliminação com a Bulgária, uma vez que foi afastado por Vogts devido a problemas disciplinares.
1996: O ano de ouroO “cabeça de fósforo” (alcunha de Sammer por causa do cabelo ruivo) começava, porém, a desenvolver o seu futebol em posições mais recuadas no Dortmund de Hitzfeld. Sammer consolidou-se como líbero ainda antes do Euro 96 e foi assim que ajudou o clube alemão a vencer a Bundesliga em 1994/5 e 1995/6 – Sammer foi considerado o melhor jogador alemão nesses dois anos. Contudo, o Euro 96 foi a grande prova de Sammer. É impossível esquecer a imagem de Sammer em Inglaterra, deslizando pelos relvados em busca do desarme mais difícil, do corte impossível, inclusivamente do golo.
Sammer foi o melhor jogador do Euro 96 e o grande artífice da conquista da taça entregue por Isabel II ao capitão Jürgen Klinsmann. Inteligência suprema nas dobras, leitura sempre correcta dos lances, com timing perfeito, o general Sammer realizou um desempenho formidável que teve o seu auge na meia-final frente à Inglaterra – o melhor jogo do grande líbero. Sammer não foi só fundamental na ordenação defensiva, como também marcou dois golos importantes. O primeiro, frente à Rússia e depois, já nos quartos-de-final, desbloqueou a igualdade contra a Croácia, numa altura em que Klinsmann e Bobic tinham saído do campo por lesão. A Alemanha de Vogts jogava essencialmente com três defesas-centrais: Helmer e Kohler (Babbel) na marcação e Sammer sempre mais livre, em vaivéns desde área de Köpke até à linha de meio-campo ou grande área contrária. Dieter Eilts era o médio mais defensivo que ajudava a cobrir os espaços deixados por Reuter e Ziege, enquanto a criação ficava entregue a Hässler, Möller ou Scholl. A final foi ganha à República Checa de Berger, Nedved e Poborsky, com dois golos de Bierhoff.
“Ele é o sucessor de Beckenbauer”, não hesitou Berti Vogts, que não contou novamente com o outro líbero Lothar Matthäus numa fase final de Europeu. Também por lesão, tal como em 1992. A relação entre Matthäus e Sammer foi um pouco ao estilo de Lehmann e Kahn, se é permitida a comparação. Ora, jogando daquela forma, tão rápido, tão perspicaz, tão influente, foi difícil não atribuir-lhe a Bola de Ouro de 1996. Sammer sucedeu, assim, ao liberiano George Weah.
A conquista da Champions1996 marcou o bi-campeonato do Dortmund, a vitória do Euro 96 e a Bola de Ouro. Um ano brilhante para Sammer, mas que foi só o aquecimento para a grande vitória na Liga dos Campeões de 1996/7. O Dortmund arrecadou a taça das orelhas grandes frente à Juventus de Lippi, em Munique, com uma vitória por 3-1 (de alguma forma, o Dortmund vingou a derrota da final da Taça Uefa ante os de Turim em 92/3 - eliminatória onde Sammer não participou). Nessa época, Sammer até foi algo agastado por lesões e não obteve um desempenho regular durante a temporada (Bayern foi campeão). Manteve-se como líbero e jogou a final de Munique à frente do keeper Klos e ao lado de Kohler e Kree, ao passo que Reuter (direita) e Heinrich (esquerda) eram os alas. O escocês Lambert e o português Paulo Sousa (transferido da Juventus) eram os médios mais defensivos, com Möller a assumir o papel da criação para os avançados Chapuisat e Riedle, o grande cabeceador do futebol alemão.
Malditas lesõesNa época seguinte, Hitzfeld abandonou o Dortmund e Nevio Scala foi o seu sucessor no clube. Sammer praticamente não jogou devido à lesão no joelho (total de três partidas na Bundesliga 1997/8) e foi assim que decidiu abandonar prematuramente a prática do futebol, com “apenas” 31 anos. A leitura de jogo única, a percepção da melhor ocasião para avançar à área contrária para criar superioridade numérica e o raro instinto de antecipação fariam de Matthias Sammer um grande jogador para além dos 31 anos. Como treinador, orientou o Dortmund (de 2001/2 até 2003/4) e o Estugarda (2004/5). Enquanto esteve no Westfalenstadion, Sammer foi campeão em 2001/2 tendo jogadores como Rosicky, Ewerthon, Koller ou Amoroso. Nesse mesmo ano, a glória poderia ter sido muito maior se tivesse ganho a final da Taça Uefa frente ao Feyenoord. Mas Van Hooijdonk não permitiu…
Luís Catarino
» 2006-08-29