B.I.
O agilíssimo vólei canhoto com que Marek Saganowski bateu Quim, durante um jogo de pré-época, em Guimarães, frente ao Benfica, é um bom começo para o retrato do avançado-centro em 2005/06.
A época do Vitória não podia ter sido mais turbulenta. Vimos uma primeira volta miserável com Jaime Pacheco, alguns resquícios de recuperação com Vítor Pontes, e nada que fizesse estabilizar os vimaranenses num lugar de conforto efectivo na classificação. Foi logo na planificação que se verificaram as principais deficiências dum plantel visivelmente mal estruturado - muito investimento feito em médios de essência central e algum descuido no preenchimento das alas ofensivas.
Enquadramento no Vitória
Actualmente com 27 anos, Saganowski é o jogador mais valioso do Vitória. Destoa um pouco da irregularidade do clube porque até tem vindo a marcar golos, aqueles que o meio-campo vai podendo criar. Pacheco e Pontes já experimentaram 4-4-2, também o 4-1-3-2, mas a táctica que melhor assenta ao avançado polaco é, na minha opinião, o 4-2-3-1. Não só porque o próprio médio ofensivo Benachour adquire mais exclusividade na armação, como também é bastante notório que Saganowski não manifesta particular interesse em ter um outro avançado actuando ao seu lado.
É certo que alguns dos mais de dez golos apontados nesta temporada pelo camisola 9 foram obtidos enquanto fazia dupla com Manoel, Targino, Antchouet ou Dário. Porém, o ponto máximo da qualidade de Saganowski é visto enquanto avançado-centro único, deambulando para as alas (fundamentalmente para o lado esquerdo) e aproveitando a confiança e prontidão de remate para culminar movimentos protagonizados pelos hipotéticos três médios ofensivos.
Não é um jogador que desate a correr com a bola controlada em direcção à baliza. Não tem pernas para isso. No entanto, tem perspicácia para, quando deriva para o flanco, saber aguentar o lance, ter facilidade em libertar alguém que apareça nas suas costas e partir novamente para a posição base de ponta-de-lança. Quando permanece na zona de finalização, Saganowski torna-se muito menos altruísta e só fixa a baliza. Por vezes, perde algum tempo a adornar, porque não larga o recorte técnico, mas não é costume realizar assistências dentro da grande área. Não é defeito, nem qualidade. É uma característica que deve ser aproveitada para um determinado esquema táctico. ‘Sagan’ usa preferencialmente o pé direito, mas é perfeitamente normal vê-lo executar um remate ou um passe com o esquerdo. É instintivo.
Colega de equipa de Ronald Koeman
Vindo do Legia de Varsóvia, onde facturou 41 golos em 67 jogos (02/03, 03/04, 04/05), Saganowski escolheu o Vitória para relançar a sua carreira no estrangeiro, depois de não ter conseguido vingar no Feyenoord e no Hamburgo. Havia iniciado a sua carreira sénior no LKS Lodz (apontou 11 golos em 95/96) e aos 18 anos (96/97) assinou pelo Feyenoord, então treinado por Arie Haan. Nunca encontrou espaço no De Kuip, onde pontificavam alguns nomes como Ronald Koeman, ‘Gio’ van Bronckhorst, George Boateng, Pablo Sánchez, Gaston Taument ou Henrik Larsson. Além destes, havia também Ed De Goey, o guarda-redes que ia tapando o lugar ao recém-chegado 'Jerzy' Dudek, o compatriota, não só de Saganowski, como também do extremo Tomasz Iwan. Todos indicados pelo então treinador de júniores do Feyenoord, Wlodzimierz Smolarek, uma das grandes figuras de sempre do futebol polaco e pai da actual estrela emergente do Dortmund, Eusebiusz Smolarek (cresceu no Feyenoord, porém).
Em Hamburgo, com Magath
Saganowski participou em dez partidas com Arie Haan, nunca tendo conseguido constituir-se como séria alternativa aos titulares. Tentou, ainda na mesma época de 96/97, a sorte em Hamburgo, onde jogavam Hasan Salihamidzic, Markus Schopp ou Rodolfo Cardoso. O treinador, Felix Magath, só lhe deu três jogos, todos como suplente – perdeu dois e empatou um. Mas além de Salihamidzic e Cardoso, havia Pawel Wojtala, internacional polaco que até actuou juntamente com Saganowski pela selecção A na mesma época.
O capítulo "Selecção da Polónia": olhar sobre Zurawski e Frankowski
Na altura, o domínio do ataque pertencia a Krzysztof Warzycha, Piotr Nowak ou Marek Citko. Daí que ‘Sagan’ continuasse com poucas hipóteses. Mas ainda era muito novo e, com calma, talvez a transição fosse feita de forma natural. Todavia, um acidente de mota obrigou-o a parar durante sensivelmente um ano. De volta ao "clube da terra", o LKS Lodz, Saganowski tentou erguer-se, mas demorou quase cinco anos até que voltasse a atingir um nível que agradasse aos responsáveis da selecção polaca.
Foi, precisamente, no Legia de Varsóvia (depois de breves passagens pelo Orlen Plock e Odra Wodzislaw), que Saganowski voltou a competir a um nível bem aceitável – destaque para o hat-trick conseguido no derby de Varsóvia frente ao Polonia; vitória por 7-2 em 03/04. Na última época na Polónia, antes de ingressar em Guimarães, apontou 14 golos, menos nove que o líder da lista – Tomasz Frankowski (25) – e menos oito que o segundo – Maciej Zurawski (24). Estes dois avançados haviam deixado o Wisla de Cracóvia antes do clube ter sido derrotado pelo Vitória na qualificação para a fase de grupos da Taça Uefa de 05/06. Aliás, tanto Frankowski como Zurawski são os dois principais goleadores da selecção orientada por Pawel Janas (os dois juntos marcaram 14 dos 27 golos da qualificação para o Mundial). A eles também muito se deve o domínio do Wisla nas últimas temporadas de futebol polaco.
O veterano Frankowski emigrou no início desta época para o Elche, da segunda divisão espanhola, mas encontra-se actualmente no Wolverhampton Wolves, treinado por Glenn Hoddle. Tem um impressionante registo – 115 golos em 173 jogos pelo Wisla na Liga polaca (desde 1998 até 2005) e 8 golos pelo Elche na segunda divisão espanhola, até que saiu para Inglaterra seis meses depois, em Janeiro de 2006. Já o titularíssimo Pawel Zurawski (95 golos em 153 jogos pelo Wisla; melhor marcador da Liga em 01/02 e 03/04) tem tido, até agora, bastante mais sucesso nas Ilhas Britânicas, comparativamente a Frankowski. Nesta temporada de 05/06, Zurawski marcou 14 golos em 20 jogos pelo Celtic de Glasgow na Liga escocesa.
Sosin: aos 28 anos, o benjamim de Janas?
Além destes dois pesos pesados no ataque, que, tal como Saganowski, tentaram recentemente desenvolver as suas carreiras fora da Polónia, há também o ponta-de-lança Grzegorz Rasiak, actualmente emprestado pelo Tottenham ao Southampton e que em 2004/05 concretizara 18 golos pelo Derby County. A concorrência aperta ainda com Andrzej Niedziela - 10 golos na Liga holandesa pelo NEC (despontou no Groclin que fez algum furor na Taça Uefa 03/04, com Rasiak e com o loirinho Sebastian Mila, actual médio do Austria de Viena) - e também com Lukasz Sosin (Apollon Limassol), que se estreou pela selecção no último particular com a Arábia Saudita e apontou dois golos. Sosin tem a particularidade de já ter 28 anos e de não se ter afirmado anteriormente no Wisla. Preferiu apostar numa carreira no Chipre (melhor marcador da liga nas últimas duas épocas), onde desenvolveu as suas capacidades de “animal de área” e consta que é um dos preferidos de Janas tendo em vista a convocatória final, o que deixará muito pouca margem a Saganowski.
Luís Catarino