
Regra geral, os miúdos têm de ceder perante os mais velhos. Numa qualquer peladinha de futebol de rua onde "o puto" vai para a baliza e os mais velhos fuzilam-no de alto a baixo, ou, então, falando a um nível mais profissional, esperando que o sol se abra para jogar na posição predilecta. Certamente que Leonardo também já teve de ir à baliza e defender alguns remates, mas é a tal segunda hipótese, mais a ver com circunstâncias de gestão do plantel, que constitui a base deste texto. Vejamos, então, que consequências teve essa hierarquia etária a que Leonardo foi sujeito, porque foi devido às cedências perante os "grandes" que começou a ganhar notoriedade.
Espanha entre BrasilLeonardo foi um jogador que primou por um enorme carácter ao longo da carreira (apesar desse marco negativo que foi a cotovelada a Tab Ramos em 1994), mas também por uma assinalável versatilidade táctica. Nem sequer é daqueles casos em que podemos dizer que foi um lateral-esquerdo que se adaptou bem a posições adiantadas. Leonardo nasceu para o futebol brasileiro como médio/ponta-esquerdo. Foi assim, aos 18 anos, que chegou à equipa principal do Flamengo de Zico, Renato Gaúcho, Zinho, Bebeto, Jorginho, mas depois nunca teve muitas oportunidades para jogar na sua posição preferida e foi colocado a lateral-esquerdo. Em 1990, Leonardo assinou pelo São Paulo (20 anos de idade) e começou a revelar-se ainda mais, sob o comando de Telé Santana – responsável por uma das mais vencedoras equipas brasileiras de sempre. No entanto, o grande Santana, com a posição de lateral-esquerdo desfalcada, chamou Leonardo para esse lugar (quarteto predominante era Zé Teodoro - Cafú para o meio-campo -, António Carlos, Ricardo Rocha e Leonardo à frente do keeper Zetti). No conjunto de Müller e Raí, Leonardo destacou-se de tal modo (eleito melhor lateral esquerdo do Brasileiro em 1991) que em 91/92 emigrou para o Valencia de Guus Hiddink (treinador acabado de ser campeão europeu pelo PSV frente ao Benfica). E até foi com o holandês que começou a jogar com regularidade no meio-campo do lado esquerdo, em dois anos de titularidade absoluta no Valencia. Ou melhor, fazendo todo o corredor esquerdo, uma vez que Hiddink instalou um 3-5-2 com Quique Flores à direita + Giner, Camarasa e Voro no centro da defesa.
Com o Mundial de 1994 em vista, optou por regressar ao Brasil. O desafio era novamente o Morumbi, mas desta vez com o objectivo particular de suprir a ausência espiritual deixada por Raí, que se transferira para Paris depois da vitória na Taça dos Libertadores. Leonardo ganharia, em teoria, um papel de muitíssimo maior destaque em todo o processo ofensivo do São Paulo de Telé Santana. Sublinhe-se a posição mais adiantada, pois André Luiz ou Ronaldo Luís alternavam entre si as posições de lateral-esquerdo, deixando Leonardo absolutamente tranquilo em relação à sua estabilização como médio/ponta esquerdo.
E foi neste mesmo São Paulo que, em Dezembro de 1993, ganhou o seu primeiro grande troféu internacional, a Taça Intercontinental frente ao Milan de Capello (3-2). Telê Santana venceu a competição pela segunda vez consecutiva (em 1992 tinha derrotado o Barça de Cruijff), mas desta vez sem Raí. Tinha Leonardo como ponta-esquerda, Cafú como lateral-direito, Doriva e Dinho atrás de Toninho Cerezo (já com 38 anos), e ainda Müller como grande referência do ataque, acompanhado por Palhinha. Juninho Paulista ainda se afirmava lentamente como o benjamim de irreverência centrocampista.
Do Japão a França, + EUA 94Todavia, esta segunda estada no São Paulo durou poucos meses e a grande exibição realizada em Tóquio (inclui uma bela assistência para Cerezo) convenceu os responsáveis do Kashima Antlers a adquirir o passe de Leonardo. Parreira tinha-lhe dado garantias da presença no Mundial de 94 e, depois de “substituir” Raí no São Paulo, a responsabilidade era agora tornar-se na figura máxima do futebol japonês depois de Zico, outro craque com quem Leonardo conviveu na etapa de formação e que foi a grande estrela do Kashima. Aliás, foi Zico quem aconselhou Leonardo para jogar no país do Sol Nascente.
Convém dizer que os EUA 94 foram a última experiência sólida do jogador como lateral-esquerdo. Carlos Alberto Parreira, no EUA 94, quis colocar Jorginho e Leonardo como laterais da selecção brasileira, com Márcio Santos e Aldair no centro da defesa – esta era a linha que Parreira queria implementar e da qual só foi obrigado a abdicar devido à expulsão de Leonardo no jogo com os EUA, passando Branco a jogar nessa posição até à final com a Itália – Branco até tinha sido o que tinha jogado mais vezes na qualificação.
Depois do título mundial e da aventura japonesa, Leonardo regressou à Europa para se impor em definitivo no futebol de alto nível. Foi contratado pelo PSG em 1996 para jogar como médio ofensivo, ao lado de Raí, treinados por Ricardo Gomes e depois pelo marado Luis Fernandez. A posição de lateral-esquerdo já estava esquecida, e Leonardo afirmou-se na posição de médio ofensivo-centro criativo inclinado na faixa esquerda, mais ou menos como faz Nedved na actual Juventus. Cauet, Guérin ou Fournier seguravam melhor o meio-campo, enquanto Leo e Raí (Leroy em menor plano) baseavam-se no mais sublime controlo de bola e inteligência (já vamos descrever o jogador, em si, mais abaixo) para servir Loko e Dely Valdés.
Itália + France 98Com essa época de 96/97 realizada em grande nível (apesar da vergonha da Supertaça Europeia frente à Juventus; 1-6) e da Taça das Taças perdida para o Barça, o Milan, treinado por Capello (o mesmo que tinha sido derrotado por Leonardo na Intercontinental em 93), foi o próximo destino do brasileiro, completamente afirmado na posição de médio ofensivo centro/esquerda. A sua compleição táctica permitiu-lhe uma boa adaptação ao futebol italiano e Zagallo não hesitou em dar-lhe um papel de destaque na equipa titular do France 98, mesmo com Rivaldo incluído no onze (Bebeto e Ronaldo como dupla atacante). Nessa competição, devido à abundância de esquerdinos, Leonardo jogou ligeiramente inclinado para o lado direito, com Rivaldo mais para o lado esquerdo (ambos com ordens para fazerem diagonais).
Possivelmente martirizado com o péssimo desempenho da final de St. Denis frente à selecção da casa, Leonardo aplicou-se ainda mais na sua carreira clubística e realizou uma estupenda época com 12 golos marcados no Milan, já orientado por Alberto Zaccheroni. O ex-treinador da Udinese sucedia, assim, a Óscar Tabárez, Arrigo Sacchi e o regressado Fabio Capello, todos com maus desempenhos nos anos próximos que antecederam Zac. Pois foi com Zaccheroni que Leonardo conquistou o título da Serie A em 98/99. Jogando num 3-4-3, Zac alternava entre Boban e Leonardo para a posição de médio ofensivo-centro a inventar linhas de passe para os avançados, enquanto Helveg (direita) e Guly ou Ziege (esquerda) eram as preferências para fazer os corredores; Albertini e Ambrosini a segurar o centro do meio-campo, ainda que o primeiro tivesse mais permissão para lançar. Bierhoff e Weah formavam aquela que era das duplas com mais sentido dos últimos tempos. Encaixe teórico perfeito, com o alemão a usar do jogo aéreo para fazer 19 golos.
Estes foram os tempos áureos da carreira de Leonardo, desde a posição de lateral-esquerdo até à de médio ofensivo a municiar avançados. O longo curso na selecção brasileira terminou quando surgiram as polémicas investigações acerca de Wanderlei Luxemburgo. Aí Leonardo, que até tinha iniciado bem a campanha de 99 na Canarinha, decidiu renunciar e pôr um termo à selecção. Regressaria em 2001, pelas mãos de Scolari, e disputou uns poucos minutos da qualificação para o Mundial, a fim de tentar devolver o espírito competitivo, experiência e o discurso necessários para a conquista do Coreia/Japão. Em 2001, depois de mais duas épocas intercalando o banco com a titularidade, saiu do Milan, ainda voltou para o São Paulo e Flamengo e regressaria a Milão para depois renegociar o seu contrato e tornar-se director técnico dos rossoneri, tal foi a boa impressão e elegância que deixou em San Siro.
O jogadorA meu ver, Leonardo foi um dos jogadores de eleição da década de 90. Fez a carreira em poucas posições, mas algo distintas: lateral-esquerdo, médio-esquerdo, médio ofensivo-centro (e/ou esquerda), médio-centro com menos vocação ofensiva ou inclinado no lado direito (na Selecção de Zagallo). Atleta com elevados índices de concentração, sempre sereno, normalmente tomava a melhor decisão, quer nas subidas pelo flanco, quer no momento de soltar um passe para as costas da defesa. Do pé esquerdo saíram imensos dribles recheados de elegância, chapéus bem medidos, mas Leonardo foi, fundamentalmente, alguém que deixou sempre uma óptima imagem de profissionalismo. Aliando um recorte técnico de eleição com sentido prático suficiente para pôr a equipa a jogar. A velocidade de progressão e execução que demonstrava por esse mundo, estão bem à medida da velocidade com que ganhou respeito no futebol.