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Jean Djorkaeff


Face à Revolução Russa de 1917 e ao consequente assassinato do czar Nicolau II no ano seguinte, muitos grupos da Eurásia emigraram para Ocidente, de forma a escaparem à nova ordem bolchevique. Foi também o caso dos kalmukes, povo budista que, apesar de estabelecido no sudoeste russo, tem descendência de antigas tribos nómadas da Mongólia. Entre os kalmukes, há um que, desde já, merece natural destaque da nossa parte: Igor Djorkaeff. Após a Revolução, percorreu países como Turquia, Jugoslávia e Polónia, instalando-se, em definitivo, na parte oriental da França, mais concretamente em Charvieu, onde trabalhou numa fábrica. Assim se explica, de forma muito resumida, o modo como surgiu o nome Djorkaeff em território gaulês.


O início de 'Tchouki'

Jean Djorkaeff, filho de Igor, nasceu em 1939 e viria a notabilizar-se como defesa-direito, apesar de ter começado a jogar como atacante. Aliás, na sua posição original de avançado-centro, marcava golos em Saint-Maurice-de-Beynost, pequena localidade bem próxima de Lyon e onde ganhou a alcunha de 'Tchouki'. Ora, o Lyon, actual colosso do futebol francês - naquela altura com uma dimensão bem mais modesta - decidiu avançar para a aquisição de Djorkaeff, quando este tinha apenas 19 anos. No entanto, chegado a Lyon e perante a forte concorrência para a posição de avançado-centro que existia no plantel lyonnais (o camaronês Njo-Léa, o franco-argentino Combin…), Jean Djorkaeff foi colocado a médio-ala direito.


Adaptado, com sucesso, a defesa-direito

Todavia, em 1963, o treinador do Lyon, Lucien Jasseron, apercebendo-se da velocidade, das capacidades técnicas e do elevado profissionalismo de Jean Djorkaeff, decidiu adaptá-lo à posição de defesa-direito.

A época de 1963/4 foi aquela em que o Lyon venceu a sua primeira Taça de França (2-0 ao Bordéus) – “Tchouki” conquistava, assim, o seu primeiro troféu de relevo. Ficou, contudo, uma pequena sensação de frustração por terem sido eliminados nas meias-finais da Taça das Taças frente ao Sporting - os lisboetas viriam a ganhar essa edição da competição contra o MTK de Budapeste (a final do célebre “Cantinho do Morais”). A título de curiosidade, refira-se que, na época seguinte (1964/5), o Lyon foi, uma vez mais, eliminado da Taça das Taças por uma equipa portuguesa, o Porto.


Quando Skoblar arriscou ficar sem cabeça

Jean Djorkaeff crescia como jogador e foi chamado pela primeira vez à selecção francesa em Outubro de 1964, numa partida no Luxemburgo, a contar para a qualificação para o Mundial de 66. Ou seja, antes de ingressar no Marselha.

Um dos grandes craques que foi colega de Djorkaeff no OM foi o ponta-de-lança internacional jugoslavo Josip Skoblar – nascido na Croácia e, porventura, o melhor avançado da história do Marselha. Ironicamente, Djorkaeff tinha defrontado Skoblar na fase de qualificação para o Mundial, quando ambos ainda não faziam ideia que viriam a jogar juntos no mesmo clube alguns meses mais tarde. Ora, nesse desafio em Belgrado, houve uma jogada em que Djorkaeff, de forma aparentemente involuntária, atingiu Skoblar na face. Porém, quando o irascível Skoblar já se preparava para responder com violência a “Tchouki”, o guarda-redes Marcel Aubour interveio atempadamente e alertou o avançado jugoslavo: “Tem cuidado, que ele é mongol! Queres ficar sem cabeça?!”.

Djorkaeff não chegou a decapitar Skoblar e o apuramento foi alcançado. Todavia, não foi feliz no Mundial em Inglaterra, pois o melhor que os gauleses fizeram na fase final foi empatar com o México (duas derrotas nos restantes jogos do grupo com o Uruguai e com a futura campeã Inglaterra).

Depois do Inglaterra 66 e de oito anos no Lyon, Jean Djorkaeff passou, então, a representar o Marselha, tal como Marcel Artélésa, defesa-central que actuava no Mónaco e que era capitão da selecção. Ambos conferiram um enorme reforço qualitativo e ajudaram o Marselha a consolidar-se como uma das principais referências do futebol francês. Nesse período, “Tchouki” conquistou a sua segunda Taça de França (em 1969, outra vez 2-0 ao Bordéus). Num total de 139 jogos efectuados pelos marselheses no campeonato, apontou 12 golos.


Porquê Paris?

O facto de “Tchouki” ter assinado pelo Paris Saint-Germain, em 1970, causou alguma surpresa. Primeiro, porque o Marselha estava com um projecto relativamente bem desenvolvido - tanto que foram campeões em 1970/1. Segundo, porque este era precisamente o primeiro ano de existência do clube parisiense, que ia começar na segunda divisão. Porém, o consagrado Djorkaeff preferiu rumar a Paris para estar mais próximo da família, que entretanto se havia instalado na capital. Desta forma, não será difícil constatar por que razão “Tchouki” é considerado como a primeira estrela da história do PSG. Aliás, foi também o primeiro jogador dos parisienses a vestir a camisola dos Bleus, uma vez que Djorkaeff ainda era titular da selecção francesa. Mais que isso, ainda era o capitão – em 24 das suas 43 internacionalizações, Djorkaeff ostentou a braçadeira de capitão dos Bleus (desde 1969 a 1972).

O PSG subiu à primeira divisão, mas, dois anos depois, a situação alterou-se um pouco, devido ao “reset” do clube. O défice financeiro e as enormes divergências ao nível da direcção fizeram com que o Paris Saint-Germain tivesse de recomeçar do zero. Por outras palavras, na terceira divisão; exclusivamente com futebolistas amadores. Ao mesmo tempo, Djorkaeff e os outros que tinham contrato profissional ficaram no Paris FC, clube que, fundindo-se com o Montreuil, ocupou a vaga do PSG na primeira divisão. Djorkaeff retirou-se no final de 1973/4, tendo o PFC terminado no penúltimo posto.


Das Estepes aos Campos Elísios é um passo

Actualmente, preside à Comissão que organiza a Taça de França. Mas, antes, teve uma carreira pouco relevante como treinador, passando, por exemplo, pelo St.Étienne na época de 1983/4. Uma desastrosa derrota por 7-0 contra o Bordéus, à 33.ª jornada, precipitou o afastamento de “Tchouki” nos Verts, que desceram à segunda divisão. Foi ainda adjunto de Henri Michel nos Bleus e orientou também o Grenoble, clube onde o seu filho - um tal de Youri - começou a dar os primeiros toques. Esse Youri Djorkaeff que ajudou a colocar a França no topo do futebol mundial em 1998 e 2000.


Luís Catarino

» 2007-06-21
Nome: Jean Djorkaeff

Data de nascimento: 27 de Outubro de 1939

Local de nascimento: Charvieu, França

Posição: Defesa-direito

Clubes:
1958/9: Lyon
1959/60: Lyon
1960/1: Lyon
1961/2: Lyon
1962/3: Lyon
1963/4: Lyon
1964/5: Lyon
1965/6: Lyon
1966/7: Marselha
1967/8: Marselha
1968/9: Marselha
1969/70: Marselha
1970/1: PSG
1971/2: PSG
1972/3: Paris FC
1973/4: Paris FC

Principais títulos: Vencedor da Taça de França em 1964 e 1969

Selecção: 48/3
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