Cauteloso van HanegemEstamos em 1993/94. O clube de Roterdão tinha sido campeão na temporada anterior (92/93) e era, então, orientado por Willem van Hanegem, antigo médio de ataque do austríaco Ernst Happel no Feyenoord e que contribuiu para a vitória na final da Taça dos Campeões Europeus em 1969/70 frente ao Celtic de Jock Stein, em San Siro. Só por curiosidade, van Hanegem interveio, igualmente, nas duas mãos da Taça Intercontinental contra o Estudiantes LP, em 1970 – marcou um golo em Buenos Aires que ajudaria a conquistar o troféu em Roterdão, dias mais tarde. Ao seu lado, nessa equipa história do Feyenoord, estiveram o defesa Rinus Israël (facilmente reconhecível pelos óculos) e o fortíssimo médio Wim Jansen – todos eles também pertencentes à Holanda de 74.
Em 1993/94, e promovido dos escalões jovens, “Gio” van Bronckhorst tinha 18 anos e muito poucas possibilidades de jogar com regularidade. Van Hanegem e a administração do Feyenoord decidiram emprestá-lo por uma época ao RKC onde teve alguma influência na segunda metade da temporada e até ajudou a formação de Waalwijk a escapar da descida de divisão. Refira-se que coabitou no RKC com André Hoekstra, médio ofensivo que antes se tinha destacado imenso no Feyenoord e que jogava, em 93/94, a sua última temporada como futebolista.
Regressou a Roterdão, mas ainda não era desta que iria merecer mais confiança de van Hanegem, que mostrou não ter muitos planos para o médio-esquerdo que se queria afirmar depois da estada em Waalwijk. Marcou um golo nesta temporada de 94/95, mas foi ainda menos utilizado do que na anterior. Provavelmente inspirado nas alterações 3-4-3/4-3-3 desenhadas por Rinus Michels, seu seleccionador, por exemplo, no Mundial de 1974, van Hanegem não arriscou em van Bronckhorst por considerar que este estava eventualmente talhado para ser jogador de linha, e não de meio-campo interior como pretendia. Nessas funções, as escolhas titulares eram feitas em jogadores como Trustfull ou Rob Witschge, tendo em conta que Regi Blinker e Taument/Kiprich abriam o ataque a três em que Obiku ou Larsson funcionavam como ponta-de-lança.
Arie Haan, nova lufada no De KuipApós a saída de van Hanegem, as perspectivas de van Bronckhorst em jogar com mais frequência aumentaram consideravelmente. O primeiro foi substituído em Outubro de 1995 (inícios da época de 95/96) por Arie Haan. Este, aliás, tinha sido colega de equipa de van Hanegem na Orange do Mundial de 1974, onde foram finalistas vencidos pela RFA.
Arie Haan trouxe uma maior diversificação de sistemas tácticos ao De Kuip e van Bronckhorst passou a ter muito mais intervenção na equipa titular. Primeiro, como médio-esquerdo do 4-4-2 em que constavam o polaco Iwan e Trustfull, como intérpretes mais significativos das transições para o ataque, e também os mais defensivos Bosz (anteriormente jogava mais como defesa-central) ou, numa fase mais posterior, van Gastel. Segundo, como médio interior de 4-3-3. Foi nesta temporada de 95/96 que começou a estabilizar-se como jogador mais central no meio-campo e a demonstrar que tinha bastante potencial para vir a ser útil em mais que uma posição. Foi a temporada em que van Bronckhorst marcou mais golos em toda a carreira (9), ainda que não tenha sido aquela onde tenha atingido maior reconhecimento, evidentemente.
Apesar de verificarmos que desenvolveu uma boa capacidade para jogar em posições mais nucleares, van Bronckhorst viveu uma época extremamente enriquecedora em 1996/97. Tal como na temporada anterior, Haan variou entre o 4-4-2 e o 4-3-3 (essencialmente estes dois, porque também experimentou ocasionalmente esquemas de 3-4-3 ou 3-5-2). “Gio” tanto jogou do lado esquerdo do 4-4-2 em linha com os mais físicos e defensivos van Gastel e van Wonderen no meio e Taument no lado direito, como também esteve presente no meio do 4-4-2 à frente de Ronald Koeman. O actual treinador do Benfica, enquanto esteve no Feyenoord, jogou quase sempre como defesa central. No entanto, nesta época de 96/97, vimos Ronald Koeman como médio defensivo, tentando tirar partido do remate exterior e do passe longo para lançar Henrik Larsson. Sublinho, em quatro ou três defesas. Aí, van Bronckhorst foi jogando como interior de 4-4-2, 3-4-3, 4-3-3, extremo esquerdo de 4-3-3 com Taument à direita.
Na época seguinte, em 97/98, o Feyenoord de Arie Haan reforçou-se com aquele que viria a ser um dos mais emblemáticos capitães em Roterdão. Paul Bosvelt foi contratado ao Twente depois de ter marcado 7 golos em cada uma das três épocas em que lá jogou e veio integrar o meio-campo do Feyenoord. A alternância táctica dos de Roterdão mantinha-se, mas uma vez com Bosvelt e também com van Gastel, a aposta no 4-4-2 foi mais incisiva, com o ex-Twente a jogar no lado direito ou numa posição interior do meio-campo.
A meio dessa temporada, Arie Haan foi subtituído por Leo Beenhakker e, mais ou menos coincidindo com o momento da transferência de Boateng para o Coventry, o Feyenoord passou a jogar bem assente num 4-3-3. Van Gastel, que demonstrava um posicionamento e estilo de passe parecidos com os de Petit (Benfica), deslocou-se para o centro da defesa, para fazer dupla com van Gobbel, este último “vindo” da posição de lateral-direito. Nesse sistema táctico, Bosvelt (direita) e van Bronckhorst (esquerda) foram os médios interiores, com o uruguaio Picun jogando frequentemente como médio mais defensivo nessa segunda metade. Isto enquanto Bonaventure Kalou se estreava no Feyenoord e começava a mostrar o seu valor no lado direito do ataque, servindo Julio Cruz, o argentino em quem se depositaram grandes esperanças e que foi contratado ao River Plate para substituir Henrik Larsson (transferido para o Celtic). De qualquer modo, convém dizer que nenhum jogador tinha uma posição estanque no Feyenoord – a polivalência era levada bem a sério e van Bronckhorst, bem como van Gastel, fez-se valer dessa qualidade para interpretar várias posições sem baixar os níveis de rendibilidade. Se bem que ia sendo visível que o jogador não tinha assim tanta capacidade de drible e aceleração para ser um grande extremo.
Liderança protestanteFinda a etapa em Roterdão, assinou, em 1998, pelo Rangers (custou 7,5M euros), o grande rival do Celtic do seu antigo companheiro de equipa, Larsson. O Feyenoord voltou a ser campeão na época em que van Bronckhorst já não fazia parte, em 98/99. Quem trouxe “Gio” para Glasgow foi o também holandês Dick Advocaat, contratado pelos protestantes para substituir Walter Smith. Juntamente com van Bronckhorst, houve outro “orange” que ingressou no Rangers e que acabou por ser decisivo no desempenho do ex-Feyenoord. Arthur Numan, adquirido ao PSV, garantiu o funcionamento da lateral-esquerda do 4-4-2, enquanto o alemão Jörg Albertz (um dos jogadores mais subestimados dos anos 90) se encostou mais ao lado esquerdo (losango ou linha).
Assim, van Bronckhorst liderou perfeitamente o centro do meio-campo nas duas primeiras épocas em que permaneceu no Rangers. Ao “seu lado”, Barry Ferguson chegou a ser nomeado melhor jogador na Escócia (prémio atribuído pelos jornalistas) e “Gio” ficou em segundo nessa votação, precisamente no ano em que conquistou o seu primeiro campeonato profissional (o início do bi). Depois de se evidenciar em bom plano na Liga dos Campeões, van Bronckhorst teve uma quebra fatídica em 2000/01, quando se lesionou gravemente e praticamente não participou na mecânica de Advocaat - ainda conseguiu apontar um bom golo no Louis II, frente ao Mónaco. Os novos holandeses Konterman, Ricksen e Ronald de Boer, bem como Tore Andre Flo, mal puderam conciliar o seu futebol com van Bronckorst.
O camisola 8 do Rangers usava amiúde o bom remate de meia-distância naquela zona central do meio-campo ofensivo e também sabia desmarcar-se para o lado esquerdo, pisando, obviamente, terrenos que já conhecia. Nesse aspecto, Albertz permutava de forma interessante com ele. No entanto, também não nos esqueçamos que, mesmo não tendo o coração de Barry Ferguson, van Bronckhorst ritmava o jogo ofensivo da equipa com poucos toques, tendo, também, a consciência defensiva para servir de tampão das saídas do adversário para o ataque.
Como referimos em cima, não era um jogador com uma tremenda apetência para o drible. Tinha uma boa velocidade, mas nenhum "extra" para ser um jogador de quem se pudesse dizer que “partia tudo!” no lugar de extremo. Por exemplo, o Zenden do PSV já era alguém que mostrava mais qualquer coisa naquela posição específica de ponta-esquerdo. Van Bronckhorst conferia, essencialmente, equilíbrio por onde quer que passasse.
Calvário que calhou por bemA saída do Rangers teve um sabor um pouco amargo, na medida em que nunca mais foi dono de uma equipa. O facto de ter passado a ser entendido como lateral-esquerdo é um motivo que não pode ser dissociado dessa ideia de falta de influência. Foi contratado pelo Arsenal no Verão de 2001, por cerca de 12M de euros. O passe tinha inflacionado e muito devido aos entusiasmantes desempenhos realizados como distribuidor nos dois primeiros anos em Ibrox. Arsène Wenger queria que ele se estabelecesse no conjunto londrino ao lado de Patrick Vieira (após saída de Emmanuel Petit) e disputou o holandês com vários clubes, entre eles o Chelsea que tinha em van Bronckhorst a absoluta prioridade do mercado. Como o Arsenal acenou com mais dinheiro, os de Stamford Bridge acabaram por se virar para Frank Lampard do West Ham… Porém, uma nova lesão grave voltou a atirar “Gio” para fora de combate e acabaria por perder o lugar de titular para Gilberto Silva que ingressou em 2002. A solução passaria por alinhar como lateral-esquerdo, mas aí estava Ashley Cole a querer afirmar-se.
Em Highbury, van Bronckhorst não passou de um suplente utilizado e, em 2003/04, foi emprestado ao Barcelona. Trabalhou outra vez com um técnico holandês, Frank Rijkaard, de quem já tinha contactos por via do Euro 2000 (capítulo abaixo) e tudo se conjugou para fazer parte da reconstrução de uma grande equipa que Joan Laporta queria concretizar. Com exibições bastante produtivas e algumas delas arrasadoras, Van Bronckhorst convenceu todos os responsáveis catalães e foi contratado por 3 épocas ao Arsenal. Tem, actualmente, 31 anos e durante a presente temporada começou como titular, não deixando, porém, de denotar algumas fragilidades no plano mental. O também ex-Arsenal Sylvinho tem sido o preferido por Rijkaard ultimamente.
A selecção holandesaNa “Orange”, van Bronckhorst foi sempre entendido como lateral-esquerdo. Enquanto no France 98 (seleccionador era Guus Hiddink) foi suplente de Arthur Numan (seu companheiro no Rangers), no Euro 2000, disputado em casa, a experiência correu de forma diferente. Bosvelt (direita) e van Bronckhorst foram as preferências para as defesas laterais, com Stam e Frank de Boer no centro. Konterman (centro), Reiziger (direita) e Numan (esquerda) surgiram em segundo plano.
Foi pena que esse trajecto que parecia favorável não tenha tido continuidade no Mundial de 2002, uma vez que a Holanda não conseguiu o apuramento para a Coreia do Sul/Japão. No Euro 2004, em Portugal, foi titular em todos os 5 jogos disputados, tal como Stam no centro da defesa a quatro elaborada por Dick Advocaat. Este último estava novamente a orientar “Gio”, mas desta vez sem lhe dar o papel de playmaker como fez no Rangers. Bouma/Frank de Boer (centro) e Heitinga/Reiziger foram os outros parceiros da defesa. Mais recentemente, van Bronckhorst, também fruto da excelente campanha que o Barça tem realizado, tem sido um dos indiscutíveis do 4-3-3 de van Basten na Selecção holandesa, mas só falta o seleccionador definir bem um quarteto titular de entre Opdam, Vlaar, Mathijsen, de Jong, Heitinga, Boulahrouz (só no centro).