B.I.
Giacinto Facchetti
Faleceu esta semana um dos maiores símbolos do calcio. Ao longo das décadas de 60 e 70, Giacinto Facchetti (nascido a 18 de Julho de 1942) jogou 18 anos na Inter, clube ao qual presidia actualmente com dignidade e classe ímpares. 'Cipe' conquistou os mais importantes troféus para Angelo Moratti e esteve ainda envolvido no período de renascença dos Azzurri que foram campeões europeus em 1968, confirmando todo o sucesso dos clubes italianos nas competições europeias dessa década. Contudo, a esfera de Facchetti na história do futebol internacional abrange algo mais do que a largueza dos títulos. Facchetti terá sido, provavelmente, a unidade mais dinamizadora, inovadora, consagrada e ao mesmo tempo subversiva do sistema táctico aplicado pelo argentino Helenio Herrera nos anos 60 - o catenaccio adaptado de Karl Rappan *1.
O inovador lateral-esquerdoO alinhamento do bloco de Helenio Herrera tinha elevadas preocupações na marcação individual. O líbero, Picchi, era o jogador que HH queria que iniciasse os ataques a partir do centro, depois de marcar posição nas dobras. No entanto, o maior instrumento ofensivo a partir daquela defesa, onde também se destacava Burgnich, era Facchetti. Este foi desenvolvido por Helenio Herrera na posição de lateral/ala-esquerdo, aproveitando a sua grande velocidade, estatura e potência física para chegar à zona de definição/finalização com propriedade. Apesar de toda a conotação ultra-defensiva, foi o próprio Il Mago que acabou por criar e divulgar esta nova noção do defesa-lateral ofensivo, de envolvimento permanente nas situações de ataque na grande área adversária; Luis Suarez perito no passe a meio-campo, com Sandro Mazzola (filho de Valentino Mazzola, o grande jogador do Torino que faleceu, entre outros, no desastre de avião de Superga) a definir na frente de ataque.
Facchetti representa essa novidade táctica dos anos 60, que teve percursores numa equipa que contrastava imenso com a Inter de HH – o futebol-total do Ajax de Stefan Kovacs (sucessor imediato de Rinus Michels) deu-nos a conhecer Krol (esquerda) e Suurbier (direita), dois laterais super-ofensivos do início da década de 70 que funcionavam praticamente como extremos na fase de posse de bola. Antes, pela altura do Suécia 58, também Djalma Santos (direita) e Nilton Santos (esquerda), do 4-2-4 de Vicente Feola, haviam evidenciado capacidade ofensiva assinalável pelas faixas laterais, mas não com a dimensão táctica destes casos italiano e holandês.
Ainda hoje Facchetti é recordado como o defesa com maior capacidade de integração ofensiva da história do calcio. Marcou sessenta golos em 18 temporadas de Serie A (sem penalties), tendo anotado 10 na época de 1965/6 - o lateral-esquerdo do Milan, Maldera, esteve perto de igualar a marca do defesa com mais golos, com 9, em 1978/9.
Facchetti já era um jogador muito ofensivo antes de Herrera o ter transformado em defesa/ala-esquerdo. Para provar a teoria de que Facchetti não seria tão bom na posição-base de avançado-centro, Il Mago deixou-o actuar uma partida como avançado-centro, para que este se apercebesse que obtinha muito melhores desempenhos no ataque se surgisse através das linhas mais recuadas, em roturas rápidas. Hoje, esta ideia pode parecer banal, mas na época era algo de muito inovador e nem todos os treinadores demonstravam a melhor aceitação.
Inter: as finais ganhas e as finais perdidasFacchetti está intrinsecamente ligado aos maiores sucessos da história da Inter. Além dos quatro scudetti (1962/3; 1964/5; 1965/6; 1970/1), sagrou-se campeão europeu em dois anos consecutivos (1963/4 e 1964/5), sendo a primeira dessas finais ganha ao Real Madrid, no Prater de Viena, com dois golos de Mazzola (3-1). Já em 1965, o Benfica foi o clube derrotado na final, disputada no Giuseppe Meazza (foto) – golo de Jair, contando com o frango de Costa Pereira. Na polémica meia-final frente ao Liverpool (devido a alegados subornos e manipulação de resultados), Facchetti marcou um dos seus grandes golos da carreira com um bom remate de pé direito. Na verdade, embora tocasse bem a bola com o pé esquerdo, ele era destro.
Sempre com Herrera no comando técnico, a Inter veio ainda a perder uma final contra o Celtic de Jock Stein. Na verdade, Stein adaptou um pouco da táctica de Il Mago à sua, usando o lateral Tommy Gemmel com o mesmo tipo de funções que tinha Facchetti na Inter. A pressão constante de resposta ao 1-0 inicial dos nerazzurri resultou em pleno, com Gemmel, curiosamente, a realizar uma partida memorável como defesa/ala-esquerdo e a superar o mito de Facchetti. Ruiu grande parte da muralha idelógica do catenaccio naquele 25 de Maio de 1967 no Estádio do Jamor.
A outra final perdida por Facchetti foi em 1971/2, frente ao Ajax treinado por Kovacs. Em Roterdão, Cruijff bisou e derrotou a Inter, já orientado por Invernizzi. Recorde-se que a Inter de Facchetti conquistou igualmente duas Intercontinentais, naturalmente nos anos de 64 e 65. Ambas frente aos argentinos do Independiente.
Squadra Azzurra: a glória europeia de 1968A vitória final no Europeu de 1968 foi o regresso da Itália aos grandes triunfos internacionais. A última vez que a Itália tinha conquistado um título tinha sido o Mundial de 1938, frente à Hungria, em França, sob orientação de Vittorio Pozzo (aplicava o Método = 2-3-2-3, com dois elementos na transição/definição atacante como Ferrari e o capitão Meazza, servindo o goleador Piola).
Um dos pontos mais negativos da carreira de Facchetti foi, sem qualquer dúvida, a terrível eliminação prematura no Inglaterra 66, aos pés dos rápidos e surpreendentes norte-coreanos - a maior humilhação da história da Azzurra. A Itália, então orientada por Edmondo Fabbri, perdeu esse encontro por 1-0, com o golo de Pak Doo-Ik.
Dois anos depois, em 1968, a Itália "organizava" o Europeu e a obrigação de fazer boa figura era ainda mais acrescida depois do episódio norte-coreano do Ayresome, em Middlesbrough. Num figurino bastante peculiar, com fase de qualificação e entrada directa para as meias-finais, a Itália acabou por vencer a competição. Nos “quartos”, perderam em Sófia, mas acabaram por bater os búlgaros na 2.ª mão, por 2-0 em Nápoles. Curiosamente, nas meias-finais, os italianos só ultrapassaram a União Soviética pelo sistema de desempate de moeda-ao-ar, após um 0-0 novamente no San Paolo, à boca do Vesúvio, em Nápoles.
Giacinto Facchetti foi, precisamente, o “afortunado” capitão que escolheu a face da moeda e que permitiu à Azzurra alcançar a final. Contra a Jugoslávia, no Olímpico de Roma, a Itália empatou a 1-1 e no jogo de repetição acabou por vencer por 2-0. O grande Luigi Riva foi o melhor marcador da prova (incluindo a fase de qualificação) com sete golos apontados, enquanto Dino Zoff, então no Nápoles, mereceu a confiança de Ferruccio Valcareggi (o keeper Albertosi regressaria no Mundial de 70). Facchetti ergueu, assim, em Roma, o Henri Delaunay, trinta anos depois do Mundial conquistado em França. Foi o grande troféu de Cipe.
Squadra Azzurra: a final do México e outras desilusõesNo México 70, Facchetti voltou a capitanear a selecção e foi finalista. Quatro dias depois de uma meia-final espectacular frente à RFA (4-3 após prolongamento; considerado um dos melhores jogos do século XX), a Itália perdeu a final do Azteca frente à intratável máquina brasileira de Mário Zagallo. Pelé, Jairzinho, Gerson e Tostão não deram hipóteses a uma desorientada e cansada selecção italiana.
Facchetti, então com 31 anos, participou ainda no Mundial de 1974, na Alemanha Federal, com Zoff, Burgnich, Capello, Rivera, Mazzola. Dois anos depois, fez parte da desilusão no Europeu de 1976 e disse a Enzo Bearzot que era preferível não convocá-lo para o Argentina 78, devido à menor resposta física (idade e lesões). Retirou-se aos 36. Na sua linha de sucessão, surgiu Cabrini e mais tarde o contemporâneo Maldini. Durante os anos 70, Facchetti jogou várias vezes como líbero na Inter.
Uma expulsão na carreiraO elegante Facchetti (de 1.88m) emprestou imensa lealdade ao futebol e o facto de apenas ter sido expulso uma vez em toda a carreira (consta que por aplaudir o árbitro com ironia) significa muito. Foi internacional por 94 ocasiões, capitão em 70 delas. Tinha 18 anos quando se estreou na Serie A (Inter v Roma) e 21 quando jogou pela primeira vez com a camisola da Squadra Azzurra (frente à Turquia). Um jogador para recordar eternamente. Por todos os motivos.
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1 - Karl Rappan é o primeiro grande divulgador da génese do catenaccio. Natural da Áustria, jogou e treinou durante anos na Suíça. E foi mesmo orientando a selecção helvética que, no Mundial de 1938, bateu surpreendentemente a Alemanha. A receita baseou-se num abaixamento tremendo das linhas defensivas e nas saídas inteligentes em contra-ataque. A criação do conceito de líbero foi outra marca de Rappan, mas que não passou da utilização de um jogador fixo (Minelli) atrás da linha mais definida de defesas. Função primordial: limpar tudo o que aparecesse à frente. Esse protótipo de líbero não mostrava, porém, a propensão ofensiva que, por exemplo, Beckenbauer viria a demonstrar, de forma pioneira, anos mais tarde. De qualquer modo, este foi um dos importantes princípios que Helenio Herrera veio a adaptar no ferrolho da Inter, sendo Armando Picchi o intérprete dessa posição imediatamente à frente de Sarti, o guarda-redes.. Em Itália, o catenaccio teve a sua primeira expressão em Itália com Nereo Rocco (campeão europeu pelo Milan em 1963 e 1969), nos anos 50 quando treinou o Padova, e também com Alfredo Foni, na Inter.
Luís Catarino
» 2006-09-07