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B.I.

Faas Wilkes



Imagem de marca de Wilkes: os adversários no chão


“Na sua época não havia ninguém com tanta habilidade e rapidez”, assegura Vicente Piquer, antigo jogador do Valencia nas décadas de 50 e 60, quando convidado a falar sobre o tal driblador que Johan Cruijff idolatrou em criança. Nunca foi campeão nacional, nunca representou a sua selecção numa fase final de um Mundial ou de um Europeu, mas não deixa de ser uma figura importante nos registos do futebol internacional: Faas Wilkes, mais conhecido na Holanda como “Mona Lisa de Roterdão”.

Saída para o estrangeiro desfigurou o trio dourado


Faas Wilkes aprendeu a jogar nas ruas de Roterdão e, nos finais da década de 40, era já um dos melhores jogadores holandeses. Em conjunto com Kees Rijvers e Abe Lenstra, formava o designado Gouden Binnentrio da selecção nacional. No entanto, esse “trio de ouro” nem sequer esteve junto em muitos ocasiões. Por uma razão: na Holanda, o futebol ainda não era uma modalidade profissional. Isso implicava que a selecção nacional fosse apenas composta por jogadores amadores, que estivessem no próprio país. Ora, Wilkes, ambicionando uma carreira mais enriquecida, rumou a Itália em 1949. O elegante craque, porventura a figura em maior destaque daquela altura no meio do razoável futebol holandês e que ganhava cada vez mais reconhecimento individual, acabou por ficar seis anos sem vestir a camisola da selecção, regressando em 1955, quando jogava no Valencia. Como, se ainda actuava no estrangeiro? Embora de forma tímida na fase inicial, a federação holandesa de futebol, concluindo que não podia permanecer muito mais tempo sem promover mecanismos que desenvolvessem o futebol no país, aderira ao profissionalismo em 1954, criando uma campeonato de clubes com moldes distintos dos das anteriores edições (amadoras) e estabelecendo novas regras na aceitação dos jogadores convocados para a selecção 1.


1: Não havia problema em relação a Abe Lenstra, que permaneceu no Heerenveen – o clube da região da Frísia tem actualmente o estádio com o seu nome -, mas Wilkes e Rijvers, que emigrara para França (St. Étienne, em 1950), tinham agora condições para voltar a impulsionar a Oranje. Rijvers, porém, nunca o fez enquanto jogou em França. Só quando assinou pelo Feyenoord, em 1957.


O novo craque solista

A última vez que a Inter tinha sido campeã de Itália havia sido em 1939-40, ainda com a anterior designação: “Ambrosiana”. O presidente dos nerazzurri, Carlo Rinaldo Masseroni, antecessor de Angelo Moratti, estava disposto a reforçar o plantel a fim de lutar pelo título e contratou dois craques estrangeiros. O primeiro foi o franco-húngaro István Nyers (1948), o outro foi, precisamente, Faas Wilkes. A espectacularidade das fintas e a abundância de golos marcados por Wilkes conquistou facilmente o público italiano. Com Nyers, com o irreverente Benito Lorenzi, com o ala tornante Luigi Armano 1 e, mais tarde, com o esquerdino sueco Lennart Skoglund, que substituiu Amedeo Amadei 2, o holandês constituiu um quinteto ofensivo de grande nível. Contudo, apesar do entusiasmo provocado nos tifosi, Wilkes nunca conseguiu ser campeão enquanto esteve na Inter, então comandada por Giulio Cappelli e depois por Aldo Olivieri. Os milaneses, já com Alfredo Foni a treinador 3, viriam a conquistar o primeiro scudetto pós II Grande Guerra na temporada 1952/53, quando o Olandese Volante 4 já se tinha transferido para o Torino, apostado em reconstruir um plantel arrasado pelo trágico acidente aéreo de Superga em 1949 5. Problemas num joelho não o deixaram actuar com a regularidade desejada em Turim.




1: Luigi Armano era o extremo da Inter que desempenhava funções específicas e inovadoras no seu flanco, defendendo e atacando com igual intensidade. Daí a designação de ala tornante, que subia e descia com frequência. Viria a ser uma das peças marcantes da Inter com o modelo táctico mais cauteloso instaurado por Alfredo Foni.
2 Tendo em conta que Francesco Totti é um mezzapunta, Amedeo Amadei é, ainda hoje, considerado o melhor avançado-centro da história da Roma, onde ganhou a alcunha de “Oitavo Rei" dos giallorossi.
3: Alfredo Foni foi o treinador que levou a Inter à conquista dos dois scudetti consecutivos nas temporadas 1952/53 e 1953/54 e é o verdadeiro pioneiro do catenaccio na história dos nerazzurri, desenvolvendo modelos tácticos de traço defensivo adaptados da selecção suíça, mais rigorosos, cautelosos e prudentes do que aquilo que era habitual no clube milanês. Os números são relativamente elucidativos quanto a esse aspecto: em 1952/53, a Inter campeã marcou 46 golos e sofreu 24 em 34 jornadas. Nas épocas anteriores a Foni, em 1949/50, o registo de golos foi de 99-60 em 38 jornadas (3.º lugar), em 1950/51 foi de 107-43 em 38 jornadas (2.º lugar) e, finalmente, em 1951/52 foi de 86-49 em 38 jornadas (3.º lugar). Foni era muitas vezes criticado pela estilo pouco entusiasmante das suas equipas, mas foi ele quem trouxe o primeiro título de campeão para a Inter após 13 anos.
4: Holandês voador.
5: Superga é a localidade do norte de Itália onde se deu o desastre aéreo que dizimou o plantel do Torino, a 4 de Maio de 1949. Tendo em conta a interrupção oficial de dois anos no campeonato italiano devido à II Grande Guerra, o Torino era pentacampeão italiano (títulos em 1942/43, 45/46, 46/47, 47/48 e 48/49).


“Quantos vagões de laranjas queres por ele?”


Num desses dias em que não esteve impossibilitado de jogar, Wilkes viajou com a equipa do Torino até Valência, para disputar uma partida de homenagem a Antonio Puchades, em Junho de 1953. O holandês exibiu-se ao seu estilo, magnetizante, e o presidente da federação valenciana não perdeu tempo: “Quantos vagões de laranjas queres por ele?”, perguntou a um dirigente do Torino que estava sentado ao seu lado na tribuna. Essa primeira abordagem pode parecer uma brincadeira, mas acabou mesmo por ser o início do acordo que ambas as partes viriam a celebrar para a transferência do craque para a formação ché.


Faas Wilkes driblando com a camisola do Valencia.


Todos sabiam que não era dos jogadores mais lutadores e essa fama de ser pouco esforçado até já vinha de Itália. Porém, toda a gente tinha a noção de que ele podia decidir uma partida com um lance individual, pois era quase imbatível no drible. “Não vi ninguém driblar como ele, nem mesmo (Omar) Sívori 1 tinha aquela capacidade de drible (…) a forma como o fazia era absolutamente espectacular”, reforça Candido Cannavò, jornalista italiano.

A primeira temporada em Espanha foi bastante produtiva, tanto que se dizia que, com Wilkes em campo, o Valencia já entrava em campo com um golo de vantagem - os chés ficariam atrás de Real Madrid e Barcelona na tabela final do campeonato 1953/54. Wilkes, já com 30 anos de idade, marcou 18 golos na sua primeira época e foi apenas ultrapassado pelas estrelas Alfredo Di Stéfano (o seu ano de estreia no Real) e Laszlo Kubala 2 na lista dos melhores marcadores. Há uma história que, aliás, envolve Kubala e Wilkes. Num jogo contra o Barcelona, Wilkes, depois de ter driblado Biosca e Segarra, apercebeu-se que Kubala corria na sua direcção para tentar ganhar a bola em carrinho. Com a rapidez do costume, o holandês adiantou a bola, deixando Kubala a deslizar pelo chão. Conformado e siderado com o brilhantismo da jogada, Kubala levantou-se, dirigiu-se a Wilkes e congratulou-o com um aperto de mão.


1: Esquerdino argentino de cariz técnico e de baixa estatura, Omar Sívori foi eleito Bola d’Ouro pela France Football em 1961, representando a Juventus.

2: Laszlo Kubala, nascido em Budapeste, é o segundo melhor marcador da história do Barcelona na liga espanhola, com 131 golos em 186 jogos entre 1951 e 1961. Nunca foi Pichichi.


O ídolo de Cruijff

Não será muito difícil perceber por que razão Johan Cruijff o tinha como ídolo em infância. A espectacularidade que Wilkes trouxe ao jogo com mudanças bruscas de velocidade, bola colada ao pé e irrepreensíveis fintas de corpo que cravavam os defesas adversários no relvado foi algo de sensacional, principalmente para quem vivia na Holanda com a esperança de notar algum crescimento qualitativo na modalidade.


Wilkes e Cruijff (foto de Agosto de 2004)


A capacidade de drible era, indiscutivelmente, o seu ponto mais forte, ainda que também fosse lembrado como um óptimo colega de balneário. Por todos os locais por onde passou, essas características eram facilmente reconhecidas.

Antonio Fuertes, antigo jogador do Valencia que conviveu com Wilkes, comprovava a tese de que o holandês não era dos jogadores mais trabalhadores. Afirmava que não podiam pedir-lhe que se desmarcasse para receber um passe no espaço vazio, que não iria correr atrás da bola. Para Wilkes, a bola tinha que ser dada no pé, mas também não era isso que constituía problema para a equipa. “Era suficiente”, sublinhava Fuertes, admirando a especial apetência de Wilkes para decidir jogos com lances individuais, em que podia ir de um lado ao outro do campo a driblar toda a gente.

“Não dobrava o corpo, nem as pernas. Para mim, era o melhor e mais elegante driblador do mundo”, frisava ainda Fuertes em relação ao craque de 1.90m que parecia fazer tabelas consigo mesmo, tamanha era a velocidade com que tocava a bola com os dois pés e se libertava dos defesas. Nunca ganhou um título de campeão, mas o que importa isso comparando com o facto de ter deixado tão boas memórias no seu país, em Milão, em Valência e de ter sido uma referência para Johan Cruijff?


Luís Catarino

» 2008-12-31
Nome: Servaas 'Faas' Wilkes Laarts

Data de nascimento: 13 de Outubro de 1923

Local de nascimento: Roterdão, na Holanda

Posição: Interior (Avançado)

Clubes:
1940/41: Xerxes
1941/42: Xerxes
1942/43: Xerxes
1943/44: Xerxes
1944/45: Xerxes
1945/46: Xerxes
1946/47: Xerxes
1947/48: Xerxes
1948/49: Xerxes
1949/50: Inter (ITA)
1950/51: Inter (ITA)
1951/52: Inter (ITA)
1952/53: Torino (ITA)
1953/54: Valencia (ESP)
1954/55: Valencia (ESP)
1955/56: Valencia (ESP)
1956/57: VVV Venlo
1957/58: VVV Venlo
1958/59: Levante (ESP)
1959/60: Fortuna 54
1960/61: Fortuna 54
1961/62: Fortuna 54
1962/63: Xerxes
1963/64: Xerxes

Internacionalizações/Golos: 38/35

Notas:

- Estreou-se pela selecção holandesa no período pós II Grande Guerra, a 10 de Março de 1946, ante o Luxemburgo. Tinha, então, 22 anos e apontou quatro golos nessa vitória por 6-2.

- Participou nos Jogos Olímpicos de 1948, no Reino Unido. A Holanda fez apenas dois jogos na competição, tendo vencido a República da Irlanda por 3-1 (dois golos de Wilkes) e perdido por 3-4 no prolongamento contra a Grã-Bretanha (um golo).

- Enquanto jogador da Inter, fez parte da equipa inicial que bateu o Milan no emocionante Derby della Madonnina de 6 de Novembro de 1949, com a sociedade sueca "GreNoLi" do lado rossonero (Gren, Nordahl e Liedholm). 6-5 foi o resultado final.

- Na primeira época em Milão (1949/50), marcou 17 golos em 34 jogos efectuados na liga italiana. Em 1950/51, melhorou a marca, tendo anotado 23 golos em 38 jornadas – foi o único nerazzurro dessa temporada a alinhar em todas as jornadas. Terminaram em 2.º lugar, apenas a 1 ponto do campeão, Milan. Na terceira e última época na Inter, marcou 7 golos em 23 jogos.

- Na época de estreia no Valencia, contribuiu para aquela que, até hoje, é a maior goleada conseguida pelos chés na liga espanhola. A 29 de Novembro de 1953, o Valencia bateu o Sporting de Gijón por 8-0 e Wilkes marcou dois golos. O Valencia foi terceiro classificado atrás de Real Madrid e Barcelona e também Wilkes (18 golos) ficou atrás de Di Stéfano (29) e de Kubala (23) na lista do Pichichi.

- O Valencia venceu a Taça do Generalissimo (hoje Taça do Rei) em 1953/54, já com Wilkes no plantel. Porém, uma vez que o regulamento da competição não permitia a utilização de estrangeiros, o holandês não participou no triunfo ché. Na final, disputada em Chamartín, os valencianos bateram o Barcelona por 3-0 e a taça foi entregue por Francisco Franco.

- Em 1958, juntou-se ao Levante. Vinte e três anos mais tarde, também Johan Cruijff jogaria por esse clube espanhol.

- Faleceu com 82 anos, em Roterdão.
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