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Duncan Edwards


Ainda hoje o seu nome é lembrado com grande admiração em Inglaterra, especialmente em Old Trafford. Foi figura-chave da equipa do Manchester United engendrada por Matt Busby, mas um trágico acidente de avião em Munique tirou-lhe a vida com apenas 21 anos. Quem o viu jogar naquela década de 50 dizia que era o jogador mais completo que podia haver. Não adianta fazer grandes conjeturas sobre aquilo que teria sido o palmarés do Man.Utd e da seleção inglesa caso o desastre de Munique não tivesse acontecido. É possível que os Red Devils até tivessem sido campeões europeus logo nos finais da década de 50. E sim, é possível que a Inglaterra fosse mais forte nos Mundiais de 58 e de 62. Mas deixemos agora de lado todas essas hipóteses e falemos daquilo que realmente valia Duncan Edwards, uma autêntica lenda do futebol inglês.


Os “Busby Babes”

Quando Matt Busby assumiu o comando técnico do Manchester United em meados da década de 40, iniciou um plano de desenvolvimento dos escalões de formação do clube. Contando com a colaboração de Jimmy Murphy, assistente de Busby e homem mais próximo das camadas jovens, o Man.Utd tornou-se um dos clubes verdadeiramente pioneiros em matéria de formação de talentos. A rede de olheiros do clube alastrava pelo Reino Unido, o desenvolvimento dos jovens craques era feito com empenho e não foi por acaso que os Red Devils venceram as primeiras cinco edições da FA Youth Cup (entre 1953 e 1957).

A expressão “Busby Babes” deriva de um título do Manchester Evening News de Novembro de 1951, altura em que os jovens Roger Byrne (futuro capitão e um dos mais carismáticos jogadores da equipa) e Jackie Blanchflower foram lançados pelo técnico escocês. A partir daqui, foram sucessivos os rapazes “atirados às feras” e o conceito inovador de Busby parecia ter cada vez maior aceitação, tanto que o Man.Utd foi bi-campeão inglês (1956 e 19571) tendo uma média de idades a rondar os 21/22 anos e exibindo um estilo de jogo bastante atrativo.


1  Em 1956, foram campeões nacionais com 11 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Blackpool, igualando a margem-recorde que tinha sido estabelecida pelo Preston North End em 1889. Já em 1957, o segundo classificado foi o Tottenham, que terminou a época 8 pontos atrás do Man.Utd.


“O único jogador que me fez sentir inferior”

Nesta equipa, claro está, já brilhava Duncan Edwards, o vigoroso camisola 6 com peito de aço e pernas como troncos de carvalho. Edwards estreara-se pelos seniores do MU com 16 anos e também não demorou muito até consagrar-se como uma influente figura da seleção inglesa, na qual se estreou com 18 anos – durante os 43 anos seguintes foi o mais jovem a vestir a camisola dos Três Leões. Extremamente possante, disponível, destemido e com uma força inacreditável para dominar as incidências, Edwards era o verdadeiro modelo de inspiração para todos os colegas. Bobby Charlton, seu companheiro em Old Trafford, ainda hoje defende: “Edwards foi o único jogador que me fez sentir inferior”. “De certa maneira, ele foi o meu primeiro herói. Se ele podia fazer passes de 50/60 metros com o pé esquerdo ou direito, jogar pelo chão ou pelo ar, eu tinha de o tentar acompanhar. Aprendi muito com ele, provavelmente mais do que qualquer outro jogador”, reforça Charlton, nascido um ano depois de Edwards.



Dono de um incrível potencial físico, Edwards era também muito rápido, ágil e determinado. Dizia-se, numa fase inicial, que se precipitava um pouco no momento de fazer passes longos. Esse foi um detalhe rapidamente corrigido pelos técnicos e a verdade é que Edwards era comummente reconhecido por ser um jogador sem pontos fracos. Pensava e fazia tudo bem. Não deixou de marcar uma curta era do futebol inglês, mas o seu protagonismo poderia ter sido muitíssimo maior, sobretudo tendo em vista a década de 60.


A tragédia de Munique (6 de Fevereiro de 1958)


O dia 6 de Fevereiro de 1958 mudou a história do Manchester United. Os Red Devils, sempre manifestando aquele desejo secreto de superar o Real Madrid e vencer a Taça dos Campeões Europeus, regressavam de Belgrado, onde tinham defrontado o Estrela Vermelha e consequentemente garantido a passagem às meias-finais da edição 1957/58.

O avião aterrou em Munique para reabastecer, mas o problema surgiu na fase de descolagem. À terceira tentativa, o aparelho ganhou velocidade na pista, mas não a suficiente para levantar voo, também devido à neve. Passou a vedação do aeroporto e chocou contra uma casa. Vinte e um dos quarenta e quatro passageiros sobreviveram, entre os quais Matt Busby (ainda que com lesões graves), Ray Wood, Bill Foulkes, Dennis Viollet, Bobby Charlton e também Johnny Berry e Jackie Blanchflower, apesar de ambos nunca mais terem voltado a jogar.

Além de dois elementos da equipa técnica, morreram instantaneamente sete jogadores: Roger Byrne (28 anos), Geoff Bent (25), Mark Jones (24), Eddie Colman (21), David Pegg (22), Liam Whelan (22) e Tommy Taylor (26).

No hospital de Munique, o bravo Duncan Edwards, 21 anos, foi lutando contra os ferimentos e, num momento em que estava semi-consciente, até chegou a perguntar a Jimmy Murphy: “A que horas é o jogo com os Wolves? Não posso falhar esse” 2. Edwards acabou por não resistir e faleceu quinze dias depois do acidente.


2  O assistente Jimmy Murphy não viajou com o Man.Utd naquela noite de 6 de Fevereiro porque estava com a sua seleção do País de Gales. Só mais tarde é que se deslocou a Munique. A referência de Edwards ao jogo com o Wolves deve-se ao facto de esse ser o adversário que os Red Devils iriam defrontar a seguir ao jogo de Belgrado. O Man.Utd ainda tinha esperanças na conquista do tri-campeonato inglês, embora existisse uma desvantagem de quatro pontos para o líder, que era precisamente o Wolves.


O diagrama mostra a equipa que começou a final da Taça de Inglaterra, frente ao Aston Villa, em Maio de 1957. Devido a uma lesão prematura do guarda-redes Ray Wood, e perante a inexistência de substituições, o defesa-central Jackie Blanchflower foi para a baliza e Duncan Edwards recuou para a defesa. Essa polivalência era, aliás, uma das particularidades de Edwards. O seu poder físico, resistência, velocidade e controlo de bola permitiam-lhe desempenhar com eficácia várias posições, da defesa ao ataque.





Querer dominar a Europa


Perante a anterior recusa do Chelsea, o Manchester United foi, em 1956/57, a primeira equipa inglesa a participar nas competições da UEFA, mais concretamente na Taça dos Campeões Europeus (criada um ano antes). Anderlecht (12-0 nas duas mãos), Borussia Dortmund (3-2) e Athletic Bilbau (6-5) foram as três equipas superadas pelos Red Devils, que não aguentaram a força do Real Madrid nas meias-finais (3-5).

Os “Busby Babes” começavam, agora, a ganhar uma ainda maior maturidade competitiva e não deixava de ser entusiasmante ver como este conjunto de jovens e audazes jogadores sentia que podia dominar a Europa. Na época seguinte, 1957/58, Shamrock Rovers (9-2), Dukla Praga (3-1) e Estrela Vermelha (5-4) foram os adversários eliminados pelo Man.Utd. Depois, no regresso da segunda mão em Belgrado, deu-se o trágico acidente e as meias-finais com o Milan já não faziam o mesmo sentido.

Talvez uma ligeira compensação tenha surgido dez anos depois, com a conquista da Taça dos Campeões Europeus. Matt Busby, recuperado do acidente, já tinha voltado ao banco e comandou a vitória frente ao Benfica em 1967/68. George Best e Denis Law eram duas das principais caras desta nova geração do Man.Utd, onde ainda figuravam dois sobreviventes do acidente de Munique: Bill Foulkes e Bobby Charlton. É natural que para estes dois jogadores o sabor do título europeu tenha sido diferente.


“Deem-na ao Duncan”

Um dos episódios que melhor ilustra a influência e a capacidade de Duncan Edwards teve lugar num desafio em Stamford Bridge, entre Manchester United e Chelsea, quando o craque ainda ia participando na FA Youth Cup. Jimmy Murphy, principal coordenador das camadas jovens do clube, deu a palestra antes do jogo: “Rapazes, isto é um jogo de equipa. Tentem não passar logo a bola ao Duncan. Libertem-se, procurem outras opções”.

Ao intervalo, o Man.Utd perdia por 1-0 e Murphy não foi de modas. “Pessoal, lembram-se daquilo que vos disse antes do jogo? Bom, esqueçam isso tudo. Quando tiverem a bola, deem-na ao Duncan.” O Manchester virou o resultado e venceu por 1-2. Adivinhem quem marcou os dois golos dos Red Devils…


Luís Catarino

» 2009-07-26
Nome: Duncan Edwards

DN: 1 de Outubro de 1936

LN: Dudley, Inglaterra

Posição: Médio

Clubes:

1952/53: Man.Utd
1953/54: Man.Utd
1954/55: Man.Utd
1955/56: Man.Utd
1956/57: Man.Utd
1957/58: Man.Utd

Internacionalizações/Golos: 18/5

Notas:

- Chegou a Manchester no dia 2 de Junho de 1952.

- Estreia pelos seniores do MU a 4 de Abril de 1953, com 16 anos.

- Aos 18 anos, tornou-se o mais jovem futebolista a representar a seleção principal inglesa, honra que durou quase todo o século XX - só em Fevereiro de 1998 Michael Owen lhe tirou esse "título". A estreia de Edwards aconteceu no dia 2 de Abril de 1955 e a Inglaterra venceu a Escócia por 7-2. Na mesma equipa constava o "Feiticeiro do Drible", o já quarentão Stanley Matthews.

- Ganhou a alcunha de "Boom Boom", atribuída pelos jornais alemães. A Inglaterra defrontou a RFA, em Berlim, a Maio de 1956, e Edwards fez um golo em que exibiu todo o seu poder físico, velocidade e técnica, partindo de trás, ultrapassando os marcadores e concluindo em força. Os ingleses venceram os campeões mundiais por 1-3 e Edwards foi o jogador em maior destaque.

- Campeão inglês em 1956 e 1957. Finalista vencido da Taça de Inglaterra de 1957.

- Vencedor da FA Youth Cup em 1953, 1954 e 1955.

- Faleceu num hospital de Munique, a 21 de Fevereiro de 1958, quinze dias depois do acidente de avião que lhe provocou ferimentos muito graves. Tinha 21 anos.
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