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Alan Shearer


A carreira de Alan Shearer é a prova de que a grandeza de um jogador não depende necessariamente da quantidade de títulos conquistados. Apesar de ter ganho uma edição da Premier League – pelo Blackburn Rovers (em 1994/5) – a verdade é que, em dez anos com a camisola do Newcastle, Shearer não venceu um único título pelos Geordies; e muito menos pela selecção inglesa. Uma lesão grave contraída em Abril de 2006 – no derby do North-East frente ao Sunderland – precipitou o abandono dos relvados, mas o ponta-de-lança já havia registado a sua marca de forma indelével na história do futebol inglês. Afinal de contas, tornara-se no maior goleador de sempre da Premier League com 260 golos apontados em 441 jogos e foi capitão da selecção inglesa durante 31 partidas.


Viajar para o sul para limpar botas e cuidar do equipamento

Não tendo conseguido entrar para o clube do coração, o Newcastle, Alan rumou para Southampton, clube pelo qual viria a estrear-se na principal divisão inglesa. Numa entrevista concedida no ano passado à BBC, Shearer recordou que o período inicial que viveu no Southampton fora difícil, mas extremamente positivo no que diz respeito à aprendizagem de ética e valores. “Sempre nos foram dadas muitas responsabilidades, como limpar as botas, ou cuidar do equipamento e do balneário. Na altura lembro-me que foi difícil, mas, hoje, olhando para trás, tenho a consciência que me tornou mais forte. Os jovens futebolistas da actualidade têm muitas facilidades e, se calhar, deviam ganhar mais sentido de responsabilidade”, sublinhou Alan Shearer, que, recorde-se, estava a viver muito longe da sua terra natal – a cidade de Southampton fica situada na costa sul de Inglaterra, enquanto Newcastle fica no norte. Alan Shearer resistiu às saudades de Newcastle e viria a ser recompensando com um gratificante hat-trick contra o Arsenal, no seu jogo de estreia como titular pelo Southampton, em Abril de 1988. Shearer tinha 17 anos.


A etapa no Blackburn Rovers

A Premier League teve a sua primeira edição na temporada de 1992/3 e o boom financeiro e organizativo do futebol inglês coincidiu com a transferência de Alan Shearer para o Blackburn Rovers, na altura a mais cara do futebol inglês por uma quantia próxima daquilo que hoje seria o equivalente a 4.7M euros. A fortuna de Jack Walker permitiu ao Rovers, recém-promovido à principal divisão inglesa, assinar contrato com Shearer, já então uma das mais destacadas figuras do campeonato e já internacional pela selecção A. Antes de sofrer uma lesão grave no joelho (em Dezembro de 1992), este ponta-de-lança de 22 anos contava com 16 golos em 21 jogos da Premier League, um registo impressionante para a sua época de estreia no Blackburn.

O Blackburn, orientado pelo escocês Kenny Dalglish – um dos mais gloriosos avançados da história do Liverpool –, terminou a temporada de 1992/3 em 4.º lugar, e o Manchester United, com os golos de Eric Cantona e Mark Hughes, tornou-se no primeiro vencedor da Premier League (13 pontos de vantagem sobre os Rovers).

Na época seguinte, em 1993/4, Alan Shearer teve um desempenho extraordinário e apontou 31 golos em 40 jogos do campeonato. O campeão foi novamente o Man.Utd de Alex Ferguson, mas o Rovers ficou em segundo lugar (a 8 pontos dos Red Devils).

O primeiro título de Alan Shearer surgiu em 1994/5, tendo o ponta-de-lança marcado 34 golos em 42 jogos (só Andy Cole, pelo Newcastle, em 93/4, anotou tantos golos numa época da Premier League). Foi então eleito o melhor jogador do ano pela PFA (Professional Footballers’ Association). O Blackburn sagrou-se campeão na última jornada, pois, embora tivessem perdido em Anfield com o Liverpool, beneficiaram do empate do Manchester United em Upton Park, frente ao West Ham.



Nessa equipa que venceu o campeonato, a dupla de avançados-centro do Blackburn Rovers era constituída por “Shearer and Sutton” (SAS). Chris Sutton havia chegado ao clube nessa mesma época, vindo do Norwich City, e custara um valor agora próximo dos 7M euros, o que traduz bem o investimento de Jack Walker, que entretanto também já contava com outros internacionais-A ingleses, como Graeme Le Saux e David Batty. O último, aliás, efectuou apenas cinco partidas na Premier League dessa temporada devido a uma grave lesão e, por essa razão, o titular ao lado do capitão Tim Sherwood no meio-campo foi Mark Atkins. Destaque ainda para o defesa-direito norueguês, Henning Berg, que é o único jogador a ter vencido a Premier League por dois clubes diferentes (Blackburn Rovers e Manchester United).

A última época de Shearer em Ewood Park (1995/6; Kenny Dalglish passou para director desportivo e Ray Harford para treinador) foi novamente brilhante a nível individual, apesar de o Manchester United ter recuperado o título. Shearer apontou 31 golos (a jogar durante algum tempo com uma hérnia) e tornou-se no primeiro jogador a conseguir marcar 30 ou mais golos durante três temporadas consecutivas da Premier League.

Contudo, a performance na Liga dos Campeões foi bastante fraca. No grupo de Spartak de Moscovo, Legia de Varsóvia e Rosenborg, os ingleses terminaram em último lugar e, talvez pior do que a classificação, deixaram uma péssima imagem à custa do episódio de pugilato em Moscovo, no qual estiveram envolvidos os dois colegas de equipa, David Batty e Graeme Le Saux.


O regresso às origens na mais cara transferência do futebol mundial

No Verão de 1996, Alan Shearer protagonizou a transferência até então mais cara do futebol mundial, ao assinar pelo Newcastle United por uma verba próxima das 15,6M de libras (22M de euros). Mas por que motivo escolheu Shearer o Newcastle? O Manchester United estava disposto a pagar tudo o que tivesse ao seu alcance para ficar com o ponta-de-lança. Porém, Jack Walker, o dono do Blackburn Rovers, não o queria vender aos Red Devils e facilitou o negócio ao Newcastle. “Havia uma diferença considerável entre aquilo que nós oferecemos e aquilo que o Manchester United oferecia”, admitiu o então presidente dos Geordies, Freddy Sheperd, que, apesar da magnífica vantagem que possuía nas negociações, teve de desembolsar os tais 22M de euros.

Shearer tinha, desta forma, a oportunidade de jogar pelo clube que idolatrou deste pequeno e no qual tentou entrar aos 15 anos, antes de ir para Southampton. A festa estrondosa com que os adeptos o receberam em St. James’s Park demonstrou que esta não era uma contratação qualquer. Além de ser o melhor avançado inglês, era alguém que tinha paixão pelo clube e que iria ajudar a encurtar a distância qualitativa para o grande rival da altura, o Manchester United.


A fantástica dupla com Les Ferdinand

Em 1996/7, o treinador do Newcastle era Kevin Keegan, mas o antigo ídolo de Shearer acabou por não ficar muito tempo no comando técnico do clube, tendo sido substituído por Kenny Dalglish (Janeiro de 1997). O escocês, que já havia treinado Shearer em Ewood Park, terminou essa temporada em 2.º lugar – já em 1995/6 os Geordies tinham ficado nessa posição, atrás dos Red Devils. Shearer foi novamente eleito melhor jogador do ano pela PFA, tendo registado 25 golos no campeonato. Segundo o próprio Alan, foi nessa primeira época do Newcastle que contou com um dos melhores parceiros atacantes na sua carreira: Les Ferdinand. Jogaram juntos durante uma só temporada, mas o seu entendimento era perfeito. Na equipa desse ano jogavam também Robert Lee, Philippe Albert, David Ginola e Faustino Asprilla, por exemplo.



Ultrapassar a marca de Jackie Milburn

Após um período de má relação com Ruud Gullit, em 1999/2000 Bobby Robson substituiu o holandês no comando técnico e Alan Shearer voltou a recuperar a confiança para marcar golos. Todavia, o Newcastle começou a perder distância na capacidade de luta pelo título e os golos de Shearer não tiveram muita consequência. Pelo menos ao nível da sua ambição. Graeme Souness, treinador que sucedeu a Robson, acreditava que Alan Shearer sentia alguma frustração pela falta de títulos.

Embora do ponto de vista passional tivesse sido uma decisão extremamente bem tomada, a opção pelo Newcastle comprometeu a montra de troféus de Alan Shearer. Se naquele Verão de 1996 o avançado tivesse assinado pelo Manchester United, o reconhecimento internacional de Shearer teria sido muito maior e hoje não estaríamos a falar de um jogador com apenas uma conquista da Premier League no currículo. De qualquer forma, o facto de ter apontado 206 golos em todas as competições pelo Newcastle (404 jogos) fez dele o maior goleador de sempre dos Geordies, ultrapassando Jackie Milburn, que contabilizou 200.

As lesões, a má relação com o treinador Ruud Gullit, as duas finais da Taça da Inglaterra perdidas em dois anos consecutivos (Arsenal 1997/8 e Manchester United 1998/9), a agressão a Neil Lennon e a derradeira grande penalidade falhada na pré-eliminatória da Liga dos Campeões contra o Partizan de Belgrado (2003/4) foram talvez os pontos mais negativos na carreira de Alan Shearer.


Capitão da selecção

Alan Shearer foi lançado na selecção sub21 em Novembro de 1990, apontando dois golos na vitória por 0-3 em Dublin, frente à República da Irlanda. Venceu igualmente o Torneio de Toulon em 1991, tendo sido considerado melhor jogador da prova, além de melhor marcador – também jogadores do Southampton na altura eram Jason Dodd e Rod Wallace. Nos sub21 – onde também jogou com David James, Lee Sharpe e Steve McManaman – apontou 11 golos em 13 jogos e foi essa capacidade goleadora que levou Graham Taylor a convocá-lo para a Selecção-A. Assim, em Fevereiro de 1992, Shearer estreou-se com a camisola da selecção principal frente à França de Cantona, numa vitória por 2-0. Como não podia deixar de ser, Shearer apontou o primeiro golo da equipa, seguido de Gary Lineker.

A melhor fase na selecção inglesa chegou no Euro 96, disputado em Inglaterra. Depois de não terem conseguido o apuramento para o EUA 94, os ingleses tinham bastante a provar no campeonato europeu. Se Les Ferdinand foi o melhor parceiro de ataque que Shearer teve na carreira de clubes, no que diz respeito à carreira de selecção o escolhido terá de ser Teddy Sheringham. Especialmente no Euro 96, Sheringham e Shearer – com a criatividade de Gascoigne no meio-campo – protagonizaram uma dupla de grande qualidade. Shearer foi o melhor marcador da prova com 5 golos, embora a Inglaterra tivesse sido eliminada nas meias-finais pela futura campeã, Alemanha, brilhantemente comandada pelo líbero Matthias Sammer.

Depois do Euro 96, o seleccionador Terry Venables foi substituído por Glenn Hoddle e este atribuiu a braçadeira de capitão da selecção inglesa a Alan Shearer (31 jogos como capitão). Não havendo muitos troféus coleccionados, este terá de ser um dos factos mais valorizados na carreira do ponta-de-lança, uma vez que sublinha a consideração que a grande maioria dos ingleses tinha por ele.

Além do Euro 96, Shearer marcou presença em duas outras grandes provas a nível de selecções. O Mundial de 1998, em França, em que a Inglaterra foi eliminada pela Argentina, e também o Euro 2000, na Bélgica e Holanda, competição na qual foram eliminados num grupo que incluía Portugal, Alemanha e Roménia. A derrota com a Roménia foi, precisamente, o último desafio de Shearer pela selecção, tendo o jogador preferido guardar energias para competir pelo Newcastle.

No total, 63 internacionalizações e 30 golos pela Selecção-A.


O explosivo pé direito

Não foi há muito tempo que Shearer se retirou dos relvados, daí que as pessoas ainda tenham uma boa memória daquilo que ele era capaz de fazer em campo. Aquilo que mais sobressaía em Alan Shearer era a capacidade para marcar golos de todo o género e de qualquer zona – dentro ou fora de área, em força, ou em jeito, bola parada ou bola corrida, pelo chão ou de cabeça. Não há dúvidas que foi um dos melhores avançados de sempre do futebol inglês e não será de estranhar que tenha sido considerado o melhor jogador nacional da primeira década da Premier League (de 1992 a 2002) pelo painel de peritos da competição – Eric Cantona recebeu a distinção para melhor estrangeiro.

A espontaneidade e violência dos remates do seu pé direito eram absolutamente únicas. De todos os grandes golos que marcou, talvez o que mereça mais destaque seja aquele que apontou pelo Newcastle ao Everton, em Dezembro de 2002.

Alan Shearer era um jogador com grande carácter e mentalmente muito forte. Desde que saiu do Wallsend Boys Club, o pequeno clube que precedeu a sua ida para Southampton, que os vários treinadores e olheiros valorizavam a sua determinação e vontade de ganhar. Como diziam alguns antigos colegas seus, nem esperava que o treinador chegasse do banco para dar a palestra do intervalo. Ele próprio dizia aquilo que tinha de dizer e foi sempre essa presença marcante que fez dele um líder incontestável, nos clubes e na própria selecção inglesa. Não lhe vimos fazer muitos dribles, mas, depois de observar a convicção, instinto e a precisão com que aquele pé direito rematava a bola, não era mesmo necessário vê-lo driblar.


Luís Catarino

» 2007-10-16
Nome: Alan Shearer

Data de nascimento: 13 de Agosto de 1970

Local de nascimento: Gosforth, Newcastle (Inglaterra)

Posição: Ponta-de-lança

Clubes:

1987/8: Southampton
1988/9: Southampton
1989/90: Southampton
1990/1: Southampton
1991/2: Southampton
1992/3: Blackburn
1993/4: Blackburn
1994/5: Blackburn
1995/6: Blackburn
1996/7: Newcastle
1997/8: Newcastle
1998/9: Newcastle
1999/2000: Newcastle
2000/1: Newcastle
2001/2: Newcastle
2002/3: Newcastle
2003/4: Newcastle
2004/5: Newcastle
2005/6: Newcastle

Principais títulos:

- Premier League (1994/5)

- Jogador do ano da Premier League pela PFA (1995 e 1997)

- Distinguido melhor jogador inglês da primeira década da Premier League (1992 – 2002)

- Terceiro classificado na votação da FIFA para melhor jogador do mundo em 1996, atrás de Ronaldo e Weah.

Selecção: 63/30
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