B.I.
Alan Dzagoev
O CSKA de Moscovo será, muito provavelmente, o caso mais paradigmático de um clube europeu que actua há anos consecutivos num sistema táctico de três defesas. A linha mais recuada constituída por Ignashevich e pelos gémeos Berezutski é já uma imagem de marca do emblema moscovita, que, durante bastante tempo, contou igualmente com uma óptima dupla brasileira na fase de definição dos lances ofensivos: Daniel Carvalho e Vágner Love. Em 2007, Carvalho começou a ter muitos problemas físicos e hoje já nem sequer está no plantel do CSKA - regressou ao Internacional de Porto Alegre, o clube brasileiro onde o esquerdino começou a dar nas vistas (foi treinado pelo actual técnico do Marítimo, Lori Sandri) antes de viajar para Moscovo há cerca de quatro anos. A queda lenta de Carvalho, que tenta recuperar a forma no Brasil até acabar o seu período de empréstimo no Internacional, reflectiu-se no jogo do avançado-centro Vágner. Sem Carvalho, a preocupação de Vágner era compreensível, pois faltava alguém que entendesse os seus movimentos e que soubesse fornecer assistências nos últimos 30 metros. Uma das opções utilizadas pelo treinador do CSKA, Valeri Gazzaev, para colmatar a ausência de Carvalho chegou a ser o também brasileiro Dudu Cearense. Porém, era notório que qualquer que fosse a solução ela originaria uma distância acentuada entre a linha média e o ataque. Dudu não tinha o perfil indicado para construir e realizar assistências, o avançado Jô muito menos e daí que a presença e criatividade de Daniel Carvalho fossem tão importantes para Vágner e para que toda a mecânica colectiva fluisse de forma sustentada.
Viajar 9 horas de avião para começar a fazer esquecer Daniel CarvalhoEm condições normais, um jogador que viajasse nove horas de avião até ao local do desafio e que tivesse apenas possibilidade de actuar no tempo de descontos não deveria ter razões para se sentir particularmente animado. No entanto, Alan Dzagoev não deve ter dado grande importância à desgastante distância percorrida entre Moscovo e Vladivostok, pois era exactamente aquela partida entre o Luch-Energiya e o CSKA de Moscovo, a contar para a 7.ª jornada do campeonato (Abril de 2008), que lhe dava a oportunidade de se estrear na primeira divisão russa com apenas 17 anos de idade. Dzagoev tinha sido contratado no final de 2007 ao Krylia Sovetov de Dimitrovgrad (segunda divisão) e em Maio de 2008 Gazzaev já lhe dava o papel de titular na equipa principal do CSKA – cumpriu um pequeno “estágio” de preparação nos reservas antes de ser promovido ao plantel principal. Dzagoev tornou-se em algo mais do que um simples jogador talentoso a revelar-se na liga russa. Conquistou o estatuto de complemento ideal a Vágner e pôde fazer esquecer a ausência gradual de Daniel Carvalho. A equipa cresceu novamente e Vágner recuperou a confiança e o seu estilo de jogo preferido com deambulações, agora com um jogador bastante dinâmico nas suas costas.
Características dominantesComo já foi dito, Dzagoev constitui um grande alicerce ao jogo do avançado-centro Vágner Love. Enquanto Yuri Zhirkov (esquerda) e Milos Krasic (direita) surgem, em explosão, a partir dos flancos, Dzagoev, normalmente suportado por dois médios-centro de características mais combativas (Rahimic, Semberas ou Aldonin), tem liberdade para aparecer nos espaços entre linhas, a toda a largura do campo, ditando os ritmos. Este tipo de movimentações livres permite que Vágner consiga dialogar melhor com os restantes colegas e obter mais condições para fugir das marcações directas dos adversários na grande área.

Um das grandes vantagens de Dzagoev é a de possuir uma excelente capacidade para receber e segurar a bola de costas para os defesas e rodar com muita rapidez, obrigando-os a cometer faltas. Se estas forem cometidas em zonas de possível cruzamento para a grande área, então o próprio Dzagoev, com o pé direito, costuma ser o jogador que aponta esses livres (o esquerdino Zhirkov também marca presença nesse tipo de lances, de forma a baralhar a equipa contrária). De qualquer modo, é ele quem costuma apontar praticamente todos os pontapés de canto e livres directos em jeito (Ignashevich também os pode marcar, em zona frontal). Para dar um exemplo, um dos dois golos que Dzagoev marcou ao Deportivo nesta edição da Taça UEFA foi através de um livre directo em jeito.
Tem uma atitude arrojada e disponibiliza-se para ajudar a equipa nas tarefas de pressão sobre o defesa adversário portador da bola. Esforça-se por encontrar o melhor espaço entre linhas para receber a bola e soltá-la no tempo e local certos para uma desmarcação de um colega. Por outro lado, também tem corrida e condução para, por exemplo, em ataque rápido, dar sequência a um lançamento manual longo do guarda-redes Akinfeev, que é habitual nos jogos do CSKA.
A concretização do talentoPercebe-se que Dzagoev possui uma conjugação de atributos que o distingue da concorrência, mas será a liga russa o melhor cenário para capitalizar a sua vasta margem de progressão? É sempre benéfico que um jogador tão novo se sinta próximo das suas raízes. Porém, em termos de competitividade, é um facto que o campeonato da Rússia não lhe permite atingir níveis técnicos, tácticos e físicos tão elevados como em outras ligas europeias. A ascenção de Dzagoev nos últimos meses tem sido notável, a tal ponto que Guus Hiddink já o fez alinhar em dois jogos da selecção principal, tendo-se tornado no futebolista mais jovem a vestir a camisola da Rússia. A grande questão é, agora, saber se Dzagoev é capaz de amplificar a sua qualidade de jogo na medida que a sua margem de progressão prevê. Embora não se trate de um super fenómeno, é um jogador com imensos pontos de interesse. Vão sendo raros aqueles que, com 18 anos, conseguem chegar à titularidade de um clube europeu de boa dimensão e ter a calma para desenvolver um estilo próprio e ao mesmo tempo tão convincente.
Luís Catarino
» 2008-11-22