Estudiantes LP
As bruxas connosco
Todos ouvem o líder. Da esquerda para a direita: Boselli, Schiavi, Braña, o capitão Verón, Salgueiro e Desábato.Batendo os brasileiros do Cruzeiro na final (a duas mãos), o Estudiantes La Plata venceu a Taça dos Libertadores 2009. Foi a quarta vez que o clube de Buenos Aires se sagrou campeão sul-americano, uma vez que já haviam ganho a competição em 1968, 1969 e 1970.
É significativa a distância temporal entre o título conquistado há uma semana e aqueles três de há 40 anos. No entanto, desde logo se verifica uma semelhança entre estas duas gerações do Estudiantes: ambas tinham um Verón.
“É uma bruxa montada na vassoura”Juan Ramón Verón era um dos ídolos do Estudiantes na equipa orientada por Osvaldo Zubeldía nos finais dos anos 60, onde também se incluía o médio Carlos Bilardo. Verón era canhoto e utilizava muito bem a sua velocidade e repertório de dribles junto ao flanco esquerdo. “É uma bruxa montada numa vassoura, é Verón, Verón”, referia o cântico pincharrata em homenagem ao atacante. Curiosamente, também o filho de “La Bruja” veio a ser uma figura proeminente do Estudiantes. Chama-se, claro está, Juan Sebastián Verón. Apesar das diferenças de estilo em relação ao pai, “La Brujita” foi igualmente um jogador fundamental na obtenção do título máximo de clubes da América do Sul.
Juan Sebastián Verón (Médio-centro, 34 anos)Futebol supremo. Ver a forma rápida como o capitão lê o jogo, como se impõe no meio-campo e como dos seus pés saem passes incríveis, super-calibrados, é um privilégio sem preço. Juan Sebastián Verón acumulou vários anos nalguns dos melhores emblemas da Europa e, agora, já na casa dos trinta, recorre a essa vasta experiência para fazer a diferença com a camisola do Estudiantes, o mesmo clube onde se formou e iniciou a carreira (por influência óbvia do pai). Junta-se a Rodrigo Braña quando a equipa não tem a bola, mas em posse ganha liberdade para aparecer nos espaços e criar jogo a toda a largura do campo. A influência de Verón, que surgiu muito bem preparado em termos físicos, é tão grande que parece ter crédito ilimitado junto dos colegas e treinadores. Ninguém lhe pode cobrar nada e, sempre que possível, é ao génio de fita no joelho que os colegas entregam a bola nos momentos mais complicados. “La Brujita” já tinha sido determinante na conquista do Apertura 2006 e continua a ser, modestamente, o verdadeiro dono da equipa. O atual treinador, Alejandro Sabella, homem que conhece bem os cantos à casa, disse após a conquista desta edição da Libertadores que Juan Sebastián Verón é o jogador mais preponderante de sempre na história do Estudiantes…
Rodrigo Braña (Médio-defensivo, 30 anos)Está no Estudiantes desde 2005 e, tal como Verón, é importante para transmitir o espírito do clube aos elementos mais novos. Este Gattuso argentino (1.67m de altura e estilo muito aguerrido) interpreta bem as movimentações táticas no meio-campo e sabe quando deve abrir uma linha de passe ou permanecer mais recuado.
Rolando Schiavi (Defesa-central, 36 anos)Competições como a Libertadores foram feitas para ele. Face ao súbito contratempo relacionado com a lesão de Angeleri, que se juntou ao defesa-central Agustín Alayes na lista de indisponíveis, o Estudiantes contratou Rolando Schiavi um pouco “à pressão” já nos finais de Junho, ainda a tempo de disputar a meia-final frente aos uruguaios do Nacional. Chegou do Newell’s na condição de emprestado e a sua experiência terá sido bastante decisiva, especialmente na eliminatória final contra o Cruzeiro. Schiavi, que preencheu o lugar de Cellay, é um central de marcação que várias vezes recorre a truques sujos para perturbar os adversários e tem no porte físico a sua principal arma – com Desábato, fez uma dupla fortíssima no jogo aéreo. Já tinha ganho a Libertadores (e Intercontinental) em 2003 pelo Boca Juniors, clube para o qual entrou em 2001 para substituir o colombiano Jorge Bermúdez. Em 2007, com a camisola do Grémio, foi finalista vencido ante o Boca. É também conhecido no futebol argentino por ter atuado numa partida com apendicite. Terminou esse jogo e foi diretamente dos balneários para a sala de operações.
Marcos Angeleri (Lateral-direito/defesa-central, 26 anos)Formado no clube e um dos pilares da equipa. O defesa cumpre com empenho e eficácia as posições de central (marcação ou líbero) e de lateral-direito, tirando sobretudo proveito da sua velocidade. Angeleri lesionou-se com gravidade no joelho e por esse motivo falhou os desafios finais da competição, tendo precipitado a aquisição de Schiavi. Na final com o Cruzeiro, o destro Germán Ré (ex-Newell’s) manteve-se à esquerda e Christian Cellay apareceu como defesa-direito. Aliás, foi Cellay quem cruzou para o golo de Fernández. Outra opção teria sido colocar Ré na direita e Juan Manuel Díaz na esquerda.
Gastón Fernández (Segundo-ponta, 25 anos) Está há um ano no Estudiantes, então pedido por Sensini. Ganhou a alcunha de “La Gata” nos escalões jovens do River Plate, o clube pelo qual se estreou se na primeira divisão argentina - o treinador era Manuel Pellegrini, o atual técnico do Real Madrid. No River, teve o seu melhor período sob orientação de Leonardo Astrada, mas foi com Ramón Díaz, no San Lorenzo, que conquistou um dos troféus mais importantes da carreira: o Clausura 2007. É facilmente distinguível pela cabeça loira, mas também pela sua qualidade enquanto segundo ponta. As suas desmarcações para próximo da faixa lateral, em apoio ao ponta-de-lança, fazem lembrar Rodrigo Palacio. Gastón Fernández é um atacante muito móvel, rápido nas mudanças de direção, tem bons pés e não tem medo de jogar de costas para os defesas, possibilitando, assim, que a equipa crie boas triangulações.
Mauro Boselli (Ponta-de-lança, 24 anos) Quando tiver mais calma em frente ao guarda-redes, poderá ser um dos melhores pontas-de-lança da cena internacional. Cresceu na formação do Boca Juniors, mas, perante a concorrência de Palacio e Palermo, não encontrou o espaço necessário no plantel xeneize. Ingressou no Estudiantes durante o ano passado e foi fundamental na conquista desta Libertadores, protagonizando uma dupla de sucesso com Gastón Fernández, mas entendendo-se também com Salgueiro ou com o experiente José Luis Calderón. Possante, sabe utilizar o corpo para proteger a bola e dominá-la de costas para o marcador, exibindo também uma boa iniciativa para recuar e vir buscar a bola. Possui uma qualidade técnica muito apreciável, conseguindo driblar em espaços curtos com bastante frequência. Sagrou-se melhor marcador da Libertadores, com 8 golos.
Alejandro Sabella (Treinador, 55 anos)Depois de vários anos como adjunto de Daniel Passarella, Alejandro Sabella estreou-se como técnico principal no passado mês de Março, num clube que conhece bem dos tempos em que era jogador.
Recorde-se que o treinador responsável pelo famoso título do Apertura 2006 tinha sido Diego Simeone. O guarda-redes Andújar, os defesas Angeleri e Alayes, os médios Braña, Verón e Benítez e o avançado Calderón fizeram parte dessa conquista, juntamente com nomes importantes como José Sosa (Bayern) e Mariano Pavone (Bétis).
Diego Simeone foi mais tarde substituído por Néstor Sensini. Ambos chegaram a imprimir o sistema de três defesas, em que Angeleri se assumia como líder da linha mais recuada, mas para o Apertura 2008 o sistema voltou mais regularmente aos quatro defesas, primeiro com Sensini nas jornadas iniciais, depois com Leonardo Astrada, o antecessor de Sabella.
A marca do Estudiantes
Tudo gira em redor de Verón, mas há alguns outros aspetos que explicam o sucesso da equipa. Existe um grande sentido coletivo dentro de cada jogador e só assim foi possível, por exemplo, superar a desvantagem no desafio do Mineirão. O Estudiantes privilegia um sistema de 4-4-2, em que os médios laterais Leandro Benítez e Enzo Pérez têm elasticidade, conseguindo posicionar-se junto ao flanco, ou em zonas mais centrais. Benítez, canhoto, tem um bom trato de bola, mas ainda falha na execução do último passe. O estilo de Pérez é diferente, mais musculado, procurando arranques com a bola.
Aquilo que sobressai no estilo de jogo do Estudiantes é a facilidade de troca de bola no meio-campo adversário. Isso deve-se, em grande parte, à presença de Verón. No entanto, cada jogador entende bem a necessidade de formar pequenos triângulos. Ou seja, dar linhas de passe imediatas para fazer tabelas e fomentar uma boa progressão com bola. Para isso, é também importante reconhecer a capacidade de Fernández e de Boselli em moverem-se e jogarem de costas para a marcação.
Luís Catarino
» 2009-07-21