Além da Tática
Segue jogo
“Meia hora depois, quando todos os feridos já haviam sido retirados e o jogo já decorria outra vez com normalidade, fiquei surpreendido ao verificar que a bancada estava de novo ocupada” *1. Esta citação teve lugar há 107 anos e pertence a um indivíduo que participou nas operações de salvamento às vítimas do desmoronamento de uma bancada do Ibrox Park, em Glasgow, quando estavam decorridos seis minutos da partida entre a Escócia e a Inglaterra.
A estrutura de madeira que compunha a bancada oeste do Ibrox não suportou o peso e, quando as tábuas cederam, as pessoas começaram a cair umas em cima das outras, a uma altura superior a 75 metros. Apesar do cenário devastador provocado pelo acidente, que causou 25 mortos e quase 500 feridos, o jogo prosseguiu *2.
“O facto de o jogo ter prosseguido foi, sem dúvida, compensador para um grande número de pessoas, muitas das quais vindas de longe. Mas, para aqueles que se encontravam misturados com os mortos e com os moribundos, os aplausos, que de tempos a tempos sublinhavam fases da partida, pareciam despropositados, funcionando como acompanhamento dos gemidos dos feridos e dos agonizantes”, referia o jornal
Scotsman naquela semana de Abril de 1902, terrivelmente marcada por aquele que foi o primeiro acidente do género em estádios de futebol.
(29/03/2009) Estádio Felix Houphouet-Boigny, em Abidjan : 22 mortos.No último fim-de-semana, em Abidjan, ainda antes do início do Costa do Marfim – Malawi, teve lugar a mais recente grande tragédia num estádio, com mais de uma centena de pessoas a ficaram feridas e 22 a perderem a vida. Por mais que se diga que seria pior cancelar o jogo pois isso poderia implicar problemas de segurança no controlo de todos os outros espectadores no estádio, e por mais que se diga que jogadores, dirigentes, pessoas das outras bancadas, etc, etc, etc, não se tinham apercebido da gravidade da situação, torna-se extremamente complexo descrever e aceitar o comportamento humano perante circunstâncias como estas.
Recordam-se do que aconteceu no Heysel, em Bruxelas, na final da TCE entre a Juventus e o Liverpool, em 1985? Pergunto-vos se não consideram excessivamente perverso que a equipa inteira da Juventus tenha celebrado entusiasticamente o golo de Platini, na mesma parte do relvado que, alguns minutos antes, servira de escape para muitos dos adeptos
bianconeri que fugiam do esmagamento na bancada. Essa final começou com mais de uma hora de atraso, os altifalantes do estádio davam conta do número de mortes confirmadas (acabariam por ser 38, maioritariamente adeptos da Juve) e vários jogadores italianos ate já se tinham deslocado à zona dos
tifosi para os tentar acalmar. Toda a gente tinha a noção daquilo que se tinha passado. Por compromissos comerciais, por receio de mais atos de hooliganismo, ou por qualquer outra razão, o jogo realizou-se.
“A bola é, na vida, a metáfora de tudo o que escapa à razão” – Jean GiraudouxStanley Matthews *3, a propósito de uma tragédia que presenciou em 1946 no Burnden Park entre o Bolton Wanderers e o Stoke City – 33 mortes e mais de 500 feridos -, admitiu o seguinte: “
o jogo era tudo o que nos preocupava (…) minutos depois de termos regressado ao campo após o desastre, já tínhamos esquecido aqueles homens que pouco antes nos aplaudiam e que agora estavam mortos”. Talvez esta confissão de Matthews até seja mesmo o motivo pelo qual já nem ficamos muito surpreendidos com o facto de o desafio de Abidjan ter ido para a frente.
Passaram 107 anos desde a primeira tragédia com estas caraterísticas e dá a sensação que a relativa indiferença das pessoas perante estes desastres é, hoje, exatamente igual, aconteça ele em África, na Velha Albion ou em qualquer outro ponto do planeta. A partir do momento em que o adepto entra no estádio de futebol, também ele muda interiormente para um outro estádio, o da busca de excitação, da exacerbação sensorial e afetiva na dedicação incondicional à sua equipa. Logo, esse estádio afetivo, como é explanado por Álvaro Magalhães em “História Natural do Futebol”, “é a oposição clara à ordem e à razão”. Fora todas as forças mais exógenas que possam ter surgido, este será o melhor princípio para entender como é que em Glasgow, Bruxelas e Abidjan se reuniram condições para haver jogo quando, supostamente, as condições estariam muito longe de estar reunidas.
*1: in "A Tribo do Futebol"
*2: a partida realizou-se até ao fim, mas o resultado de 1-1 acabou por não ser homologado. Houve, um mês depois, um jogo de repetição no Villa Park, em Birmingham, que terminou num empate a 2-2.
*3: vencedor da primeira edição da Bola d’Ouro, atribuída em 1956 pela France Football.Luís Catarino
» 2009-04-01