Além da Táctica
Scolari
Levando a sério a opinião dominante sobre o momento da divulgação da saída de Scolari, imaginamos o vale de lágrimas que vai por aquele balneário, inconsolável com o sentimento de orfandade. Então Petit e Nuno Gomes devem estar que nem podem, tão pouco habituados a mudanças de treinador... Só esta época foram três! Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho tiveram dois e, no que diz respeito aos impactos da mudança, basta recordar a cara do senhor que substituiu Mourinho.
Esta afirmação da irracionalidade sempre dominou a apreciação da passagem do treinador brasileiro pela nossa selecção. Dir-se-á que isso é o normal nas conversas sobre futebol. Mas não nos parece que o seja, quando veiculada por quem é pago para reflectir para além daquilo que é acessivel ao simples adepto. Neste caso, outros interesses podem estar em jogo.
No início foi o Baía e logo aí ficou marcado o baixo nível da crítica. “Nenhuma equipa pode ganhar o que quer que seja sem um grande guarda-redes”, sentenciou-se. Seria interessante saber onde viram estes opinadores grandes guarda-redes na maior parte das equipas brasileiras que conquistaram o título mundial. Na verdade, o que então estava em causa era uma relação de poder: a afirmação da vontade do seleccionador, em confronto com o maior lóbi do nosso mundo da bola. Talvez Baía tenha sido a vítima, mas esse foi o momento da rotura com o passado. E o passado era o da vergonhosa aventura coreana, do caso “Paula”, das equipas a pedido, das interferências dos empresários.
Scolari sucedeu a um numeroso grupo de seleccionadores para todos os gostos: Nelo Vingada, António Oliveira (por duas vezes), Artur Jorge, Humberto Coelho, Agostinho Oliveira. Desde que o Professor Carlos Queiroz bateu a porta com estrondo e má cara, nenhum conseguiu estar no cargo mais do que dois anos seguidos. Aliás, para encontrarmos alguém que ultrapasse o tempo de permanência do técnico brasileiro, temos que recuar aos anos 30 e ao mítico Cândido de Oliveira de tempos mais calmos - não deve ser por acaso.
Por isso, quando ouvimos Eusébio lamentar a saída do “Sargentão”, só podemos reconhecer que não perdeu o jeito: continua a rematar na passada, com violência e precisão. Ele bem sabe que não basta ter grandes jogadores, nem desenvolvidos conceitos técnico- tácticos, para vingar à frente da nossa selecção. É preciso ter estatuto para falar de alto às forças que manobram na sombra do nosso futebol. As mesmas que nunca quiseram que as análises ultrapassassem o simples tom de “conversas de café” e que tudo fazem para que nada reste da passagem de Scolari. Nem a memória.
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2008-06-14