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Além da Táctica

Profissionalização da arbitragem: solução ou problema?


Vítor Pereira, dirigente da Liga de Clubes, aponta 2011 como horizonte temporal para a profissionalização da arbitragem portuguesa. Perseguindo idêntico objectivo, Joseph Blatter, presidente da FIFA, vai ao ponto de o considerar condição necessária para que haja maior respeito entre os vários intervenientes no jogo. Enfim, com a crise que por aí vai, tudo quanto aumente a oferta de emprego será bem recebido. Mas o que nos parece valer a pena debater é se tal medida é importante para reduzir a hipótese de erro e, sobretudo, para trazer paz ao sector, ao fim e ao cabo a grande utopia de todos os que gostam de futebol.

Os aspectos da arbitragem envolvidos em maior polémica, aqueles que são apontados a dedo por desvirtuarem os resultados, têm mais que ver com a utilização de “meios auxiliares de diagnóstico” (que só agora a FIFA começa a admitir) e com aspectos organizativos do sector, do que com o horário de trabalho dos árbitros. É o caso da bola ter ou não ultrapassado a linha de baliza, é a eterna dúvida em relação aos fora-de-jogo.

Depois, há o lote dos problemas provocados pela subjectividade possível na apreciação dos lances (o famoso caso dos atrasos de bola para o guarda-redes, por exemplo) e, por último, mas talvez o mais importante, os casos em que se põe em dúvida a própria honestidade dos árbitros. Ora, não nos queiram convencer que as marcações do campo ficam mais nítidas, o sopro mais firme e, sobretudo, a formação do homem mais sólida, só porque se tem uma carteira profissional no bolso. Há leis que podem e devem ser simplificadas, há meios técnicos que podem e devem ser usados, há uma autonomia organizativa que importa ser estudada e há um controlo que, urgentemente, tem que ganhar credibilidade. Nada disto parece estar relacionado com a profissionalização.

Por sua vez, é fácil identificar perversões da medida que, a não serem acauteladas, arriscam-se a agravar o que se diz querer resolver. Um árbitro profissional é um assalariado dependente de uma entidade patronal (estrutura dirigente) que está longe de ser entendida como alheia aos interesses que se movimentam em torno do negócio do futebol. Imaginamos a facilidade com que podem brotar as mais delirantes fantasias sobre dependências e relações promíscuas...

O mais grave é que a única forma de evitar o problema depressa se pode transformar no início de outro problema não menor. De facto, se for conseguido um mercado alargado que permita aos árbitros venderem a sua força de trabalho onde lhes paguem melhor, não se correm tantos riscos sobre suspeitas de dependências. Isso será possível, se a profissionalização se estender a vários campeonatos e se for permitido, a cada um, contratar juízes no estrangeiro (ao fim e ao cabo, o que se passa com os jogadores e os treinadores). Só que, nessa altura, vão ser os melhores profissionais a terem as melhores ofertas de emprego que, naturalmente, serão feitas pelos campeonatos mais ricos. Pobres dos que ficarem: a suspeita da dependência será agravada pelo estigma da incompetência.

Mas venha lá essa profissionalização. Nenhum dos grandes problemas do sector será resolvido. Os assobios vão continuar, tal como as suspeitas, porque os erros também. Embora muito mais bem pagos.


Gil Campos
gilcampos@hotmail.com

» 2007-09-25
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