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Além da Táctica

Portugal, Sociedade de Espectáculos


Aquilo em que somos mesmo bons é no faz de conta. Criar realidades virtuais, montar cenários de grande impacto e de curta duração. Consta que o presidente de uma Câmara do Interior criou, em pleno centro da vila, uma praia com ondas e tudo. Foi um sucesso. Notícias nos jornais, entrevistas para as televisões. Entretanto a novidade passou e parece que, hoje, anda aflito para pagar as despesas do tanque. Mas, enquanto durou, deve ter sentido que tinha descoberto o segredo para conter a desertificação do Interior. É uma pena não sermos conhecidos pelos responsáveis da Disney.

O futebol não foge a esta característica nacional. Não há início de época em que as primeiras páginas não se encham de promessas de contratações fabulosas, legiões de craques capazes de ombrear com os galácticos do Real Madrid ou do Milan. É um fartote: os adeptos animam-se, a confiança sobe aos píncaros. Depois, acabam por vir uns “Zés dos Anzóis”, meio toscos, com as melhores referências dadas pelas respectivas mãezinhas, mas de relação difícil com a bola. Não há problema, porque o final do ano é propício a novos espectáculos e ao renovar de esperanças.

E o final do ano aí está. O clube que mais investiu no início desta época – o Benfica – prepara-se para dispensar (incluindo empréstimos) cerca de nove jogadores de um grupo que Luís Filipe Vieira considerou “o melhor dos últimos dez anos”. Dez são os pontos que o separam do líder, depois de ter mudado de treinador e de Fernando Santos ter dado a entender que pouca influência teve na construção do actual plantel. Perante o avolumar das críticas, anunciam-se novas contratações em Janeiro.

Quanto ao Porto, o avanço conseguido sobre os mais directos perseguidores talvez lhe permitam fugir à tentação consumista do Natal e evitar comentários sobre as contratações feitas. A verdade é que já é difícil recordar o nome de algumas delas que nem a cor do relvado devem ter visto, enquanto a equipa se afirmava à custa de um “núcleo duro” com raízes na casa.

Em Leiria, o presidente João Bartolomeu decidiu não pagar ordenado a alguns jogadores que, em sua opinião, não têm “suado a camisola”. A sua União – que até há bem pouco tempo recebia cerca de 900 mil euros por época da Câmara Municipal de Leiria para utilizar o Estádio Magalhães Pessoa – segue em último lugar com apenas cinco pontos conquistados. Já mudou de treinador e o presidente acabou por assumir que cometeu erros nas contratações que fez no início da época. Nova fornada está prestes a chegar no início do ano.

Mesmo o Boavista, às voltas com uma complicada situação financeira, já veio acalmar as hostes, garantindo ir procurar no monte das mercadorias de Inverno a estrelinha que lhe indique o caminho da salvação.

Provavelmente, nenhuma destas contratações de última hora conseguirá alterar seja o que for. Mas garante-se a pose, evitam-se perguntas incómodas, escondem-se misérias. Porque não, se até, em assuntos mais sérios, andámos divertidíssimos a fazer de conta que éramos uma grande potência, dirigindo os destinos da Europa? No dia seguinte acordámos pelintras como sempre, sem esperança como sempre e com alarmantes consumos de anti-depressivos. E depois? Desça o circo ao povoado..

Ora, já lá dizia o nosso Major – especialista como nenhum nesta “arte” de montar cenários – que o futebol mais não é do que um espelho do país.


Gil Campos
gilcampos@hotmail.com

» 2007-12-19
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