Além da Táctica
O rugir da águia ou o voo do leão
E se o Benfica e o Sporting se fundissem num único clube? Não, não estamos loucos, nem sequer somos os “pais” da ideia. Tanto quanto sabemos ela foi lançada pelo jornalista Rui Santos e, mais do que avaliar a sua viabilidade, interessa perceber que o simples facto de surgir revela muito do que está a mudar no futebol português.
Os argumentos a favor da fusão apelam a uma racionalidade pouco compatível com o modo como os adeptos se relacionam com o futebol: constata-se que Lisboa há muito deixou de ter um clube com capacidade para se impor nos palcos europeus e descrê-se na possibilidade de o vir a ter num futuro próximo; enfatiza-se o facto dos clubes terem enveredado por uma gestão profissional, recorrendo a técnicos recrutados pela sua competência, mas que até são conhecidos por simpatizarem com outras cores clubísticas; reconhece-se que, apesar da evolução positiva verificada nos últimos anos, nem o Sporting, nem o Benfica, conseguem reduzir os respectivos “passivos”.
De facto, há muito que entrámos no mundo do futebol-negócio em que os jogadores passaram a “activos” e os adeptos a “mercado”. Os próprios clubes são adquiridos como qualquer empresa (até a Disney quer comprar o Derby County), não sendo difícil imaginar um futuro em que, como acontece na NBA, um emblema possa, inclusivamente, passar a representar uma área geográfica diferente daquela que o viu nascer. Mesmo os resultados têm que ser entendidos como estratégia promocional de um produto e a ele subordinados. Quer isto dizer, como escrevemos anteriormente, que se o retorno do investimento obrigar a um sacrifício temporário dos resultados, o dirigente-gestor não hesita: sacrifica mesmo. O Real Madrid de Florentino Pérez foi um exemplo do que afirmamos.
É neste contexto que se tornou possível imaginar o que, até há algum tempo, era completamente inimaginável. Defender a “fusão” entre Benfica e Sporting tem os mesmos objectivos de uma fusão entre o BPI e o Millenium-BCP, ou entre a Optimus e a TMN: criar uma empresa mais competitiva, com maior capacidade de investimento, logo, de resposta no mercado global. Para termos uma ideia da importância desta estratégia na afirmação no quadro internacional, basta comparar os orçamentos dos nossos principais clubes com os dos seus mais directos competidores na Liga dos Campeões.
Só há um problema: a história de ambos os emblemas criou uma relação afectiva tão forte e com um número tão significativo de adeptos que dificilmente pode ser gerida numa simples lógica de mercado. Encontrar algo semelhante no frio mundo dos negócios não é fácil, mas há: seria quase como se a “Pepsi” se unisse à “Coca-Cola”, o que dificilmente conseguiria juntar num só produto a soma dos “fanáticos” de cada um deles.
De qualquer modo, estes são os novos tempos em que a mercantilização do futebol vai impondo as suas regras e deixando pouco espaço para afectos. Por isso, não é de admirar que apareça quem anseie por ouvir o rugir da águia ou, se quiserem, assistir ao voo do leão.
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2007-11-16