Além da Táctica
O pagador de promessas
“Não é justo exigirem o que estão a exigir” – Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica.
O autor da frase é o mesmo que, no início da época, disse que o treinador ia ter insónias para escolher o onze titular de um plantel tão rico e variado (“o melhor dos últimos dez anos”). É o mesmo que trocou de treinador no início do campeonato, mal os resultados negativos começaram a aparecer. É precisamente o mesmo que permitiu a saída de Simão (e Manuel Fernandes) já com a época em andamento, garantindo que o grupo de trabalho tinha alternativas. Será que Vieira começou como vendedor de ilusões e está condenado a terminar como pagador de promessas?
Em futebol jogado, os problemas por que passa o Benfica são fáceis de explicar: uma equipa que perdeu Simão Sabrosa, Miccoli, Karagounis e Manuel Fernandes, não pode evitar uma quebra no seu rendimento. Qualquer uma das grandes equipas europeias teve um tempo de gestação de dois ou três anos, antes de conquistar fosse o que fosse (a excepção foi o Chelsea, onde José Mourinho e o dinheiro do senhor Abramovich, conseguiram escolher, a dedo, os jogadores com as características certas para cada lugar, mas isso não está ao alcance de qualquer bolsa). Ou será que já ninguém se lembra do que aconteceu ao Porto, depois das saídas de Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Derlei, Maniche, Deco?
Mas as angústias do presidente do Benfica estão mais relacionadas com a dificuldade em conciliar o espectáculo do jogo com as exigências das receitas, tendo em conta as necessidades das finanças do clube e as regras empresariais da sua gestão. De facto, poucas diferenças existem hoje entre um clube de futebol e uma qualquer empresa da área dos têxteis ou das telecomunicações – interessa ter em conta o retorno dos investimentos efectuados, que pode não estar directamente relacionado com o resultado final da sua produção. Dito por outras palavras, um clube de futebol pode garantir lucros, sem ter grandes resultados desportivos. Ora, se houver que optar entre uns e outros, o novo dirigente-gestor não hesita: escolhe os primeiros.
O exemplo máximo desta forma de gerir clubes de futebol foi o Real Madrid de Florentino Pérez: rico em receitas e pobre em títulos. Na época de 2004-2005, conseguiu ultrapassar o mítico Manchester United com valores a rondar os 275 milhões de euros (no ano seguinte ascenderiam a 292,2 milhões), mas quanto a exibições no terreno de jogo era uma decepção. O “segredo” do sucesso baseava-se nos contratos de televisão e na venda da imagem dos seus “galácticos”. Basta dizer que numa lista então divulgada pela empresa alemã BBDO, com os vinte jogadores que mais rendiam em publicidade, o clube espanhol liderava com quatro nomes (Beckham, Ronaldo, Raúl e Zidane).
A adaptação portuguesa desta estratégia obriga, no entanto, a uma importante diferença: a necessidade de transferir os melhores jogadores. Nenhum dos nossos clubes tem capacidade para conseguir 800 milhões de euros num contrato com as televisões, como o assinado pelo novo presidente do Real, Ramón Calderón. Nenhum jogador que pisa os nossos relvados consegue receitas da ordem dos 50 milhões de euros, como Ronaldinho do Barcelona.
Mesmo os lucros associados aos êxitos desportivos têm limitações para um clube que ainda apresenta um passivo à volta dos 150 milhões de euros. Na época de 2005-2006, o Benfica teve uma participação razoável na Liga dos Campeões, de onde apenas saiu nos quartos-de-final. Isso rendeu-lhe 16,4 milhões de euros, dos quais 9,5 a partir de patrocínios e direitos de transmissão. Ora, só a transferência de Simão Sabrosa para o Atlético de Madrid ultrapassou esses valores e deve ter contribuído (muito) para a redução da massa salarial do plantel.
Numa época de “apitos dourados” e diminuição de benefícios fiscais, a margem de manobra dos responsáveis pelos clubes é menor e conseguir receitas tornou-se mais difícil. A constante venda de jogadores parece ser inevitável, mesmo com a evolução positiva que as suas contas têm anunciado. O problema do Benfica é que isso tem que ser feito, sem que haja uma formação a abastecer o plantel principal, sector onde se atrasou face à concorrência (basta ver a quantidade de jogadores contratados com idades entre os 18 e os 23 anos para percebermos a falta que ela faz). O problema está, ainda, em não haver tempo para estabilizar a equipa, de modo a resistir às saídas e entradas – Fernando Santos queixou-se disso mesmo.
Luís Filipe Vieira sabe que dirige um clube onde há “pressa de vitórias”. Também sabe da necessidade em pôr ordem nas contas...com toda a pressa. Conseguir, depressa, este equilíbrio entre os resultados nas quatro linhas e na tesouraria não tem sido fácil (veja-se a campanha pelos 300 mil sócios). Talvez seja isso que tem estado na origem dos seus já famosos discursos, apressados, de início de época, elevando expectativas que os resultados vêm revelando mais não serem do que ilusões. Mesmo sem levar à letra o personagem de Dias Gomes, resta saber se não irá acabar como “pagador de promessas”.
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2007-10-11