Além da Táctica
Medalhas, por alma de quem?
Há uns anos, assisti à inauguração de um pavilhão gimnodesportivo de uma freguesia do centro do país. Nas muitas modalidades convidadas, contava-se um grupo de trampolins com alguma dimensão, tendo várias presenças em provas internacionais. Quando iniciaram a actuação, a assistência ficou de boca aberta, não tanto pela destreza dos atletas, mas porque, ao subirem, os ginastas eram obrigados a encolher a cabeça, já que o edifício não tinha pé-direito suficiente. Estava presente um secretário de Estado. Teve direito a discurso e nome na lápide - não consta que se tenha envergonhado com a experiência.
São infra-estruturas destas que se construiram um pouco por toda a parte e que, hoje, entram nas estatísticas sobre as condições gerais para a prática desportiva. Erigidas ao sabor da vaidade e da inspiração duma qualquer autoridade local, raramente têm condições para algo que não tenha bola à mistura. Alguns estão associados às escolas, permitindo dizer que “mais de 90 por cento têm clubes de desporto escolar” (Público, 20 de Agosto de 2008). Ninguém parece muito interessado em cruzar essa informação com o tempo realmente dedicado pelas escolas à Educação Física e com o facto de termos os jovens mais obesos e mais parados da União Europeia.
Mas conto-vos outra história. A Lagoa de Óbidos é um daqueles locais paradisíacos que a especulação imobiliária se tem esforçado por destruir. Na década de 90, foi lá construída uma pista para desportos aquáticos (remo, canoagem, etc.) com dinheiros da Europa. Depois da obra feita, descobriram que o local é excessivamente ventoso, o que afecta os tempos conseguidos. Depois da obra feita…
Pois este mesmo país decidiu que ía a Pequim ganhar não sei quantas medalhas nos Jogos Olímpicos. Quando viu que não conseguia, entrou em histeria e desatou a chamar nomes aos atletas, acusando-os de não terem respeito pelo dinheiro gasto. Dinheiro gasto? Isso é o que têm feito as autoridades locais e nacionais, pouco interessadas em trabalho de longo prazo, em formação, na criação de uma cultura desportiva associada à ideia de bem-estar. Gastar dinheiro é o que tem andado a fazer o futebol, onde uma só equipa custa mais do que toda a preparação da delegação olímpica ao longo de quatro anos. Onde estão os resultados?
A Austrália investiu 126,8 milhões de euros anuais nos atletas que estão nos Jogos Olímpicos. Na Holanda, um só banco financia modalidades como ciclismo, hóquei em campo e hipismo. Independentemente dos resultados, conhece-se uma escola americana de velocidade, uma russa ou uma japonesa de ginástica. Em Portugal, as empresas apostam nas imagens de atletas consagrados e, quanto a “escolas”, a última de que me recordo é a do meio-fundo e fundo, iniciada com o trabalho do Professor Moniz Pereira. Alguém sabe por onde anda?
Agora que Nelson Évora faz ecoar o hino no estádio de Pequim, todos vão falar da “nossa” medalha de ouro. Poucos irão ter a humildade de reconhecer que ele quase concorre sozinho em solo nacional, não havendo quem, nos próximos tempos, dê continuidade ao seu trabalho. O mesmo se pode dizer de Naide Gomes, Vanessa Fernandes, ou de um Obikwelu que nos caiu no colo, sem sabermos como nem porquê. Todos eles são fenómenos da natureza que aproveitámos, mas não criámos. E mesmo assim exigimos medalhas. Por alma de quem?
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2008-08-21