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Além da Táctica

Do futebol


Todos os dias me sinto em dívida para com o futebol. Assistir a desafios no estádio ou na televisão, estar em pulgas para que calhe o cromo do distinto Gullit, afinar uns estoiros contra o barulhenta porta da garagem para, depois, os jogos na rua terem um desfecho mais favorável e não ter de ir apanhar bolas às silvas. Penso que terá começado nesta miscelânea de factores a minha paixão (estejam descansados que tenho pouca paciência para perder tempo com trocadilhos) e a de quase todos os miúdos que foram e vão aprendendo a gostar disto. O valor que se confere aos momentos, ao recorte de uma jogada, à estupefacção de uma bola na trave, ao sonhar com as vitórias, aos pesadelos com as derrotas, às cacetadas que se dá e que se leva, à evolução técnica, à percepção de quem são aqueles que poderão ser nossos amigos e inimigos: tudo isto são elementos que compõem esta escola tão particular que é o futebol. Entretanto, pensei que, mesmo já não tendo idade para me armar em Wim Jonk a despedaçar o máximo possível da porta da garagem, podia “continuar no meio” de um modo igualmente interessante. Lembrei-me da escrita, sobretudo porque gosto de tratar o jogo, assimilando e transmitindo a sua naturalidade e simplicidade.

Deve ser da idade, mas recordo-me daqueles condimentos básicos do jogo cada vez com maior gratidão e satisfação pessoal. Afinal de contas, creio que serão muitas as lições do futebol que ajudam a fortalecer a formação cívica e que, simultaneamente, dão uma resposta convicta aos ignorantes que se regem pela tese comum de que “O futebol é apenas um jogo em que 22 gajos ricos correm atrás de uma bola”.

No entanto, ainda que eu e tantas outras pessoas se sintam tão gratas ao futebol, penso que ele também nos deve qualquer coisa a nós. Existe uma grande dose de respeito que tem de ser devolvida à modalidade e, para começar, confesso que, como diria uma certa figura, mete realmente nojo que treinadores, dirigentes, jogadores e comentadores cobardes surjam quase diariamente na imprensa e com tempo de antena ilimitado a pressionar, insultar e hostilizar as equipas de arbitragem. Mete nojo a mensagem “DEP Jorg Haider” exibida no Vicente Calderón, mete nojo o Cadillac de Celsinho a estacionar na Reboleira e as aparições obrigatórias de Joaquim Evangelista em cada época, metem nojo os chocolates, mete nojo a imprensa encomendada, mete nojo que a grande maioria das pessoas directamente envolvidas no futebol se estejam nas tintas para a essência do jogo. Isto é novo? Claro que não e estes nem sequer são assuntos que tenha gosto em trazer para o Primeiro Toque. Porém, como compreendem, apenas acho que, no último Domingo, a falta de respeito pelo futebol conheceu o seu auge, ironicamente através de quem menos se devia esperar.


Luís Catarino

» 2008-11-12
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