Além da Táctica
Carlos Queiroz
Era o seleccionador desejado pela maioria dos analistas. Reconhece-se a sua capacidade de organização, elogia-se a importância que dá aos escalões de formação e espera-se que consiga nova fornada como a da “geração de ouro”. Se calhar, exige-se-lhe o impossível.
Em 1993, Carlos Queiroz abandonou a selecção principal em conflito com a estrutura dirigente da Federação Portuguesa de Futebol. Para trás ficava um impressionante percurso à frente das selecções jovens, culminando com a conquista, por duas vezes, do título mundial de juniores (1989 e 1991). Pela primeira vez em Portugal, assumia-se que os resultados dependiam de muito mais do que de habilidades técnico-tácticas, passando a ser consensual a importância da formação. Foi dela que surgiram nomes como Paulo Sousa, Figo, Rui Costa, João Pinto e tantos outros que formaram a espinha dorsal de vários êxitos e, sobretudo, de um considerável aumento das expectativas.
Quando passou para o escalão principal, as coisas complicaram-se. Ficou a ideia de que não tinha conseguido contrariar as jogadas de bastidores, as interferências e os interesses que acompanham sempre o nosso futebol ao mais alto nível. O modo como saiu reforçou a suspeita. Seguiu-se o Sporting sem grandes resultados e, entre o adepto comum, foi crescendo a opinião de que Carlos Queiroz não era o tipo de treinador capaz de tirar coelhos da cartola, que é como quem diz, capaz de virar um jogo com uma substituição ou uma alteração táctica. Passou a ser o “treinador dos miúdos” a quem, desde então, só Alex Ferguson soube dar o devido valor.
Hoje, terminado e espremido o ciclo Scolari, as atenções voltam a concentar-se na formação - depois de se esgotarem as jóias da família, há sempre quem se recorde das vantagens do trabalho árduo e honesto... Ora, as “jóias” começam a escassear (faltam laterais-esquerdos, pontas-de-lança, guarda-redes), prevendo-se que, num futuro não muito longínquo, a crise seja ainda maior. Resta saber se a capacidade organizativa do professor vai conseguir “diamantes em bruto” com potencial para lapidação.
Convém não esquecer que vivemos uma realidade nova, criada pela “Lei Bosman”. É hoje frequente ver os principais clubes recrutarem, para os escalões de formação, jovens oriundos das mais diversas partes do mundo. A menos que se opte por uma massiva leva de naturalizações (que a lei não permite), ou se apliquem outras regras, vamos sentir as consequências da menor facilidade existente para o crescimento de novos jogadores portugueses. Este aspecto, conjugado com a situação financeira vivida por grande parte dos nossos clubes (e a consequente pressão para obterem receitas a curto prazo), vão dificultar, muito, o trabalho do seleccionador.
Não menos difícil é conseguir a paciência dos adeptos para um trabalho que, inevitavelmente, vai precisar de tempo. A “geração de ouro” exigiu uns bons anos de trabalho, antes de cada um daqueles nomes começar a andar na bocas do mundo e elevar expectativas, até então bem modestas. Hoje, o mínimo que se exige é que o professor faça melhor do que Scolari, com a esperança mal disfarçada de que seja campeão do mundo. Ajudava ter uma direcção federativa forte, com capacidade para dar a cara nos momentos maus e atenuar as consequências das críticas. Não temos.
Escrevemos anteriormente, a propósito da substituição de Scolari, que o novo responsável pela selecção precisava ter estatuto para se impor aos múltiplos interesses que giram em torno da nossa equipa principal. Carlos Queiroz tem-no, podendo vencer onde, no passado, falhou. Resta saber se, no contexto actual, não será obrigado a falhar onde, anteriormente, venceu.
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2008-07-27