Além da Táctica
A economia das atenções
“A partir do momento em que dirigimos a nossa atenção para uma ideia, acrescentamos-lhe existência, tanto mais que a nossa atenção se torna pública no ciberespaço e que é captada pela grande máquina económica e social planetária. Para onde dirigimos o nosso olhar, a nossa audição, a nossa sensibilidade, os nossos pensamentos? São perguntas que já não são apenas pessoais, íntimas, espirituais, mas directamente económicas.” Pierre Lévy, in “Filosofia World” (2000). Há poucos dias, Guus Hiddink desvalorizou o facto de Cristiano Ronaldo ter sido eleito melhor jogador do mundo pela FIFA, prémio que, segundo o treinador holandês, deveria, antes, ter sido atribuído a Gerrard, Messi ou Xavi. A inevitabilidade da existência de opiniões discordantes em relação a este tema é natural, ainda que ninguém me consiga convencer de que, no último ano, tenha havido outro jogador com uma relação impacto/desempenho tão impressionante como a que o extremo do MU registou nos relvados europeus. Ouvi e li várias vezes o argumento de que Cristiano só “jogou” até Maio e que, por esse motivo, talvez Ibrahimovic, assumindo a esgotante missão semanal de levar a Inter às costas, devesse ter ganho os prémios individuais atribuídos pela France Football e pela FIFA. Que fique bem claro que sou um apaixonado incondicional do calcanhar direito de Ibra e facilmente se reconhece que o sueco foi um elemento com uma preponderância extraordinária no emblema lombardo durante o último ano. Até porque nem sequer confiro assim tanta importância a este título, não vou apresentar prós e contras técnicos exaustivos sobre quem é que deveria ter sido eleito. Mas deixo-vos a pensar sobre o seguinte, numa perspectiva mais ampla: o que é que constrói, em bom rigor, a figura do “melhor do mundo”?
Referindo-se a Cristiano Ronaldo, Hiddink considera, pelos vistos, que é com o cabelo bem arranjado e uma boa forma física que se chega lá. Se calhar é preciso um bocadinho mais do que isso, mas percebe-se onde é que o atual seleccionador da Rússia quer chegar e, em certa medida, até me vou servir dessa ideia aparentemente redutora: a presença mediática acrescida àquilo que é concretizado nos estádios é algo que influi decisivamente na deslocação das atenções. Resgatando algumas reflexões de Pierre Lévy, compreenderemos melhor como funciona este processo e como a eleição de um jogador pode ter a ver com este mecanismo.
Cristiano Ronaldo, também cada vez mais identificado pelos consumidores do jogo através de um logótipo apelativo (CR7), trouxe conceitos refrescantes à galáxia do futebol, não só porque começámos a assistir a um extremo a marcar uma quantidade brutal de golos, como também porque foi alimentando a imagem de uma super-estrela narcísica, capaz de dividir o público num conflito amor/ódio – um recente spot comercial da Nike mostra precisamente um slogan com essa dicotomia.
Ronaldo acabou em Maio?

“Quanto mais nos interessamos por um tema, tanto mais o universo cresce e se complexifica na região em que este tema floresce”, diz Lévy em “Filosofia World”. É por aqui que posso concordar com Hiddink. Cristiano Ronaldo tirou proveito da sua máquina de marketing, veiculada por todos os canais de media, sendo que o objectivo dos órgãos de comunicação é claro: congregar a deslocação das atenções do público, que é, afinal de contas, o único destinatário desta poderosa economia de ideias.
Mas reparem agora na outra face da moeda. Ronaldo acabou em Maio? Essa é a opinião de muitos críticos. Honestamente, não seria mais sensato questionar antes se é possível manter aquele nível de rendimento inacreditável por muito mais tempo, num campeonato de Europa de selecções após uma temporada tão desgastante e ainda por cima carregando uma lesão?
Outras questões haveria para colocar, mas pensem também em como a própria velocidade deste turbulento mercado de atenções exige novos ídolos, caras e marcas. No último semestre de 2008, inclusivamente já depois de ter recuperado da cirurgia a que foi submetido, Cristiano Ronaldo deixou, obviamente, de marcar tantos golos e de aparecer nas peças de dois minutos dos telejornais, com a mesma rapidez com que poucos meses antes era elevado à condição de número 1 absoluto.
Mais do que querer saber se Ronaldo foi, ou não, o melhor jogador do mundo em 2008, penso que se tornará mais decisivo conhecer o nosso excessivo grau de passividade enquanto consumidores de espectáculo. O frenesim da economia das atenções não permite tempos mortos e tem nos media o seu melhor utensílio para corresponder à avidez do público enquanto “inteligência coletiva” na procura de novas preferências massificadas.
Luís Catarino
» 2009-01-28