Além da Táctica
A desculpa espanhola
O problema é que eles existem. Construídos para o Euro 2004, muito para além do que era exigido e sem terem em conta os novos tempos do futebol nacional, os estádios são, em grande parte dos casos, autênticos “monos” que não conseguem receita nem para pagar a conta da luz. Já houve quem lá promovesse casamentos e baptizados. Começa a aparecer quem defenda a sua demolição. Agora, Madail pensou na organização do Mundial conjuntamente com Espanha. O Presidente da República está contra e há quem recorde a nossa tradição histórica.
Num país que, durante anos, baseou o seu crescimento económico nas liberdades concedidas à construção civil, era inevitável este final menos feliz. Ao fim e ao cabo, os exageros cometidos com os estádios não foram diferentes dos que envolveram centenas de centros comerciais, urbanizações, “resorts” por esse país fora, sempre justificados com a “dinamização económica” e garantia de chorudos lucros. Faça-se a história da brincadeira e facilmente se irá concluir que apenas resta o amontoado de tijolo mais ou menos estiloso e, quanto a lucros, só os que foram arrecadados pelos responsáveis pela obra.
No entanto, a situação de estádios como os de Faro, Leiria, Coimbra, Aveiro e Braga é mais chocante porque originou um endividamento das autarquias muito superior à sua capacidade. Daí que haja quem defenda ser necessário trazer eventos para Portugal que ajudem a atenuar os estragos – talvez tenha sido esse o objectivo da ideia de Madail. Todavia, é preciso reconhecer que, numa organização conjunta com Espanha, a parte do evento de que nos podemos apropriar é muito pequena e geograficamente limitada. Adivinhando-se a presença obrigatória de Lisboa e Porto, pouco resta para animar os municípios afogados em dívidas.
Cavaco Silva, homem de contas e pouco dado a futebóis, sabe disto. É verdade que foi ele quem autorizou aquilo em que se transformou a “Expo-98”. Mas, com mais ou menos “derrapagem”, mais ou menos obra suspeita, o espaço lá continua a animar a “economia do betão” e assim vai continuar enquanto se mantiver a fama de por ali ter passado a mão de Siza Vieira, Gonçalo Ribeiro Telles e tantos outros. Não há campo de futebol que tenha esta capacidade. Conhecedor do meio, até é bem possível que o Presidente da República já esteja a prever nova onda despesista, à custa de umas quaisquer “remodelações necessárias” que, no fim, agravem ainda mais o problema.
Claro que tudo o que meta Espanha põe-nos a fazer peito, pelo que não admira já haver quem garanta que uma organização conjunta pusesse os nossos egrégios avós às voltas na campa até ao dia do juízo final. Gente habitualmente lúcida vai ao ponto de dizer que a organização do Mundial sim senhor, mas sozinhos e nada de más companhias. Sucede que, ou muito nos enganamos, ou desta vez vamos ficar a dever uma aos nossos vizinhos.
Às voltas com uma profunda crise cujas origens têm muito que ver com o que alguém baptizou de “monocultura do tijolo” (crescimento artificial à custa da facilidade de concessão de créditos dirigidos para aquisição de casas), os responsáveis espanhóis vão, muito provavelmente, optar por uma de duas vias: se a FIFA garantir o pagamento da factura, avançam sozinhos; se houver necessidade de injectar dinheiros públicos, nem sozinhos, nem por nós acompanhados.
Em qualquer dos casos, ficaremos sempre a ganhar. Na primeira hipótese, porque isso permitirá adiar o regresso dos nossos emigrantes que trabalham na construção civil do outro lado da fronteira. Na segunda, porque nos permite arranjar uma desculpa, dizendo que só não avançamos porque os espanhóis tiveram medo. E nós gostamos de imaginar os espanhóis com medo. Sobretudo, gostamos de uma boa desculpa. Só continuaremos a não saber o que fazer com os estádios.
Gil Camposgilcampos@hotmail.com
» 2008-02-16