Além da Táctica
¿Por qué te callas?
Depois do episódio em que "defendeu o
minino", desabrido, Scolari abandonou impetuosamente a conferência de imprensa da consagração. Precisamente a consagração não sugeriria aborrecimentos nem silêncios. Bem antes euforias e folguedos, como os dos jogadores. Depois da peleja de aflitos de quarta-feira passada, o inefável Nuno Gomes enalteceu o jogo da selecção. E o entusiasta Cristiano rejubilou: "Portugal está bem!".
Ora sabemos que só no futebol isso poderia ser verdade. E não é. Sabemos que com um grupo a sério, este mínimo dos mínimos que coloca a equipa no Europeu não daria para ir do Jamor à Trafaria. Sabemos que o agasto de Scolari não era com as perguntas que legitimamente os jornalistas lhe faziam. Mas que pelo contrário enfileirava com a adrenalina de, minutos antes, quase ao cair do pano, os finlandeses terem ficado a centímetros do Suíça-Áustria com uma bola transviada rente ao poste de Ricardo.
É evidente que Portugal pode perfeitamente não se apurar para um campeonato de futebol, qualquer que ele seja, sem que daí venha mal ao mundo. Tem-se apurado nos últimos anos e nem por isso vivemos num país (mais) decente. O problema é a arrogância dos multimilionários gestores de emoções que caprichosamente entendem que um povo inteiro lhes fica devedor por eles fazerem o seu trabalho, nem que indigentemente, como desta e doutras vezes.
Deve haver explicações para a campanha triste da selecção portuguesa de futebol num dos menos prestigiantes grupos de apuramento para o Euro 2008. Mas se os jogadores rejubilam em seco e o seleccionador se enfuna em cheio, ficaremos sem o saber, embora suspeitemos.
Enfim,
¿Por qué te callas?, como bem diria a Luiz Felipe Scolari outro mal-educado, neste caso rei de Espanha.
Rui PereiraJornalista
» 2007-11-23