Chelsea
Acabou-se a idade da consola

Muitas vezes, e na maioria dos casos com alguma injustiça, os episódios negativos ao longo da carreira de um futebolista são destacados pelos adeptos e pelos jornalistas em detrimento da capacidade e habilidade desportiva.
Recordo o complexo percurso de Nicolas Anelka, um talentoso avançado que migrou de Paris para Londres, mas que posteriormente em Madrid não foi capaz de continuar a exibir a sua distinta capacidade técnica, classe e instinto para fazer golos.
Segundo relatou o próprio Anelka, no primeiro dia no Santiago Bernabéu, Eto’o e Geremi alertaram-no para o facto de alguns jogadores do núcleo duro do balneário tencionarem boicotar a sua vida no clube, pois não queriam que Morientes, também ponta-de-lança, perdesse espaço na equipa.
O francês, então com 20 anos e perante uma inesperada quantidade de adversidades, não deu propriamente a melhor resposta e acabou por faltar várias vezes aos treinos do Real Madrid, enclausurando-se em casa a jogar consola. Durante anos, esta imagem de inconstância, de excessiva irreverência, de fragilidade psicológica em alternância com alguma arrogância foi a que imperou sempre que se falava de Anelka.
No entanto, anos depois, no regresso a Inglaterra, especialmente no Manchester City e no Bolton Wanderers, começámos a ver um jogador diferente. Mais calmo e compenetrado, mas também com bons desempenhos individuais, de tal modo que Abramovich o adquiriu para o Chelsea por nova quantia exorbitante.
E é agora, com 30 anos de idade, que temos a possibilidade de assistir ao melhor Anelka de sempre, quer em Stamford Bridge, com o clique de Ancelotti, quer na selecção francesa, com a qual se prepara para disputar a sua primeira fase final de um Mundial.
Não tem a electricidade que mostrava em Highbury de 1997 a 1999, mas é agora um jogador muito mais completo e competitivo. Faz tudo bem. Toca a bola curta com simplicidade, certeza e confiança, protege-a com segurança e movimenta-se no ataque com liberdade e inteligência, junto às linhas ou no eixo, protagonizando uma dupla de enorme qualidade com Drogba
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No fundo, ao ver hoje um jogo de Anelka apercebemo-nos de que uma fase do passado não deve ofuscar o presente.
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Esta relação de cumplicidade que se estabeleceu entre Anelka e Drogba é um dos vários factores que explica o sucesso recente do Chelsea, quer a nível doméstico, quer a nível europeu. E até é visível que o marfinense apresenta um menor desgaste físico comparativamente a épocas anteriores, uma vez que agora conta com um apoio mais próximo e não está tão sujeito a um estilo de jogo que o solicite tantas vezes no futebol aéreo e físico entre os defesas-centrais.
Luís Catarino
» 2009-12-03